Leitura dramatizada reúne 11 artistas em torno de obra do Teatro Experimental do Negro que aborda ancestralidade, racismo, desejo e ascensão social
Leitura dramatizada reúne 11 artistas em torno de obra do Teatro Experimental do Negro que aborda ancestralidade, racismo, desejo e ascensão social
O ATO Teatro realiza, no dia 19 de setembro, uma leitura dramatizada de "Sortilégio – Mistério Negro", de Abdias Nascimento, no Museu da Abolição, no Recife. Com direção de Kennyo Severa e assistência de Raíza Rameh, a apresentação reúne integrantes do coletivo e artistas convidados em torno de uma das obras fundamentais ligadas ao Teatro Experimental do Negro (TEN).
A programação começa às 15h, com a abertura do espaço para a convivência entre público e artistas, e a leitura tem início às 17h. A entrada é gratuita, com contribuição espontânea.
Escrita no final da década de 1950, Sortilégio nasceu no contexto do Teatro Experimental do Negro, criado por Abdias Nascimento em 1944. A dramaturgia reúne referências afro-brasileiras, religiosidade e elementos do universo da macumba para abordar conflitos relacionados à ancestralidade, ao racismo, ao desejo e à busca por reconhecimento social.
A trama acompanha Emanuel, homem que rejeita suas origens na tentativa de alcançar prestígio e ascender socialmente. Após assassinar a própria mulher e abandonar sua verdadeira paixão, ele acredita ter conseguido se afastar do passado. O reencontro com o território da tradição, porém, o obriga a confrontar aquilo que tentou apagar de sua identidade.
A encruzilhada assume, nesse contexto, uma dimensão para além do espaço da ação dramática. Torna-se também lugar de confronto entre pertencimento e negação, tradição e desejo de integração a uma sociedade marcada pelo racismo.
Uma dramaturgia sem personagens idealizados
Na leitura dirigida por Kennyo Severa, a complexidade das personagens assume um lugar de destaque. Ifigênia e Margarida, ligadas à trajetória de Emanuel, também permitem observar as contradições sociais presentes na obra.
“Abdias configura Ifigênia e Margarida como embates psicológicos e sociais não só de Emanuel, mas de um tempo. São personagens que carregam as contradições de uma sociedade que obriga pessoas racializadas a agir estrategicamente para alcançar uma prosperidade econômica que também foi construída sobre seus próprios corpos”, afirma o diretor.
Para Severa, a atualidade de Sortilégio também está na recusa de Abdias Nascimento em criar figuras moralmente simples ou idealizadas. Racismo e violência convivem na peça com desejo, espiritualidade, conflitos éticos e experimentação poética.
“Sortilégio é uma dramaturgia audaciosa, que não poupa suas personagens das complexidades morais e éticas. O TEN não produzia heróis lineares. Produzia experiências estéticas e poéticas que também buscavam desestruturar simbolicamente uma identidade construída pelo esquecimento”, observa.
A apresentação no Museu da Abolição oferece ao público a oportunidade de revisitar uma obra de referência da dramaturgia negra brasileira, na qual Abdias Nascimento confronta o racismo e as tentativas de apagamento da ancestralidade negra.
Experimentação em diferentes espaços do Recife
Experimentação em diferentes espaços do Recife
Criado pelo diretor Felipe André Silva, o ATO Teatro surgiu com a proposta de manter um espaço permanente de experimentação cênica através de leituras dramatizadas mensais. Cada obra recebe uma única apresentação, concebida também como encontro entre artistas e espectadores.
O coletivo já realizou ações em locais como a Academia Pernambucana de Letras, a Galeria Joana D’Arc e o Mercado Eufrásio Barbosa. Nesta edição, além de Kennyo Severa, Guta Menelau e Raíza Rameh, participam Ton de Souza, Sabrina Loiola, Erique Nascimento, Kadydja Erlen, Fábio Henrique, Maddu Cabral, Aline Gomes e André Lourenço.
Ator, escritor e dançarino, Kennyo Severa é formado em Teatro pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), mestre e doutorando em Artes Cênicas pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). Integra o Grupo de Pesquisa Cena Preta – Quilombo (UFPB/CNPq) e desenvolve práticas relacionadas à encantaria e ao benzimento em diálogo com a criação artística.
SERVIÇOATO Teatro — “Sortilégio – Mistério Negro”, de Abdias Nascimento
Local: Museu da Abolição — Rua Benfica, 1150, Recife
Data: 19 de setembro de 2026 (sábado)
Abertura do espaço: 15h
Leitura dramatizada: 17h
Duração: 2h
Entrada: gratuita — contribuição espontânea
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