por Taciana Oliveira |
Em Estou quase pronto, Wellington de Melo narra a trajetória de Miró da Muribeca sem dissociar o homem da obra.
Há artistas em que a obra não pode ser dissociada da própria existência. Miró da Muribeca é um deles. Durante décadas, fez das ruas, dos bares, das escolas e dos palcos o lugar de realização de sua poesia, transformando cada leitura em experiência coletiva. Diante de uma trajetória tão marcada pela oralidade e pela performance, parecia improvável que sua vida pudesse ser contada apenas pelas páginas de um livro. Em Estou quase pronto (Cepe Editora, 2025), Wellington de Melo demonstra que esse percurso não apenas encontra na biografia uma forma convincente de narração, mas também revela as origens de uma das vozes mais singulares da poesia pernambucana.
Não é um desafio pequeno. Biografias de escritores costumam privilegiar as publicações ou apresentar seus personagens enquanto intelectuais apartados da experiência cotidiana. Wellington de Melo segue uma direção oposta. Seu Miró nunca está parado: atravessa ruas, viaja de ônibus, muda de cidade, encontra amigos, vive paixões, enfrenta o alcoolismo, adoece, cai e recomeça. Esse movimento organiza a narrativa. Ao contrário dos capítulos guiados apenas pela cronologia, o autor adota ruas, bairros, hospitais e cidades como marcos do percurso biográfico. A geografia não funciona enquanto um simples cenário, ela integra a própria construção da narrativa. Cada endereço corresponde a uma etapa da formação humana, artística e poética de Miró.
A escolha de iniciar a narrativa em 2020, quando o poeta enfrenta simultaneamente a dependência alcoólica e o câncer, se revela extremamente significativa. O leitor conhece primeiro um homem fragilizado, internado, pesando apenas 37 quilos, muito distante da imagem expansiva que marcou sua trajetória pública. Antes do mito, surge o corpo. Antes da “consagração”, aparece a vulnerabilidade. Essa inversão impede qualquer leitura hagiográfica e restitui a complexidade de um personagem marcado por contradições, fragilidades e uma notável liberdade criativa.
Ao reconstruir a infância na Vila Revoredo, a juventude na Muribeca e os sucessivos deslocamentos pelo país, Wellington demonstra que Miró jamais se afastou das origens que moldaram sua visão de mundo. A periferia não aparece apenas como cenário, ela é a própria matéria de sua poesia. Seus versos não falam sobre os excluídos; nascem dessa experiência. A diferença é fundamental. Miró nunca observou o povo à distância. Escreveu porque fazia parte dele.
É nesse ponto que Estou quase pronto deixa de ser apenas a história de um poeta para se tornar também um retrato do Brasil. A trajetória de João Flávio Cordeiro da Silva, o menino que se tornaria Miró da Muribeca, expõe as marcas do racismo, da desigualdade social e da exclusão que acompanharam sua vida. Entre os episódios recuperados pelo biógrafo, um se destaca: ainda funcionário da Sudene, Miró foi suspenso após publicar um poema no jornal interno da instituição. A mensagem era clara: um servente não deveria ocupar o mesmo espaço destinado aos intelectuais. Anos mais tarde, já debilitado pela doença, médicos chegaram a interpretar sua afirmação de que era poeta como um possível delírio. Esses acontecimentos revelam a dificuldade histórica do país em reconhecer a produção intelectual de homens negros e periféricos, sobretudo quando ela rompe os limites sociais que lhes foram tradicionalmente impostos. O autor se sobressai em não transformar esses acontecimentos em discurso panfletário. Eles são incorporados à própria narrativa da vida de Miró, permitindo que o leitor perceba como desigualdade, racismo e exclusão permearam sua existência sem jamais reduzir sua potência criativa.
Ao reunir depoimentos de familiares, amigos, médicos, escritores e artistas, ele reconstrói uma trajetória marcada por lacunas, memórias dispersas e episódios quase lendários. A documentação, a pesquisa minuciosa nunca pesam sobre o texto e não comprometem o ritmo da leitura. Ao contrário, sustenta uma narrativa ágil, em que informação e elaboração literária caminham lado a lado. No final da leitura, permanece a sensação de que Wellington não escreveu apenas a biografia de um poeta, mas descreveu uma forma de fazer poesia.
Miró pertence a uma tradição em que literatura, oralidade e performance caminham juntas. Sua poética nasce do encontro entre palavra e corpo, entre experiência e linguagem, entre cidade e memória. Talvez por isso o título Estou quase pronto seja tão preciso. Não há conclusão possível para um artista cuja voz continua ecoando nas ruas que viveu. O livro encerra uma vida, mas não encerra sua presença. A biografia em questão é um documento importante para compreender a poesia produzida fora dos circuitos tradicionais de reconhecimento. E reforça que alguns nomes continuam indispensáveis justamente porque nasceram do lugar onde o país insiste em não enxergar.
Ao devolver a palavra a Miró no poema que dá título ao livro, Wellington de Melo encerra a narrativa sem impor um ponto final à trajetória do poeta. Estou quase pronto nomeia não é apenas uma obra, mas uma existência marcada por transitoriedades, quedas, recomeços e pela permanente disposição de transformar a existência em poesia.
O projeto gráfico, o itinerário dos capítulos, as fotografias e os documentos reunidos ao longo do volume reforçam essa sensação de percurso inacabado. Assim, a biografia não se limita a preservar a memória de Miró da Muribeca: mantém viva sua voz e confirma a solidez de versos que nasceram nas ruas, atravessaram corpos, cidades e continuam a encantar novos leitores.
estou quase pronto
para esperar um novo dia
já coloquei meu riso no varal
lavei minha alma no tanquinho
estou quase pronto
nu
para vestir os tristes de amor
dos que pensam em pular do oitavo andar
ou tomar remédio para dormir
estou quase pronto para acordar
para um novo dia
as nuvens me esperam na janela
a lua caiu dentro do meu quarto
enfeitando as fronhas
colocando travesseiro para dormir
eu acordado
quase pronto
para um novo dia
se bem que pronto
para um novo dia
quase ninguém está
A seguir, confira a entrevista com Wellington de Melo
1. Você escolhe iniciar a biografia em 2020, quando Miró enfrenta simultaneamente o alcoolismo e o diagnóstico de câncer, para depois retornar à infância e reconstruir sua trajetória. O que motivou essa estrutura narrativa, que rompe com a ordem cronológica tradicional das biografias?
Eu acho que a biografia é um gênero muito rico, mas como quem entra numa biografia supostamente já tem interesse na vida do biografado, risco é achar que não se tem que conquistar o leitor a entrar naquele mundo. Na ficção, é preciso fazer esse convite para habitar um mundo estranho, é preciso incentivar sempre a virar a página. Então, minha proposta foi fugir da armadilha da biografia: queria escrever um livro que prendesse desde a primeira página, para que mesmo que as pessoas não conhecessem Miró, quisessem saber sobre sua vida.
2. Além de escritor, você é curador da obra de Miró da Muribeca e conviveu de perto com ele em diferentes momentos da vida. Como foi equilibrar a proximidade afetiva com o rigor da pesquisa para construir um retrato honesto do poeta, sem ocultar suas fragilidades?
É difícil quando se é próximo, porque você sabe o que as pessoas que não convivem não sabem, vê para além da figura pública, entende as contradições do humano. Por isso mesmo, meu compromisso com esse “retrato honesto” que você menciona era redobrado. Mas eu não estava preocupado em ser fiscal dos fatos, porque acho que a beleza da biografia é adentrar na memória do biografado, que nem sempre bate com a realidade. Em alguns momentos, tratei com humor das situações em que Miró dizia estar em um lugar e os documentos mostravam outra coisa. No lançamento em São Paulo, na Livraria Simples, com mediação da Renata Beltrão, rolou até uma coisa engraçada. Milton Aguiar, poeta amigo de Miró, que participou da conversa, insistiu que não estava num evento com Miró em abril de 1986. Eu abri a página para mostrar uma foto dele, mas não teve jeito. No livro, eu disse que Miró, desafiando as leis da física, naquele abril de 1986, estava em dois lugares ao mesmo tempo.
3. Ao longo do livro, Miró é destacado como um dos principais poetas brasileiros da atualidade, mas também um homem negro, periférico e profundamente ligado ao Recife. De que forma você procurou mostrar que sua trajetória pessoal e sua produção literária são inseparáveis?
No dia do enterro de Miró, o jornalista Inácio França escreveu um lindo artigo na Marco Zero em que fala como sempre que morre um poeta preto há uma tentativa de enquadrá-lo em rótulos como “poeta periférico”, “poeta marginal”, “poeta urbano”. “Fosse branco e acadêmico”, escreveu França, “editores e colunistas da mídia pernambucana não fariam tantos malabarismos para tentar enquadrar o que não conseguiram compreender. Seria apenas poeta. Se fosse para arrumar adjetivos para qualificar o substantivo, diriam ‘maior poeta contemporâneo’ da língua portuguesa.” Eu acho que Miró transcende o Recife, inclusive isso fica claro na biografia, porque ele foi um poeta andarilho, que já nos anos 1980 rodou muito, o que o tornava quase um corpo estranho dentro da cena poética do Recife, mais um lobo solitário, sem participar de patotinhas. A vivência dele é tão inseparável da obra como a de qualquer outro poeta, nem mais, nem menos. Fora disso, é tentar enquadrar Miró nesse “exotismo” do poeta urbano.
4. A biografia revela bastidores pouco conhecidos da vida de Miró, como as crises provocadas pelo alcoolismo, as dificuldades financeiras e os desafios impostos pela doença. Em algum momento, você hesitou em abordar aspectos tão íntimos da vida do poeta? Como definiu os limites entre a preservação da memória e a exposição da vida privada?
Eu não queria fazer uma biografia chapa branca, que colocasse para debaixo do tapete os temas desagradáveis – a relação problemática com as mulheres, o abandono do filho, o alcoolismo. Conversei muito com Miró e chegamos à conclusão de que não podíamos fugir desses temas, e ele estava muito sereno sobre isso. Minha régua era que tudo fosse tratado com dignidade, e a recepção que o livro vem tendo aponta para que isso foi alcançado. Por outro lado, algumas pessoas não quiseram ter seus nomes citados, não queriam que algumas histórias fossem ao livro, e respeitei.
5. Você atua entre diferentes atividades — escritor, pesquisador, professor, editor e curador. De que maneira essas experiências se cruzam na sua produção literária e influenciaram a escrita de Estou quase pronto?
Interessante você perguntar, pois não tinha pensado sobre isso. Acho que neste livro, minha experiência como pesquisador acadêmico me ajudou a sistematizar as informações, a checar as fontes, cotejar os dados que eu tinha. Foi o ficcionista que pensou a estrutura do livro, que acaba pisando no romanesco — daí o estranhamento com as biografias convencionais; mas é uma prosa em que a linguagem, as imagens são importantes, porque não pensava que pudesse escrever uma biografia sobre um poeta com uma linguagem que não fizesse jus a ele. Mas ao longo do processo, o diálogo com o editor Diogo Guedes e o designer gráfico Jânio Santos foi muito importante para tomarmos decisões editoriais, sobre o projeto gráfico, principalmente, mas tudo que tinha a ver com pensar o livro enquanto um objeto que as pessoas quisessem ter. Na campanha de lançamento, na divulgação, com pré-venda, brinde especial, em toda essa parte do marketing mesmo, também tive participação, porque acho que são dois trabalhos diferentes — escrever e vender — e o autor, se possível, deve colaborar.
6. Nos últimos anos, a literatura produzida fora dos grandes centros e as vozes periféricas conquistaram maior espaço no mercado editorial, embora ainda enfrentem muitos desafios. Como você avalia o momento atual da literatura brasileira e quais caminhos considera fundamentais para ampliar a circulação de autores e narrativas como a de Miró da Muribeca?
Acho que vivemos um momento contraditório, em que há muitas vozes potentes que seguem impactando o tecido cultural em seus territórios e fora deles, enquanto há também um movimento problemático de tiktokalização – vamos chamar assim – do cânone, em que o número de seguidores nas redes sociais é moeda de troca para sentar à mesa com editoras grandes. É um pouco triste, mas sendo bem sincero, há um bom tempo que o mercado não tem a qualidade literária como primeiro critério de escolha. Não há grande surpresa nisso e não impacta muito na hora de escrever – que é a parte do jogo que nos cabe. Ao mesmo tempo, não acho que devemos ser passivos. Parte do êxito de Miró só se dá ao fato de ele não ter esperado abrirem portas a ele: ele mesmo criou suas portas. Escritores que não estão no eixo Rio-São Paulo devem aprender com essa lição.
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Wellington de Melo é escritor, professor e editor. Doutor em Estudos Literários pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), leciona no Colégio de Aplicação da instituição. Autor dos livros Estrangeiro no labirinto (romance semifinalista do Prêmio Portugal Telecom), O caçador de mariposas e Emilio (Cepe Editora), atua como curador da obra de Miró da Muribeca e assina Estou quase pronto, primeira biografia dedicada ao poeta pernambucano.

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