por Taciana Oliveira |
Em Salto, Clara Amorim parte da experiência da natação para escrever sobre aprendizagem, memória, mulheres e luto
Em Salto, Clara Amorim parte da experiência da natação para escrever sobre aprendizagem, memória, mulheres e luto
Há uma ambiguidade decisiva no título do segundo livro de Clara Amorim. Salto (Curva Editorial, 2025) nomeia tanto a ação quanto o movimento produzido por ela. É verbo e substantivo, impulso e resultado. No texto de abertura do volume, Lilian Sais chama atenção justamente para essa duplicidade e acrescenta outra dimensão: todo salto contém risco, porque a possibilidade da queda está inscrita no próprio gesto de lançar o corpo.
Embora a natação seja uma das imagens centrais do livro, sua escrita nasceu, segundo Amorim, de um diário mantido durante as aulas, Salto não é propriamente um livro sobre nadar. A experiência aquática fornece um vocabulário para falar de algo mais difícil de apreender: o que acontece conosco quando precisamos aprender uma nova maneira de estar no mundo.
Aprender implica repetição, erro, observação e exposição. Antes que um movimento se torne natural, é preciso pensar no corpo, descobrir sua posição, compreender aquilo que até então ele não sabia fazer. Clara transfere esse estado de atenção para a escrita. A piscina torna-se um espaço no qual o corpo é observado enquanto experimenta seus limites, mas também um lugar de onde emergem lembranças, relações familiares, histórias de mulheres e experiências de perda. O movimento temporal acompanha essa dinâmica.
Salto atravessa infância, adolescência e vida adulta, fazendo com que aprender deixe de pertencer exclusivamente ao presente. O passado reaparece não obedecendo necessariamente a uma cronologia, mas convocado pelas associações que o presente provoca. É também por isso que a fronteira entre autobiografia e ficção permanece deliberadamente instável. O eu que fala pode nascer da experiência da autora, mas não se limita à função de testemunhá-la. O livro coloca em primeiro plano um corpo lírico feminino, frequentemente narrado em primeira pessoa, ao mesmo tempo que agrega outros corpos e outras histórias. Lilian Sais identifica nesse procedimento um “mosaico de histórias, vidas, mulheres e fantasmas”.
A água ocupa posição fundamental nesse processo. Ela não aparece somente enquanto cenário ou motivo recorrente, mas interfere na própria maneira como o livro organiza suas imagens. Na água, o corpo perde algumas das referências que possui em terra firme: peso, equilíbrio e deslocamento precisam ser reaprendidos. Algo semelhante acontece com a memória em Salto. Ela não surge a exemplo de relato inteiramente organizado, mas por aproximações, fragmentos e retornos. A alternância entre versos e pequenos trechos em prosa contribui para essa mobilidade. Clara não parece interessada em manter fronteiras rígidas entre formas literárias. O poema pode assumir uma dimensão narrativa, enquanto a prosa se deixa atravessar pelo ritmo, pela condensação e pela imagem poética.
Há ainda uma relação interessante entre o aprendizado da natação e a atenção dedicada à língua portuguesa. Nos dois casos, trata-se de compreender mecanismos que utilizamos muitas vezes sem perceber. O corpo precisa aprender a executar um movimento; a palavra, retirada da familiaridade do uso cotidiano, volta a revelar suas ambiguidades. O próprio título demonstra essa operação: “salto” é simultaneamente aquilo que se faz e aquilo que resulta do fazer. Nesse sentido, aprender a nadar e escrever poesia aproximam-se. Ambos dependem de ritmo, respiração, pausa e repetição. E ambos exigem aceitar certa instabilidade antes que seja possível avançar.
As mulheres que atravessam o livro ajudam a levar Salto para além de uma experiência estritamente individual. São presenças que aparecem associadas à convivência, às histórias familiares e às formas pelas quais uma mulher aprende também observando outras mulheres. A primeira pessoa convive, portanto, com vidas narradas de fora, criando uma espécie de memória compartilhada. Mas existe uma ausência que modifica o peso dessas lembranças: a morte do pai. O luto introduz no livro uma aprendizagem de natureza radicalmente diferente. Há coisas que podem ser aprendidas pela repetição, um movimento, uma técnica, talvez até uma palavra, e há experiências para as quais nenhuma preparação parece suficiente. É nesse contexto que a metáfora do salto alcança uma de suas leituras mais fortes. Saltar pressupõe sair de uma posição conhecida sem possuir domínio completo sobre o instante seguinte. Há impulso, suspensão e queda. A leitura proposta no texto de abertura do livro chama atenção para essa sequência ao lembrar que, depois do salto, existe inevitavelmente algum tipo de impacto.
O luto encontra lugar justamente nesse intervalo entre aquilo que existia e aquilo que já não pode ser recuperado. Ao contrário de buscar uma resposta definitiva para a perda, Clara aproxima a ausência das pequenas experiências do cotidiano. A saudade passa a coexistir com aquilo que continua: aulas, movimentos, palavras, relações e descobertas. Essa dimensão ajuda a compreender a presença de “fome e saudade”, expressão que aparece logo no início da obra e sintetiza duas forças aparentemente opostas. A fome aponta para aquilo que ainda se deseja; a saudade, para aquilo que já se perdeu. Entre as duas está um corpo vivo, obrigado a continuar.
O projeto gráfico de Ana C. Bahia e as ilustrações de Olívia Viana participam dessa construção. Não funcionam somente como acompanhamento dos poemas. A presença visual da água atravessa o objeto-livro e estabelece continuidade entre palavra, corpo e movimento. Entre referências como Anne Carson, Sophie Calle, Lilian Sais e Flávia Péret, Clara Amorim encontra uma escrita interessada justamente nas zonas em que vivência, memória e invenção deixam de poder ser facilmente separadas.
Talvez esteja aí uma das qualidades de Salto: partir de um gesto concreto, aprender a nadar, para alcançar questões que escapam a respostas definitivas. Como se aprende a conviver com uma ausência? O que permanece daqueles que fizeram parte de uma vida? E o que significa seguir adiante quando todo impulso carrega também o risco da queda? Clara Amorim não tenta resolver essas perguntas. Sua poesia mergulha justamente nesse território incerto, onde aprendizado e perda, presença e ausência, movimento e suspensão coexistem. Em Salto, a água deixa de ser apenas um elemento recorrente para se tornar uma imagem da própria condição de estar no mundo: é preciso aprender a respirar, encontrar algum equilíbrio e, em determinado momento, aceitar que seguir em frente também exige perder o chão.
POEMAS DO LIVRO
Borboleta
Quero acreditar que existe algo nesse silêncio antes do começo, uma espécie de hesitação, e que do outro lado você também está interessada pelo que vai acontecer no momento em que nos cruzarmos. Estamos na mesma raia, cada uma num extremo da piscina. Seus óculos são escuros, então não sei se está olhando pra mim. Não seguimos o mesmo ritmo. Eu, por vezes, parava só para te olhar vindo em minha direção. Os braços como duas hastes firmes saindo da água, as mãos se juntando à frente da cabeça e logo submergindo de novo. A superfície recebe o tapa fundo dos seus pés. Por baixo d’água eu só posso imaginar a sua ondulação pélvica, impossível para minhas hérnias de disco. Mas me delicio principalmente com a forma como você chega aqui, do outro lado, a cabeça subitamente saindo da água, a boca entreaberta, ofegante. O corpo todo se rendendo à borda da piscina.
Não completei todas as chegadas. Volto amanhã.
*
Demorou um tempo
para que eu entendesse
as palavras não são
a única coisa que se lê
lê-se também
os próprios pés
a maneira como caminham
num dia
depois noutro
as linhas da mão
suas mudanças de rota
lê-se o tempo
lê-se cidades
as vigas de seus viadutos
os olhos de alguém
prestes a quebrar
*
Imagine se aquela professora soubesse que estava ensinando a segurar
o lápis uma criança que, um dia, escreveria um poema para se salvar.
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Clara Amorim é autora de Salto (2025), Canção para fazer o sol nascer (2022) e coautora da coletânea Corpo de terra. É escritora, professora de linguagens e literatura, mediadora de oficinas de leitura e criação poética. Formada em Letras e pós-graduada em Gestos da Escrita.
*Taciana Oliveira – Natural de Recife (PE), é bacharel em Comunicação Social (Rádio e TV) e pós-graduada em Cinema e Linguagem Audiovisual. Roteirista, diretora e produtora cinematográfica, é criadora das revistas digitais Laudelinas e Mirada Janela Cultural, além de coordenar o Selo Editorial Mirada. Dirigiu o documentário Clarice Lispector – A Descoberta do Mundo e integra a direção do longa-metragem de ficção O Rio de Clarice, no qual assina o segmento Amor. Publicou Coisa Perdida (Mirada, 2023), livro de poemas.
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