Angela Chaves transforma monumentos do Rio em personagens de Histórias de ferro e pedra

por *Taciana Oliveira


Primeira coletânea de contos da escritora e roteirista reúne sete histórias inspiradas no patrimônio carioca

Estátuas, chafarizes, calçadas e outros elementos da paisagem urbana deixam de ocupar uma posição silenciosa para observar, desejar, lembrar e até interferir no mundo ao redor em Histórias de ferro e pedra, primeira coletânea de contos da escritora e roteirista Angela Chaves. Publicado pela Editora Mondru e lançado durante a Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) 2026, o livro reúne sete narrativas inspiradas em monumentos e espaços públicos do Rio de Janeiro.

Criadora e roteirista da série Pedaço de Mim, Angela parte de uma pergunta que orienta a obra: e se os monumentos observassem a vida das pessoas? A partir dela, elementos aparentemente imóveis da cidade ganham desejos, ressentimentos, lembranças e sonhos, estabelecendo um diálogo entre o patrimônio histórico, o cotidiano e a invenção. A origem do livro está justamente em uma dessas figuras. A autora se interessou pela história da estátua Inverno, instalada no Passeio Público do Rio de Janeiro, que desapareceu por um período, surgiu em outro ponto da cidade e posteriormente retornou ao parque.

“Esse livro começou com o encanto pela estátua Inverno e sua história real, quando esteve desaparecida do Passeio Público e apareceu em outro lugar. Depois voltou ao Passeio Público. Isso motivou minha imaginação”, conta Angela.

A ideia foi desenvolvida durante um curso de leitura e escrita com Rona Hanning e acabou se desdobrando nas demais histórias da coletânea.

Cada conto parte de um patrimônio real para criar seu próprio universo fantástico. A estátua Inverno, feita de ferro e estanho, deseja encontrar alguém que compreenda sua solidão. No Jardim Botânico, a deusa Tétis acompanha discretamente os amores humanos. No Largo dos Leões, duas esculturas disputam protagonismo, enquanto uma lagartixa aventureira desafia a imobilidade de Santa Genoveva. As pedras portuguesas de Vila Isabel também ganham espaço nas narrativas, assim como o Cemitério São João Batista e o Colégio Orsina da Fonseca.

Embora o realismo mágico crie uma unidade entre as histórias, os contos assumem diferentes registros e estruturas, transitando pelo lirismo romântico, pela fábula irônica, pela crônica memorialística e pelo suspense. Ao final de cada narrativa, notas históricas apresentam informações sobre a origem, a localização e a trajetória dos monumentos que inspiraram a ficção. Esse encontro entre invenção e registro histórico também está presente no projeto visual. Fotografias dos monumentos e espaços públicos foram retrabalhadas em estilo halftone, técnica de retícula que contribui para validar a dimensão documental da atmosfera imaginativa proposta pelo livro.

A edição inclui ainda um QR Code que dá acesso a um mapa interativo no Google Maps. O recurso permite localizar e visitar os cenários das histórias, transformando os espaços percorridos pelos personagens em uma espécie de roteiro literário pelo Rio de Janeiro. Para Angela, a cidade e seus detalhes oferecem possibilidades permanentes para a criação. “A história de uma cidade e seus segredos me encanta, assim como o exercício da imaginação”, afirma. A autora defende a necessidade de preservar a capacidade de observar aquilo que a rotina frequentemente torna invisível: “Não podemos perder a capacidade de ver de olhos fechados e a possibilidade de enxergar de um outro jeito a nós e ao mundo.”

A ideia também conversa com a epígrafe escolhida para abrir a coletânea, retirada de Seis propostas para o próximo milênio, de Italo Calvino: “A imaginação é um lugar dentro do qual chove.”

Mestra em Literatura Brasileira, Angela Chaves desenvolveu parte significativa de sua trajetória profissional como roteirista. Foi autora e colaboradora de produções como Éramos Seis, Os Dias Eram Assim e Maysa – Quando Fala o Coração. Mais recentemente, criou e escreveu Pedaço de Mim, da Netflix, e assina, ao lado de Mariana Torres, a adaptação de Véspera, romance de Carla Madeira, para a Max (HBO). Em 2025, Pedaço de Mim recebeu o prêmio APCA de Melhor Novela e foi indicada ao Rose d'Or Latinos e ao Prêmio ABRA de Roteiro. A produção também figurou entre as dez séries de língua não inglesa mais assistidas da Netflix no mundo. Com cinco livros infantis e infantojuvenis já publicados, Angela estreia agora no conto com uma obra voltada para a relação entre cidade, memória e imaginação.

No texto de orelha de Histórias de ferro e pedra, a escritora Luize Valente chama atenção justamente para a capacidade da coletânea de modificar a percepção sobre espaços familiares: “Suas páginas despertam no leitor o desejo de flanar pela cidade com novos olhos, atentos ao que antes parecia invisível”.

A Mirada conversou com Angela Chaves sobre a criação de Histórias de ferro e pedra, sua relação com o Rio de Janeiro e os caminhos entre memória, patrimônio e imaginação. Confira, a seguir, a entrevista com a autora.



1. Em Histórias de ferro e pedra, os monumentos deixam de ser elementos imóveis da paisagem e passam a observar, desejar e guardar lembranças. O que essas vozes imaginárias permitem revelar sobre o Rio de Janeiro que uma narrativa realista talvez não alcançasse?

O livro é um convite a olhar a cidade e os espaços cotidianos de uma forma diferente, através da imaginação. E a imaginação pode ser um caminho muito interessante de conhecimento, lúdico e ao mesmo tempo reflexivo. Lugares vistos, mas não reparados, não óbvios, mas lindos, tornam-se fonte de interesse e motivo de preservação. Tomara que as pessoas leiam os contos e tenham vontade de conhecer os pontos que não conhecem.

2. O livro aproxima memória urbana e realismo mágico, mas também recupera informações históricas sobre os lugares que inspiraram os contos. Como você trabalhou a fronteira entre pesquisa, memória e invenção sem deixar que uma dimensão limitasse a outra?

Existem dois momentos de leitura no livro. Um é o conto, a ficção que abraça um tom lírico e a literatura fantástica. Outro, uma breve descrição de alguma curiosidade ou localização dos cenários/ estátuas reais. A ideia é trazer um pouco da memória da cidade sem perder o aspecto fantástico que a literatura proporciona. Curiosidade sobre os pontos, reflexão sobre o tempo, incentivo à preservação do patrimônio e à criatividade no cotidiano foram os desejos ao escrever.

3. Você cresceu na Zona Norte e hoje divide seu tempo entre a Zona Sul do Rio e o sertão nordestino. De que maneira sua relação pessoal com o Rio de Janeiro — e também a distância ocasional da cidade — influenciou o olhar lançado sobre esses espaços e monumentos?

O olhar curioso enfrenta os desafios da própria saudade. Tenho muita admiração pelo Brasil, seja pela natureza exuberante ou construções históricas. As cidades me encantam, o sertão, o rio, o mar, as características e diferenças de cada lugar. Para onde vou, levo um olhar interessado pelos detalhes. Há sempre muito a aprender.

4. Após uma longa trajetória escrevendo para televisão e streaming, você estreia agora na coletânea de contos. O que a escrita literária permite em termos de liberdade narrativa que é mais difícil experimentar em um roteiro audiovisual? E quanto da roteirista permanece na construção dessas histórias?

A literatura é um espaço de maior liberdade formal e criativa. Uma obra audiovisual tem muitas demandas que não dependem apenas do roteirista/criador. Então, escrever esse livro foi uma busca de possibilidades, como exercício de liberdade para minha expressão.

5. O QR Code transforma os cenários do livro em um roteiro que pode ser percorrido fisicamente pelo leitor. Há também aí uma preocupação com a memória e a preservação do patrimônio urbano, especialmente em uma cidade onde monumentos podem desaparecer, ser deslocados ou passar despercebidos no cotidiano?

Sim, mas esta foi uma ideia do meu editor da Mondru, o Jeferson Barbosa, que achei muito bacana. Já que o livro tem esse caminhar pelo RJ, por que não assumi-lo e propor a caminhada literária? Não pensei isso, foi ideia dele, assim como o índice situado num mapa. Através da leitura e olhar dele, eu tive a noção da geografia das histórias. Foi interessante perceber esta característica, que aliás foi ressaltada por Luize Valente, escritora de romances históricos, na contracapa: a vontade de “levar o livro pra rua”, um desejo de flanar pela cidade e encontrar estes cenários tão reais quanto fantásticos. O convite está feito.



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*Taciana Oliveira – Natural de Recife (PE), é bacharel em Comunicação Social (Rádio e TV) e pós-graduada em Cinema e Linguagem Audiovisual. Roteirista, diretora e produtora cinematográfica, é criadora das revistas digitais Laudelinas e Mirada Janela Cultural, além de coordenar o Selo Editorial Mirada. Dirigiu o documentário Clarice Lispector – A Descoberta do Mundo e integra a direção do longa-metragem de ficção O Rio de Clarice, no qual assina o segmento Amor. Publicou Coisa Perdida (Mirada, 2023), livro de poemas