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Conversa mole
Lauro é homem de pouca conversa. Não que seja sisudo, mas não é de “conversa mole”, como diz. Odeia quando lhe perguntam besteira. Ele acha que estão querendo fazer troça da cara dele. Certa vez, na sua mercearia – que ele mantém ainda com muito gosto —, um meninote foi lhe perguntar se o feijão a granel era para vender. Ele respondeu que não: “Era para comprar”. Mas, mesmo assim, tinha uma gama de clientes, que iam para puxar papo, e sempre a sua resposta é que tinha muito o que fazer. A clientela foi se acostumando com o jeitão dele, e o point era até visitado por turistas, porque Lauro ganhou a fama de ser turrão. Era conhecido nos arredores como o “Senhor Encrenca”, mas pobre do Lauro, não arranjava cisma com ninguém. Vivia sempre de casa para o trabalho e não se metia na vida dos outros. Um tempo depois faleceu Luzimar, sua mulher, por quem Lauro era apaixonado, do seu jeito, e essa foi a única vez em que fechou a venda para cuidar da mulher, doente de câncer, já descoberto em estágio avançado. Nada pôde fazer, a não ser esperar, lhe proporcionando o maior carinho possível, longe daquela figura que botava da porta para fora. Quedou ainda mais calado, introspectivo até com os filhos e netos. Oportunidade em que o filho mais velho, Lázaro, o chamou para morar com ele; que já era velho e não podia ficar só; e que fechasse a vendinha, a qual dava muito trabalho, e, em razão disso, lhe daria uma boa mesada. Lauro, não querendo dar uma de desocupado, e para mostrar que ainda tinha utilidade, contrariado, disse para o filho que não se metesse nisso, que ainda tinha muitos anos pela frente e que precisava trabalhar para se ocupar. A bem da verdade, Lauro era um homem trabalhador, nunca havia cessado de fazer o seu ofício, e o fazia com muito gosto, sempre como se fosse a primeira vez. Lutou muito para criar os filhos através da mercearia, não queria e não podia se desfazer assim. Para ele, ouvir do filho aquilo lhe trazia uma sensação de desgosto muito grande. Depois da morte de Luzimar, a vida de Lauro, então, se resumia à casinha, cuidando dos gatos, três, e à mercearia, onde vendia de tudo. Em seu profundo pensamento, imaginava que não podia deixar a vizinhança sem o seu negócio, porque era o único que vendia fiado e fazia caridade. Ele ajudava a dona Deca, que era muito velhinha e que também vivia sozinha, só que sem a presença dos filhos. Fora abandonada pela família, que partiu para o Sul, para tentar a vida. Não sabiam se ela estava viva ou morta. Era um caso de pobreza extrema e de miséria, se não fosse Lauro para acudi-la. Ou seja, apesar da aparência bruta, Lauro sempre foi um homem de bom coração, e disso os filhos suspeitavam, e até abandonaram a ideia de tirá-lo de sua casinha e de mexer com a vendinha.
Adriano Espíndola Santos é natural de Fortaleza, Ceará. Em 2018 lançou seu primeiro livro, o romance “Flor no caos”, pela Desconcertos Editora; em 2020 os livros de contos, “Contículos de dores refratárias” e “o ano em que tudo começou”, e em 2021 o romance “Em mim, a clausura e o motim”, estes pela Editora Penalux. Colabora mensalmente com as Revistas Mirada, Samizdat e Vício Velho. Tem textos publicados em revistas literárias nacionais e internacionais. É advogado civilista-humanista, desejoso de conseguir evoluir — sempre. Mestre em Direito. Especialista em Escrita Literária e em Revisão de Textos. Membro do Coletivo de Escritoras e Escritores Delirantes. É dor e amor; e o que puder ser para se sentir vivo: o coração inquieto. instagram: @adrianoespindolasantos | Facebok:adriano.espindola.3 email: adrianoespindolasantos@gmail.com


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