Nunca mais | Arnaldo Handelsman Motyl

Foto de Nathalie Stimpfl na Unsplash

Nunca mais


    Miriam estava na sua livraria preferida, na rua do principal canal de Amsterdã. Entre as paredes muito desgastadas, procurava nas prateleiras altas e com muitas divisões a biografia de Vermeer, o grande pintor holandês, criador da belíssima Menina de Brincos de Pérola. A livraria era muito grande e imponente, mas percebia-se nitidamente que a falta de manutenção já começava a sobressair.

     A Evolution era um marco naquele canal. Você conseguia encontrar uma variedade imensa de livros para todos os gostos, desde ficção até livros técnicos, passando por arte, decoração e pinturas, e as biografias que Miriam tanto amava.

     Degustando várias páginas deliciosas de seu livro, não teve como deixar de escutar os proprietários, discutindo no alto daquela escada de madeira lindíssima que ligava a loja ao setor de administração. “Não conseguimos mais ficar aqui; o aluguel subiu muito, o e-book tirou pelo menos 40% de nossas vendas e as contas já entraram no vermelho. Ficou insustentável. É triste, mas, depois de 96 anos, vamos ter que fechar!”

   Quem gosta de ler sabe muito bem como sofremos quando escutamos que uma livraria vai fechar. É devastador! Ficamos pensando quantos leitores a menos para fazerem viagens incríveis, teremos agora? Uma sensação super desconfortável.

   Miriam, tristíssima com o que escutou, com seu Vermeer nas mãos, segue a rua do canal e, logo duas quadras depois, enxerga uma placa onde se lia "Aluga-se". Pediu para entrar sem nem saber por que e viu uma casa não muito grande, com uma sala super espaçosa no térreo e somente dois quartos no andar de cima. A essa altura, sua cabeça já estava a mil, com tantas ideias fluindo ao mesmo tempo e seu coração batendo como um bumbo. Chegou em casa, começou a viajar pelas páginas que retratavam a Era de Ouro Holandesa, com seus interiores domésticos, principalmente da cidade vizinha de Delft, onde Vermeer nasceu. Adormeceu com a menina de brincos de pérola afagando suas orelhas.

   Dia seguinte, uma quarta-feira chuvosa, o céu plúmbium característico dos países do norte, passa em frente à livraria querida e fica chocada ao ver a vitrine com uma faixa: LIQUIDAÇÃO PARA ENTREGA DAS CHAVES. Não resistindo, entra devagarinho e pergunta para a gerente da loja, que era irmã do proprietário: "O que houve? Por que entrega das chaves?” A gerente, cabisbaixa, responde que, com o aumento súbito do aluguel, a Evolution iria fechar antes do final do mês.  Nesse momento, Miriam tinha percebido que a casa que vira na véspera poderia ser a solução e agora começara a entender as palpitações.

  Com vergonha de estar sendo intrometida, replicou: "Olha, me desculpe, mas ontem, após comprar um livro aqui, desci a rua e, logo ali na frente, me deparei com uma casa lindinha que está alugando bem aqui pertinho e, como ela é pequena, mas tem um salão muito grande, quem sabe tem um aluguel bem menor e vocês conseguem se mudar para lá? Desculpe a minha intromissão, mas eu gosto tanto daqui que não imagino como vou resistir à falta dessa livraria querida.” A gerente, com lágrimas nos olhos, abraçou Miriam e convidou-a a subir para tomar um café.

  “Christian, Liza, venham conhecer a Miriam, uma linda cliente super fiel, e tem uma novidade.” Quando a família escutou o relato sobre a casa vizinha, se animou e, ao se despedirem foram até lá.

  Na conversa que tiveram com o proprietário, constataram que o aluguel era bem mais em conta realmente e que o salão era perfeitamente compatível com o seu estoque, mas, por outro lado, perceberam que a casa precisava de muitos melhoramentos, uma grande pintura e a compra de novas estantes, porque as suas de mais de 40 anos não resistiriam a uma mudança. Mesmo assim, Christian voltou para a Evolution sonhando.

  Sentou-se à mesa com sua esposa e com sua irmã e começaram a dar alguns telefonemas. Chamaram marceneiros, pintores e serralheiros para calcularem um orçamento da mudança. Ao mesmo tempo, na outra coluna, começaram a fazer contas de quanto dispunham para investir, já que, após tanto tempo de livraria, já passando dos sessenta anos, não era mais momento para pegar dinheiro emprestado com bancos, ainda mais com juros escorchantes de 9% ao ano.

  Alguns dias depois, Miriam volta à livraria, ainda com a faixa na vitrine, procurando por um novo livro, após devorar sua biografia rapidamente. Era início de maio e tinha acabado de ler no De Telegraaf uma reportagem sobre os 90 anos da Bücherverbrennung , que em alemão significa queima de livros. Nesta data, 10 de maio de 1933, foram queimados em praça pública, com a presença de altas autoridades nazistas, cerca de 20.000 livros em várias cidades da Alemanha, por uma suposta depuração literária contra o espírito não germânico. Foram queimadas obras de Brecht, Hemingway, Freud, Thomas Mann, Brod, Stefan Zweig e muitos outros. Miriam, muito decepcionada com a humanidade, procurava um livro que contasse mais detalhes sobre o episódio deplorável.

  Na sua busca por livros sobre o nazismo, Miriam olha para cima e vê Christian e Liza conversando. Enxerida como sempre, indaga: "E aí, vamos ter uma nova Evolution?"

  Christian a convidou para um café e começou a contar: "Olhe, Miriam, antes de tudo, queremos agradecer a tua indicação e todo o amor que você tem por essa casa, mas passei dias fazendo contas, quase consegui fechar meu plano de contas, mas, por pouca coisa que faltava, decidimos abortar o projeto”. “Mas, puxa, não pode ser”, disse Miriam. “O que faltou no orçamento?” “Olhe, Miriam, não teremos verba para o transporte dos 10.000 livros que possuímos em estoque, além de outras coisas menores que não tínhamos previsto. Infelizmente, não vai ser possível.”

    Miriam levantou-se rapidamente da sua cadeira, com os olhos brilhando, e disse: "Se o problema é o transporte dos livros, não temos problema nenhum! Pode assinar o contrato que eu garanto.” Christian, vendo aquele entusiasmo, acabou se entusiasmando junto; tinha passado várias noites sem dormir, se culpando pelo fim da livraria centenária criada por seu avô. Pensou com seus botões: puxa, que sorte a nossa, Miriam tem alguém em sua família que possui uma transportadora ou ao menos um caminhão. 

   No dia seguinte, contrato assinado, ligou para ela e disse: "A Evolution Vive! Programamos a mudança para 15 de junho. Você pode confirmar a mudança com a sua transportadora?” “Claro, confirmadíssimo, eu garanto. Às 8:00 da manhã do dia 15 de junho, o transporte vai estar na sua porta. Estou tão feliz! A Evolution vai continuar para sempreeee!”

  Finalmente a linda manhã do dia 15 de junho de 2023 chegou, mas não eram caminhões que estacionaram na frente da Evolution, mas uma multidão de jovens, crianças e idosos,  todos muito animados e contentes. Christian, surpreso e sem entender nada, avistou no meio da multidão uma jovem que parecia estar coordenando aquela gente toda, que, àquela altura, já estavam cantando Let it Be e Blowing in the wind.

  A jovem era Miriam, que correu para lhe dar um abraço e, com a pergunta inevitável de Christian sobre os caminhões, respondeu: “Podemos começar?”  Em menos de 5 minutos, uma linda fila indiana quilométrica se formou entre a Evolution e a nova Evolution, e os dez mil livros foram passando de mão em mão, lindos, intactos, brilhantes, combinando com os olhos também brilhantes de uma multidão uivando de emoção e prazer.

 Miriam fez questão de colocar o primeiro livro na estante. Era um livro de um jovem judeu alemão cujo título era Bücherverbrennung Nunca Mais.




Arnaldo Handelsman Moty
l, natural do Rio de Janeiro, carioca da gema. Formado em Engenharia Civil pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro em 1982 e MBA em Administração de Varejo pela CoppeAd-UFRJ em 2001. Empresário do varejo no Brasil por quarenta anos, maior desafio que um simples mortal pode ter na vida. Iniciou como cronista em 2024, tendo uma de suas crônicas publicada na Folha de São Paulo. Em 2026, após algumas oficinas com o escritor José Castello, decidiu se arriscar em uma antologia de crônicas.