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A FOME DE UNGOLIANT: UM ENSAIO SOBRE O DESEJO
INTRODUÇÃO
A relação entre desejo e angústia constitui um dos problemas centrais da tradição psicanalítica, sobretudo quando ao considerar-se o objeto desejado como não coincidente (necessariamente) com aquilo que poderia produzir uma satisfação definitiva. É dizer: como essencialmente apaziguador de um desejo perene e insaciável. Em Freud (1920), a teoria das pulsões desloca progressivamente a compreensão do aparelho psíquico de uma economia simples de busca do prazer para uma dinâmica marcada pelo conflito, pela repetição e pela impossibilidade de redução completa da tensão. Em Além do princípio do prazer, Freud (1920) aborda a compulsão à repetição e reformula o dualismo pulsional, contrapondo Eros às tendências destrutivas posteriormente reunidas sob a noção de pulsão de morte (Tânatos).
Em Lacan (1962–1963), o desejo passa a não ser compreendido como simples movimento orientado para um objeto capaz de satisfazer uma necessidade. Ao contrário, este se constitui no campo do Outro e permanece articulado à falta. No Seminário, livro 10: A angústia, Lacan (1962–1963) estabelece uma relação decisiva entre angústia, desejo e objeto a: este último não deve ser compreendido como objeto empírico que o sujeito pretende possuir, mas como causa do desejo. A angústia, por sua vez, não é simplesmente ausência de objeto, mas surge precisamente em uma relação na qual a falta que estrutura o desejo é ameaçada.
É nesse horizonte que se propõe uma leitura da figura de Ungoliant, personagem da mitologia de J. R. R. Tolkien (1977), como alegoria de uma economia do desejo que não encontra termo na obtenção do objeto. Ungoliant deseja a luz, mas o consumo da luz não extingue sua fome; ao contrário, o próprio consumo produz a necessidade de consumir ainda mais. Ela devora aquilo que poderia, aparentemente, preencher sua falta e, contudo, cresce em proporção ao que devora. A narrativa de Tolkien (1977) oferece, assim, uma imagem que ilustra a um certo modo a estrutura paradoxal: quanto mais o objeto é incorporado, mais radical parece tornar-se a falta que o movimento desejante pretendia eliminar.
Assim, a hipótese deste ensaio é que a figura de Ungoliant permite representar alegoricamente uma modalidade de desejo submetida à lógica da falta interminável: a tentativa de obter satisfação por meio da apropriação crescente do objeto transforma-se em circuito compulsivo, no qual cada satisfação parcial funciona simultaneamente como produtor de uma nova exigência. Não se trata, portanto, de afirmar que todo desejo conduz necessariamente ao vício, mas de investigar a estrutura pela qual determinadas formas compulsivas de busca de satisfação podem ser pensadas como respostas à angústia produzida pela impossibilidade de uma plenitude definitiva. Observamos, sem embargo, que o propósito deste ensaio não é defender que Tolkien tivesse por intenção produzir esta concepção de Ungoliant, mas sim empregar a construção como possibilidade interpretativa de um fenômeno da psique humana.
Para tanto, o ensaio articula Freud e Lacan, particularmente a teoria freudiana das pulsões, a compulsão à repetição e a oposição entre Eros e pulsão de morte, bem como as formulações lacanianas acerca do desejo, da angústia, do objeto a e da função do Nome-do-Pai. Em diálogo complementar, serão mobilizadas algumas figuras míticas (Licaão, Tântalo e Sísifo) como formas culturais distintas de representação da repetição, da fome, da punição e da impossibilidade de consumação. O procedimento metodológico é ensaístico, de natureza teórico-bibliográfica e qualitativa.
DESENVOLVIMENTO
A compreensão da relação entre desejo, angústia e compulsão exige, inicialmente, uma distinção entre desejo e pulsão. Embora os dois conceitos estejam intimamente relacionados no campo psicanalítico, eles não são intercambiáveis. Em As pulsões e seus destinos, Freud (1915) concebe a pulsão como um conceito-limite entre o psíquico e o somático, caracterizado por pressão, fonte, alvo e objeto. O objeto, nesse esquema, não constitui necessariamente uma finalidade fixa ou previamente determinada; ao contrário, pode ser variável e contingente, desde que permita à pulsão alcançar alguma forma de satisfação. Essa característica é fundamental para compreender a dinâmica compulsiva: aquilo que é buscado não se reduz às propriedades concretas do objeto, uma vez que o objeto pode ser substituído, deslocado ou reiteradamente investido sem que a satisfação produzida corresponda à expectativa que sustenta a busca.
Com efeito, o problema se torna mais complexo quando Freud (1920), em Além do princípio do prazer, introduz a compulsão à repetição como fenômeno que não pode ser adequadamente explicado pela simples procura do prazer e pela evitação do desprazer. A repetição pode levar o sujeito a reproduzir experiências, comportamentos ou posições que não lhe proporcionam uma satisfação imediatamente reconhecível como prazerosa. A existência dessa repetição coloca em questão a primazia do princípio do prazer e conduz Freud (1920) à reformulação de sua teoria das pulsões. De um lado, encontram-se as tendências reunidas sob o nome de Eros, relacionadas à ligação, à conservação, à união e à produção de formas cada vez mais complexas de organização da vida; de outro, a pulsão de morte, associada à tendência à redução das tensões, à desagregação e ao retorno a um estado anterior de menor complexidade. Não se trata, entretanto, de uma oposição moral entre uma pulsão positiva e outra negativa, mas de uma tensão constitutiva do funcionamento psíquico.
Nesse sentido, a compulsão pode ser compreendida não simplesmente como um excesso quantitativo de desejo, mas como a instalação de um circuito no qual a própria tentativa de satisfação passa a reproduzir a necessidade de uma nova tentativa. O objeto é alcançado, consumido, substituído ou incorporado, mas a satisfação obtida não encerra o movimento. Ao contrário, a conclusão de um ciclo parece constituir a condição para o início do seguinte. A repetição, portanto, não é apenas a insistência sobre o mesmo objeto; ela pode ser compreendida como a insistência de uma estrutura que encontra diferentes objetos para preservar seu funcionamento. É precisamente nesse ponto que a metáfora da fome de Ungoliant adquire força: aquilo que deveria cessar a fome torna-se aquilo que a alimenta. A satisfação não interrompe a falta, mas pode intensificar o movimento em direção a uma nova satisfação.
A contribuição de Lacan (1962–1963) permite deslocar ainda mais o problema. Em sua elaboração acerca do desejo, particularmente no Seminário, livro 10: A angústia, o desejo não pode ser entendido como simples orientação do sujeito em direção a um objeto empiricamente disponível. O desejo está estruturalmente articulado à falta e ao desejo do Outro. É nesse contexto que adquire importância o conceito de objeto a, que não corresponde simplesmente ao objeto desejado, mas funciona como causa do desejo. O sujeito deseja porque algo permanece estruturalmente não apreendido, não totalizado, não plenamente recuperável pela posse de um objeto determinado. A satisfação de uma demanda particular, portanto, não elimina a estrutura desejante. Uma vez obtido aquilo que parecia ser capaz de satisfazer o sujeito, outro objeto pode imediatamente ocupar seu lugar.
Essa distinção é particularmente importante quando se pretende discutir fenômenos compulsivos. Se o desejo fosse dirigido a objetos capazes de proporcionar uma satisfação integral, a obtenção desses objetos deveria, em princípio, produzir o encerramento do movimento desejante. A experiência psíquica, entretanto, mostra precisamente o contrário: aquilo que é obtido pode perder rapidamente sua capacidade de satisfazer e dar lugar a uma nova busca. Na perspectiva lacaniana, isso não constitui uma falha acidental do objeto, mas decorre da própria estrutura do desejo. O objeto concreto não coincide com aquilo que causa o desejo. Consequentemente, nenhum objeto empírico pode ocupar definitivamente o lugar de uma satisfação absoluta.
A angústia surge nesse ponto como experiência privilegiada dessa relação problemática com a falta. Em Lacan, ela não deve ser reduzida à simples ausência ou à privação de um objeto. A angústia possui uma relação específica com o objeto a e com a presença do desejo do Outro. Por isso, sua compreensão exige uma distinção entre a falta que estrutura o desejo e uma situação em que aquilo que deveria permanecer como falta se apresenta de maneira excessivamente próxima. A angústia não é simplesmente o sentimento produzido por não possuir alguma coisa; ela emerge quando a relação do sujeito com aquilo que causa seu desejo é perturbada. Desse modo, a tentativa compulsiva de preencher a falta pode ser compreendida como uma tentativa de produzir uma resposta à angústia, ainda que a própria resposta termine por reproduzir as condições que a originaram.
É nesse ponto que a relação entre desejo e compulsão se aproxima da noção de gozo. O gozo, em Lacan, não se confunde com o prazer. Enquanto o princípio do prazer implica uma regulação da tensão, o gozo designa uma dimensão de satisfação que pode ultrapassar os limites dessa regulação e comportar uma relação paradoxal com o sofrimento, o excesso e a repetição. Assim, uma prática compulsiva não precisa ser compreendida como uma busca racional por um prazer determinado. Ela pode constituir um circuito no qual o sujeito retorna repetidamente ao mesmo ponto porque a própria repetição oferece uma forma de satisfação, ainda que essa satisfação não coincida com aquilo que conscientemente se procura. O sujeito não apenas deseja o objeto; ele pode permanecer capturado pelo próprio movimento de buscá-lo.
A hipótese da presente reflexão pode, então, ser formulada de maneira mais precisa: determinadas formações compulsivas podem ser compreendidas como tentativas reiteradas de responder à angústia produzida pela impossibilidade de alcançar uma satisfação plena. Quanto maior a expectativa de que determinado objeto possa encerrar a falta, maior pode tornar-se a necessidade de repetir o circuito quando essa promessa inevitavelmente fracassa. Não se trata, portanto, de afirmar que a angústia produz mecanicamente o vício, mas de investigar como a angústia pode participar da constituição de circuitos nos quais a busca de satisfação passa a reproduzir incessantemente a própria falta que pretendia eliminar.
Essa formulação permite estabelecer uma interlocução cuidadosa com o existencialismo. Em Sartre (1943), o desejo também aparece relacionado à falta e à impossibilidade de uma plenitude definitiva do ser. Em O ser e o nada, Sartre (1943) sustenta que a consciência não é uma realidade plenamente coincidente consigo mesma; ela se constitui em relação ao que não é, e o desejo pode ser compreendido como movimento em direção a uma forma de plenitude ontológica que jamais se realiza integralmente. O sujeito deseja aquilo que imagina poder completar sua condição, mas a própria estrutura da consciência impede que essa completude seja definitivamente alcançada. Embora esse problema não seja idêntico à teoria freudiana da pulsão ou à concepção lacaniana do desejo, existe entre essas perspectivas uma zona fecunda de interlocução: em ambas, a experiência humana não se organiza pela posse definitiva de um objeto capaz de abolir toda falta.
Essa aproximação permite compreender também por que a repetição ocupa posição tão significativa na representação do desejo insaciável. A figura de Sísifo, retomada por Camus (1942), condensa exemplarmente a estrutura de uma ação que precisa ser continuamente reiniciada. O esforço não produz uma conclusão definitiva; sua própria conclusão inaugura a necessidade de um novo esforço. A pedra retorna ao ponto de partida, e o sujeito retorna ao trabalho. A imagem de Tântalo apresenta uma variação ainda mais próxima da problemática aqui investigada: o objeto da satisfação encontra-se permanentemente diante do sujeito, mas permanece inacessível. Em Sísifo, o desejo se organiza em torno da repetição de uma tarefa sem término; em Tântalo, em torno da proximidade de um objeto cuja satisfação é continuamente frustrada. Ambas as imagens permitem pensar a distância entre a promessa de satisfação e sua efetivação.
Licaão, por sua vez, introduz uma dimensão distinta. Seu mito não é propriamente uma narrativa sobre a insaciabilidade, mas sobre a transgressão, a violência e a transformação do humano em animal. A metamorfose de Licaão pode, portanto, ser aproximada da problemática do desejo compulsivo não pela identidade entre os mitos, mas pela passagem de um regime humano de satisfação para uma forma de existência dominada pelo impulso e pela transgressão de limites. O mito torna visível aquilo que ocorre quando o desejo deixa de operar como movimento simbólico aberto à alteridade e passa a organizar-se como exigência absoluta de satisfação. O objeto já não é simplesmente desejado: ele precisa ser consumido.
É justamente nesse ponto que a figura de Ungoliant permite reunir as diferentes dimensões anteriormente apresentadas. Em O Silmarillion, Tolkien (1977) apresenta Ungoliant como uma criatura associada à escuridão, à voracidade e a uma fome que não encontra limite. Sua característica mais significativa, para os fins desta análise, não é simplesmente o fato de consumir, mas o paradoxo segundo o qual o consumo não reduz sua fome. Ao devorar, ela aumenta. Quanto mais incorpora, maior se torna sua necessidade de incorporar novamente. A lógica da criatura não é a da satisfação que encerra o desejo, mas a de uma satisfação que produz a necessidade de outra satisfação. A fome transforma-se, assim, em princípio de expansão.
A alegoria torna-se ainda mais significativa porque Ungoliant não se limita a consumir um objeto isolado. Sua fome tende à totalização: ela devora aquilo que encontra, absorve sua energia e, na medida em que cresce, necessita de algo ainda maior que possa ser consumido. A escala do objeto precisa acompanhar a expansão da fome. O que inicialmente poderia parecer uma necessidade localizada converte-se em uma exigência sem medida. A lógica é circular: a fome exige o consumo; o consumo amplia a capacidade de consumir; essa ampliação produz uma fome ainda maior. O objeto, portanto, não funciona como limite do circuito, mas como combustível de sua expansão.
Essa estrutura permite formular uma imagem radical do desejo compulsivo: o sujeito não é aquele que simplesmente deseja demasiadamente um objeto, mas aquele que transforma a própria obtenção do objeto em condição para desejar novamente. O problema deixa de ser a ausência do alimento e passa a ser a impossibilidade de que qualquer alimento seja suficiente. Ungoliant não representa apenas aquele que tem fome; representa aquele para quem a satisfação se converteu em mecanismo de produção de uma fome ulterior. A fome deixa de possuir uma finalidade externa e passa a alimentar-se de sua própria dinâmica.
A consequência extrema dessa lógica é a destruição do próprio campo em que a satisfação poderia ocorrer. Se nada é suficiente, o sujeito pode ampliar progressivamente o domínio dos objetos investidos, até que a própria exterioridade se converta em matéria de consumo. Nesse sentido, “devorar o mundo” constitui a forma metafórica de um desejo que já não reconhece no objeto um limite para sua própria expansão. O mundo inteiro passa a ser tratado como possível resposta à falta. Contudo, como nenhum objeto é capaz de eliminar a falta estrutural, a expansão não produz plenitude; produz apenas a necessidade de uma expansão ainda maior.
É nesse movimento que a pulsão de vida e a pulsão de morte podem ser recolocadas em tensão. Eros tende à ligação, à composição e à preservação das formas; a pulsão de morte introduz a tendência à desagregação e à redução. A compulsão, quando pensada nesse horizonte, pode adquirir uma estrutura paradoxal: aquilo que promete conservar o sujeito mediante uma forma de satisfação pode simultaneamente conduzi-lo à repetição e ao desgaste. O movimento que procura preservar uma determinada experiência de satisfação pode tornar-se destrutivo justamente porque não consegue cessar. O excesso de investimento no objeto pode, em sua forma extrema, converter-se em destruição do próprio objeto, do campo de objetos e, finalmente, do próprio sujeito enquanto instância capaz de desejar.
A imagem de Ungoliant alcança, assim, sua dimensão mais radical: a criatura que devora tudo pode terminar confrontada com a ausência daquilo que ainda poderia devorar. Se a fome depende de um mundo externo para continuar sendo satisfeita, a destruição integral desse mundo conduz ao paradoxo absoluto de uma fome sem alimento. É nessa direção que a tradição narrativa associada à personagem admite a possibilidade de que sua fome termine por voltar-se contra ela mesma. A imagem do autodevoramento constitui, nesse sentido, a conclusão lógica da alegoria: quando o desejo exige a totalidade como objeto de satisfação, o último objeto disponível é o próprio sujeito.
A dimensão do desejo de Ungoliant pode, portanto, ser compreendida como uma figuração extrema de um circuito no qual a satisfação fracassa precisamente porque se torna condição de sua própria repetição. Tântalo apresenta o objeto eternamente inacessível; Sísifo, a tarefa eternamente reiniciada; Licaão, a transformação decorrente da transgressão; Ungoliant reúne e radicaliza essas imagens ao converter a satisfação em fome; a fome em consumo, o consumo em expansão e a expansão em destruição. A alegoria permite visualizar aquilo que a teoria psicanalítica formula em termos abstratos: não existe objeto empírico capaz de garantir uma satisfação absoluta e definitiva. Quando a tentativa de eliminar a falta se transforma em exigência de totalidade, o desejo pode deixar de encontrar no mundo aquilo que procura e passar a consumir o próprio mundo na tentativa impossível de encontrá-lo.
Desse modo, a compulsão não deve ser pensada simplesmente como excesso de desejo, mas como uma modalidade de repetição na qual a promessa de satisfação mantém o sujeito preso a um circuito que nunca chega ao seu termo. O objeto é necessário, mas não suficiente; sua obtenção é real, mas a satisfação que dele se espera permanece estruturalmente incompleta. A angústia, por sua vez, não desaparece com a conquista do objeto, porque aquilo que se procurava no objeto excedia suas propriedades concretas. A busca prossegue, e cada nova tentativa oferece uma satisfação localizada que simultaneamente reabre a questão de sua insuficiência. Ungoliant encarna, portanto, não a ausência de alimento, mas a impossibilidade de que o alimento cesse de ser necessário. Sua fome é eterna porque seu objeto jamais poderia ser suficiente; e é precisamente por isso que, quanto mais come, mais necessita comer.
CONSIDERÕES FINAIS
As relações entre desejo, angústia e compulsão examinadas ao longo deste ensaio permitem compreender a insaciabilidade não como simples excesso quantitativo de desejo, mas como efeito de uma estrutura na qual a satisfação não consegue produzir o encerramento do circuito desejante. A partir de Freud (1920), foi possível observar que a compulsão à repetição introduz uma dimensão que ultrapassa a regulação pelo princípio do prazer, tornando necessário considerar a tensão entre as pulsões de vida e a pulsão de morte. A repetição, nesse contexto, não representa apenas a insistência sobre um objeto, mas a permanência de um circuito cuja satisfação parcial não elimina a exigência de sua retomada.
A interlocução com Lacan (1962–1963) permitiu aprofundar essa questão ao deslocar a problemática do objeto concreto para a estrutura do desejo. Se o objeto a ocupa a posição de causa do desejo, e não de objeto empírico capaz de preenchê-lo definitivamente, compreende-se por que a obtenção de determinado objeto não implica a supressão da falta. A angústia, nesse quadro, adquire particular relevância porque evidencia a relação problemática do sujeito com aquilo que sustenta seu desejo. A compulsão pode, assim, ser interpretada como uma tentativa reiterada de produzir uma resposta à angústia mediante a repetição de uma experiência de satisfação que, justamente por ser incapaz de abolir a falta, conduz à necessidade de sua própria repetição.
A aproximação com o existencialismo acrescentou a essa problemática uma dimensão ontológica. Em Sartre (1943), a consciência e o desejo encontram-se atravessados pela impossibilidade de uma coincidência plena do sujeito consigo mesmo; em Camus (1942), a figura de Sísifo permite pensar a repetição como condição de uma ação que não alcança uma resolução definitiva. Essas perspectivas não devem ser confundidas com a metapsicologia freudiana ou com a teoria lacaniana do desejo, mas permitem estabelecer uma interlocução em torno de uma questão comum: a impossibilidade de reduzir a existência humana à obtenção de um objeto capaz de produzir uma plenitude definitiva.
As figuras míticas analisadas tornam essa estrutura inteligível por meio de diferentes modalidades de impossibilidade. Tântalo representa a proximidade de um objeto cuja satisfação permanece inacessível; Sísifo, a repetição interminável de uma tarefa; Licaão, a transgressão que conduz à desumanização; e Ungoliant, de maneira particularmente radical, a transformação da satisfação em produção incessante de nova fome. A personagem de Tolkien (1977) permite, portanto, condensar em uma única imagem aquilo que os diferentes referenciais teóricos apresentam sob conceitos distintos: a existência de um movimento que, ao buscar eliminar a falta, acaba reproduzindo-a.
A alegoria de Ungoliant torna-se especialmente significativa quando sua fome deixa de possuir um limite externo. Se aquilo que é consumido não produz saciedade, o objeto deixa de funcionar como término da busca e passa a funcionar como condição de sua continuidade. Quanto mais se consome, mais se exige; quanto mais se obtém, mais distante permanece a satisfação pretendida. A fome, nesse sentido, deixa de ser uma carência que pode ser preenchida e transforma-se em uma estrutura autossustentada. Seu extremo lógico é o autodevoramento: quando o mundo já não oferece objeto suficiente para a satisfação, o próprio sujeito pode converter-se em objeto de seu circuito.
A hipótese inicial pode, dessa forma, ser entendida sob uma formulação não causal e não reducionista. Não se trata de afirmar que a angústia determine necessariamente a compulsão ou que toda forma de vício corresponda diretamente à pulsão de morte. Trata-se, antes, de reconhecer que determinados circuitos compulsivos podem funcionar como tentativas de responder à experiência da falta e da angústia por meio de uma repetição que oferece satisfação parcial sem jamais produzir a resolução definitiva do desejo. Nesse processo, aquilo que deveria funcionar como resposta pode transformar-se na própria condição de continuidade do problema.
A fome de Ungoliant alegoriza, dessarte, uma modalidade extrema de desejo na qual a busca pela satisfação passa a consumir os próprios meios pelos quais a satisfação poderia ser alcançada. A criatura não perece simplesmente porque nada possui; sua tragédia reside no fato de que aquilo que possui e consome não consegue interromper sua fome. A metáfora permite representar o paradoxo de um desejo que, ao tentar alcançar a totalidade, destrói progressivamente os objetos, os limites e, finalmente, a própria possibilidade de satisfação.
Conclui-se, desse modo, que o problema fundamental não reside na intensidade do desejo, mas na expectativa de que algum objeto possa finalmente ocupar o lugar de uma falta que é estrutural. Quando essa expectativa se converte em exigência compulsiva, o movimento de busca pode adquirir autonomia em relação ao objeto inicialmente desejado. O sujeito continua buscando não porque ainda não tenha encontrado o objeto correto, mas porque nenhum objeto poderia cumprir integralmente a função que lhe foi atribuída. A fome permanece porque aquilo que se procura no alimento não se reduz ao alimento.
Ungoliant constitui, nesse sentido, uma alegoria da impossibilidade de saturação do desejo: ela é o ser que devora o mundo na tentativa de encontrar nele aquilo que o mundo não pode oferecer. Sua fome cresce na mesma medida em que é alimentada, até o ponto em que o próprio ato de consumir ameaça eliminar a possibilidade de haver algo ainda a ser consumido. O desejo que pretendia conquistar o objeto transforma-se, então, em um circuito que devora objetos, mundo e sujeito. A imagem da criatura que, em sua fome extrema, pode voltar-se contra si mesma oferece a síntese final desta investigação: quando a satisfação é concebida como eliminação absoluta da falta, toda satisfação permanece insuficiente, e a tentativa de preencher o vazio pode converter-se precisamente naquilo que o torna interminável.
REFERÊNCIAS
CAMUS, Albert. O mito de Sísifo (1942).
FREUD, Sigmund. As pulsões e seus destinos (1915).
FREUD, Sigmund. Além do princípio do prazer (1920).
FREUD, Sigmund. O eu e o id (1923).
FREUD, Sigmund. Inibição, sintoma e angústia (1926).
LACAN, Jacques. O seminário, livro 7: A ética da psicanálise (1959–1960).
LACAN, Jacques. O seminário, livro 10: A angústia (1962–1963).
LACAN, Jacques. O seminário, livro 11: Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise (1964).
LACAN, Jacques. Nomes-do-Pai / Introdução aos Nomes-do-Pai (1963).
SARTRE, Jean-Paul. O ser e o nada (1943).
TOLKIEN, J. R. R. O Silmarillion (1977).
Ariel Montes Lima é mestre e doutoranda em Estudos de Linguagem (PPGEL-UFMt). Autora dos livros Poemas de Ariel (TAUP, 2022), Sínteses: Entre o Poético e o Filosófico (Worges Ed., 2022), Ensaios Sobre o Relativismo Linguístico (Arche, 2022), Poemas da Arcádia (Caravana, 2023), Silêncios: Duros Silêncios (Worges, 2024), O Inominado ou A Descoberta do Mundo (TAUP, 2024), Liberdades (2025), Contos Femininos (Worges, 2025) e Histórias do Casarão (Worges, 2025) e Os Odinokiov (sob pseudônimo de Cássia Frankl)

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