
Foto de Veit Hammer na Unsplash
Abraço Fraterno
Cemitério de Inhaúma, sol escaldante das 11h da manhã no Rio de Janeiro. Quatro irmãos abraçados caminhando lentamente em direção à cova do querido pai, que sucumbiu aos noventa e oito anos. O abraço era tenso, nervoso, o silêncio não era apenas respeitoso, era um sussurro, um muro, um murro. Cena forte, porém comovente.
Família supostamente linda que frequentei durante muitos anos, afinal era colega de sala e amicíssimo do primogênito Oswaldo. Me lembro muito bem do piano de cauda branco que sua mãe tocava brilhantemente no apartamento de Ipanema. Era a doce rainha daquela casa, mulher talentosa, carinhosa, com muita coragem e altivez, apesar de todas as agruras e sofrimentos que o marido ciumento e autoritário lhe impingia; até que um câncer fulminante a carregou em seus precoces quarenta e cinco anos, deixando Oswaldo e seus três irmãos sob a tutela do bárbaro.
Bárbaro, prefiro chamá-lo assim, era um empresário bem-sucedido, desfrutava de um excelente conceito na sua comunidade religiosa, onde era muito considerado por suas generosas contribuições e com ótimo relacionamento entre os principais pastores da Zona Sul do Rio de Janeiro. Chegou a ser presidente de um templo onde era homenageado e louvado semanalmente nas preces, o que o deixava deslumbrado, porém cada vez mais cego para seu verdadeiro tesouro, seus filhos.
Eles cresceram em um ambiente bem adverso, onde hostilidades naturais entre irmãos, quando não reduzidas em sua importância, como teriam sido quando a mãe vivia, se tornaram rancores intransponíveis no futuro. Bárbaro se preocupava apenas com sua posição no templo e cada vez mais delegava a condução da empresa ao staff, de nada menos que doze diretores, que batiam cabeça com pouco trabalho para ser dividido entre tantos caciques. Às vezes, a reunião do board era fotografada para revistas de negócios e de fofocas, com ele na cabeceira da longa mesa de jacarandá, esse era seu maior prazer.
Me lembro que ainda frequentava aquele lindo apartamento aos dezesseis, dezessete anos e levava minhas fitas cassete C-60 para gravar os discos novos do Pink Floyd, Deep Purple e Emerson Lake & Palmer que semanalmente brotavam naquela sala. Porém, um fim de tarde que estava lá gravando, ele chegou do trabalho com aquela empáfia e educação formal. Foi a minha última visita. Gostava de rock, mais ainda do Oswaldo, mas ainda jovenzinho já sentia verdadeira angústia naquele ambiente obscuro e sufocante ao apagar dos raios de sol. Nunca mais voltei.
O tempo passou, os doze diretores desapareceram no ar, assim como a empresa tradicional mudou de domicílio, das letras enormes das revistas importantes de economia para as letras minúsculas da Gazeta Mercantil, onde diariamente eram divulgadas as empresas concordatárias. Apesar disso, o presidente do templo ainda continuava com sua soberba, convidando os pastores semanalmente para sua casa em Itaipava, onde os quatro irmãos, apesar dos protestos, nunca podiam frequentar porque a casa estava eternamente ocupada.
O abraço fraternal que acabo de presenciar não me sai da cabeça, afinal um dos gêmeos foi o primeiro a sair da empresa, quando começou a entrar água, deixando como lembrança um processo trabalhista contra o pai e os irmãos e só reaparecendo trinta anos depois, há três meses, ao saber que o pai estava nas últimas. O outro gêmeo não chegou a entrar na empresa e sumiu do radar em sua vida atribulada de pouco sucesso país afora.
O terceiro irmão, o mais apegado à mãe, teve a sorte inicial de um bom casamento que durou pouco, teve três filhos, mas conseguiu a proeza de brigar com todos a ponto de não ir ao casamento do mais velho e nunca mais ver as meninas que se tornaram órfãs de pai vivo.
Me lembro que há alguns meses, num chope com Oswaldo, ele deixou escapar que o pai, já com muitas dificuldades cognitivas, nunca abriu para os filhos o que possuía e o que eventualmente poderia deixar como herança. “Mas como assim?”, perguntei. “Ninguém faz isso, ao menos deve ter um advogado cuidando de tudo.” Ao que ouvi um sussurro vergonhoso como resposta: “Nem isso eu sei.”
Oswaldo, meu amigo querido, que escapou desse ambiente adverso e conseguiu formar uma linda família, me disse há poucos minutos, no caminho de volta do último encontro com seu algoz: “Nunca vou conseguir perdoar o que ele fez com minha mãe e com nós quatro.”
Na chegada à cova, o abraço se desfez, assim como desfeitas foram as tantas vidas em torno daquele corpo. Cada irmão se dirigiu lentamente e, seguindo a tradição religiosa, pegaram uma pá e, revezando, jogaram com suas próprias mãos terra sobre aquele caixão negro.
Não sem motivos, no enterro, além de mim, os quatro irmãos abraçados e pouquíssimos familiares; mas constatei a presença de meia dúzia de pastores desconsolados, recitando preces e belos discursos sobre o bárbaro generoso.
Arnaldo Motyl, natural do Rio de Janeiro, carioca da gema. Formado em engenharia civil pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro em 1982 e MBA em administração de varejo pela CoppeAd-UFRJ em 2001. Empresário do varejo no Brasil por quarenta anos, maior desafio que um simples mortal pode ter na vida. Iniciou como cronista em 2024, tendo uma de suas crônicas publicada na Folha de São Paulo. Em 2026, foi convidado a participar de uma coletânea da Academia de Letras da Grande São Paulo-ALGRASP.

Redes Sociais