A Grande Trapaça Digital revela como as Big Techs mudaram a indústria da música e os hábitos de escuta


Novo livro do jornalista Luiz Cesar Pimentel vai do Napster ao TikTok para investigar como plataformas e algoritmos mudaram a indústria musical e fizeram da atenção um dos ativos mais disputados da era digital. 

Ouvir música nunca pareceu tão simples. Bastam alguns segundos para escolher uma faixa, ou deixar que uma plataforma faça essa escolha, entre milhões de opções disponíveis. Por trás dessa facilidade, porém, ocorreu uma grande transformação na maneira como a música é produzida, distribuída, remunerada e descoberta. É esse processo que o jornalista e escritor Luiz Cesar Pimentel investiga em A Grande Trapaça Digital – Como as Big Techs destruíram a música, enganaram o público e sequestraram a nossa alma sonora, lançado pela Editora Terreno Estranho.

Ao reconstruir as mudanças ocorridas na indústria fonográfica nas últimas décadas, o autor parte de uma premissa: antes de os algoritmos influenciarem o consumo de notícias, vídeos, debates políticos e outros aspectos da vida conectada, a música já funcionava enquanto laboratório para mecanismos que posteriormente se disseminariam pelo ambiente digital.

Pimentel acompanha esse processo desde o surgimento do Napster, em 1999, e passa pela chegada do iPod e do iTunes, pela consolidação do streaming, pelas playlists automatizadas e pela ascensão de plataformas de vídeos curtos como o TikTok. Cada etapa, segundo o livro, alterou não apenas a maneira de acessar uma canção, mas também as relações entre artistas, público, gravadoras e empresas de tecnologia.

“Durante décadas acreditamos que a tecnologia estava libertando a música. O que descobri ao investigar essa história é que ela apenas mudou de dono”, afirma o autor. Para Pimentel, parte do controle antes concentrado nas gravadoras migrou para um número reduzido de empresas capazes de interferir no que ganha visibilidade e no que tem possibilidade de chegar aos ouvintes

As transformações descritas no livro ajudam a identificar a mudança na experiência de escuta. Se o Napster abalou o modelo tradicional de circulação das gravações, o iTunes contribuiu para fragmentar o álbum ao permitir a compra individual de faixas. Com o streaming, a posse de discos e arquivos perdeu espaço para o acesso a grandes catálogos. Mais recentemente, redes sociais e sistemas de recomendação passaram a interferir inclusive nas estratégias adotadas para a criação e divulgação das músicas. Nesse cenário, a abundância de oferta convive com uma nova concentração de poder. O livro discute como sistemas automatizados assumiram parte da curadoria antes exercida por pessoas e instituições e como a lógica das plataformas passou a privilegiar métricas como retenção, engajamento e permanência.

Uma das questões levantadas por Pimentel é a distribuição do dinheiro movimentado pelo streaming e seus efeitos sobre artistas que não estão entre os nomes de maior alcance. Enquanto estrelas globais contam com públicos capazes de procurá-las independentemente de sua presença em playlists, músicos de alcance intermediário podem depender em maior medida dos mecanismos de recomendação para serem encontrados.

A música como laboratório da economia da atenção

Ao longo de mais de 280 páginas, A Grande Trapaça Digital combina reportagem, história da indústria fonográfica, pesquisas acadêmicas, economia digital, neurociência e estudos sobre comportamento. A análise não se restringe, portanto, às mudanças do mercado musical. Pimentel relaciona a trajetória da música digital à formação da chamada economia da atenção. Dados pessoais, tempo de permanência, padrões de comportamento e capacidade de manter o usuário conectado passaram a adquirir valor econômico. Nesse modelo, ouvir uma música também produz informações sobre preferências e hábitos.

“A grande trapaça não foi cobrar pela música. Foi convencer uma geração inteira de que a música havia se tornado gratuita, quando na verdade ela passou a ser paga com algo muito mais valioso: nossos dados, nossa atenção e nossa capacidade de escolher”, afirma.

A partir dessa perspectiva, questões que hoje aparecem nas discussões sobre vício em telas, bolhas informacionais, manipulação algorítmica e inteligência artificial encontram antecedentes nas mudanças experimentadas pela indústria musical. A promessa de democratização proporcionada pela internet aumentou o acesso aos conteúdos, mas, na análise apresentada pelo livro, também entregou às plataformas um poder significativo sobre os caminhos pelos quais esses conteúdos chegam ao público.

Alguns episódios conhecidos da história recente da música ajudaram Pimentel a acompanhar essa transformação. O conflito entre Metallica e Napster, por exemplo, aparece como um prenúncio das disputas sobre propriedade intelectual no ambiente digital. No Brasil, o vazamento de um trabalho dos Los Hermanos é retomado enquanto exemplo da ruptura entre os processos de produção e distribuição. O itinerário chega às plataformas de vídeos curtos, nas quais segundos de uma faixa podem alcançar milhões de usuários e determinar o sucesso de uma música. Para o autor, essa dinâmica introduz uma nova etapa: a possibilidade de que a criação já seja pensada levando em consideração as regras de circulação e viralização estabelecidas pelos algoritmos.

Apesar do tom crítico sugerido pelo próprio título, Pimentel não reivindica um retorno ao passado analógico. A discussão  se foca mais na compreensão de quem passou a controlar os mecanismos de circulação, recomendação e remuneração da produção musical. Dessa maneira, A Grande Trapaça Digital utiliza a história recente da música para formular uma questão que  vai além da indústria fonográfica: o que acontece com nossa relação com a cultura quando escolhas, descobertas e hábitos passam a ocorrer dentro de sistemas concebidos também para disputar e reter nossa atenção?

Foto de Robson Leandro

Sobre o autor

Luiz Cesar Pimentel é jornalista, escritor e executivo digital, com 30 anos de atuação em comunicação. Foi editor-executivo da revista IstoÉ e dirigiu operações digitais da Fox, Jovem Pan e R7. Trabalhou como repórter da Folha de S.Paulo, editor digital no UOL e na Trip, foi correspondente na Ásia e realizou coberturas em mais de 30 países.

Mestre em Ciências Sociais, especializou-se em Estratégia de Comunicação pelo Poynter Institute e em Inteligência Artificial aplicada à Comunicação pela University of California, Berkeley. Criou e foi sócio da revista e editora Zero e desenvolveu projetos de comunicação para marcas e artistas. Autor de 14 livros, tem dedicado parte de seu trabalho às relações entre cultura, tecnologia e poder.



Título: A Grande Trapaça Digital
Autor: Luiz Cesar Pimentel