A leitura no Brasil: o desafio de transformar crianças em adolescentes leitores | Maristela R. S. Gripp


Foto: Gabriel Frank  | Pexels

Num período de quatro anos, o Brasil perdeu cerca de 6,7 milhões de leitores, de acordo com o Retratos da Leitura no Brasil, Indicador Criança Alfabetizada e o Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa) de 2025. O termo “leitor” se refere à pessoa que leu, inteiro ou em partes, pelo menos um livro de qualquer gênero, impresso ou digital, nos últimos três meses.

O último censo sobre a leitura no Brasil, realizado em 2024, revela que a população lê cada vez menos. É claro que não podemos colocar toda a culpa no uso dos celulares, mas assusta saber que crianças e jovens correm o risco de não se tornarem leitores no futuro. 

Os dados do Pisa 2025, divulgados em de setembro de 2026, apontam para os problemas que começam a surgir devido à falta de leitura. Entre os estudantes brasileiros de 15 anos, o país obteve 408 pontos em leitura e permanece significativamente abaixo da média dos países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).

Apenas 49% dos estudantes brasileiros atingiram pelo menos o nível 2, considerado um patamar básico de proficiência, enquanto a média da OCDE foi de aproximadamente 69%. Somente cerca de 1% dos brasileiros alcançou os níveis mais elevados de leitura.

Portanto, o problema não se limita a perguntar “os jovens leem livros?”. Há uma segunda questão, talvez ainda mais importante: Eles conseguem compreender, interpretar, avaliar informações e estabelecer relações complexas a partir daquilo que leem?

Entre os fatores mencionados para o afastamento da leitura aparecem falta de tempo, desinteresse e concorrência com outras atividades, especialmente aquelas relacionadas às redes sociais e ao ambiente digital.

Além disso, especialistas apontam que família, acesso aos livros e possibilidade de escolher obras relacionadas aos interesses dos jovens têm peso importante na consolidação do hábito leitor.

Uma outra questão interessante também aparece nesse cenário: muitos adolescentes demonstram menor interesse pelas leituras escolares obrigatórias, enquanto apresentam maior adesão a gêneros como fantasia, aventura, romance juvenil, mangás e histórias em quadrinhos. Portanto, não necessariamente estamos diante de uma geração que "não gosta de ler". Em alguns casos existe um descompasso entre aquilo que a escola oferece e aquilo que desperta o interesse inicial do jovem leitor.

Nesse sentido, o ambiente digital apresenta uma relação ambivalente com a leitura, já que as redes sociais podem disputar tempo com o livro, mas também podem ser espaços onde a leitura de livros passa a ser recomendada, atuando como motivadora para a criação de comunidades que estimulam a leitura, levando a encontros presenciais desses grupos.

Entre as crianças, o cenário é mais positivo: dados da 6ª edição da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil revelam que as crianças continuam apresentando forte relação com os livros. Entre 5 e 10 anos, elas leem, em média, 7,27 livros por ano, sendo que 81% das crianças e adolescentes entre 11 e 13 anos são considerados leitores, enquanto, entre 14 e 17 anos, a proporção cai para 62%.

Diante disso, o que vemos é que o país enfrenta dificuldades para transformar a criança leitora em um adolescente e, posteriormente, em um adulto leitor. Sendo assim, as políticas educacionais precisam atuar em pelo menos três frentes: alfabetizar na idade adequada; manter o interesse pela leitura ao longo da adolescência; e desenvolver uma leitura cada vez mais crítica, autônoma e aprofundada.


*Maristela R. S. Grip
p é doutora em Estudos Linguísticos pela UFPR e professora do Centro Universitário Internacional Uninter, onde atua no curso de Letras EAD.