Abafada, de Marcela Fassy | Resenha de Adriane Garcia


Estreia em romance da escritora Marcela Fassy, Abafada narra, em primeira pessoa, a história de uma mulher que recebe um diagnóstico de transtorno misto de ansiedade e depressão. Com a “cabeça quebrada”, ela nos conta de seu estado atual, em um exercício que, literariamente, chamamos de “fluxo de consciência” e, analiticamente, de “associação livre". O romance reproduz a forma repetitiva de uma análise, a protagonista se comporta como uma analisanda, seu discurso avança e recua, desordenado, atendendo à (des)ordem subjetiva e convocando a leitora/o leitor para exercer o papel de analista da personagem.

Uma das coisas que chama a atenção no livro é que a protagonista não tem nome; assim, acabamos por chamá-la de Abafada, seu nome passa a ser a palavra que expressa o sintoma de uma possível histeria de conversão. Abafada é adepta de práticas masoquistas de asfixia erótica; em seus frequentes ataques de pânico, ela se sente sem ar; toda a atmosfera da narração é claustrofóbica, incluindo o contexto político-sócio-ecológico de crise climática e fim do mundo. Com uma relação complicada com a mãe um tanto onipresente, uma figura paterna quase ausente no discurso, uma identificação com uma tia suicida e um amante sádico, cujo nome significa leão, Abafada traz para as páginas, como poderia trazer para o consultório psicanalítico, palavras presas em um círculo. O exercício parece ser o de um ouroboros interminável, um ciclo sem saída.

É justamente essa sensação de ciclo sem saída que, no ápice, fará Abafada sair do lugar. Um dos rompimentos que ela realiza, contra os pilares de sua educação, é o término de um casamento insatisfatório. A “cabeça quebrada” aparece como literalidade, como metáfora e também como ato falho. Na sequência, a protagonista não aceita ser reduzida ao diagnóstico psiquiátrico, como se isso tivesse engatilhado outros momentos em que, por exemplo, ela fora tão estigmatizada (reduzida) quanto a Tia Celina: “A Celina sempre foi meio doida, doida, Depressão, a sua tia tinha depressão (...)”. Uma espécie de liquidificador mental se põe a funcionar ininterruptamente, buscando no agora os acontecimentos do passado que estão atuando sob disfarces. A leitora/o leitor no papel de analista escuta; vez em quando aponta algo, mas é a personagem analisanda que faz seu roteiro de fantasias, ideações suicidas, inferências. É ela própria que vai produzindo sentido para sua história, seu discurso, quando faz associações: “que gostoso, que gostoso poder só ficar ali, deitada, entregue como um bebê, um inocente bebezinho que acabou de sair do útero de sua mamãe, indefeso, pobrezinho, podem fazer com ele o que bem entenderem, se lhe fazem alguma maldade não é culpa do bebê, ele só está ali, ele só nasceu (”

Marcela Fassy usa parênteses durante todo o texto, parênteses que se abrem, se fecham, por vezes não se fecham, parênteses que entram em outros parênteses, representando as digressões que fazemos, aparentemente sem nexo, sem finalizações. Um trabalho coeso de linguagem, unindo tema e forma, permite que a leitura produza esse espaço analítico. Abafada fala da solidão, do sufocamento, das ideias suicidas, da moralidade opressiva da mãe, do seu conflito entre ser o que se é e se apresentar idealmente, passiva (“Ruth é boa, Raquel é má”), da fantasia criada a partir da relação com a tia morta e idealizada ( e como é fácil idealizar um morto), do trauma sem elaboração, afinal, raríssimas vezes em nossa sociedade se propicia um ambiente suficientemente bom para as crianças elaborarem seus lutos. O romance de Marcela Fassy mostra nitidamente a ambiguidade que pode haver no sofrimento repetitivo, um jogo de prazer-desprazer. Afinal, como ensinou Freud, onde há repetição, há sintoma. A própria prática sexual de asfixia da protagonista mostra esse gozo em que ela fantasia a posição passiva de um bebê, ao mesmo tempo em que, via projeção, exerce um sadismo por meio do Leon (se vê nele asfixiando a si mesma), que age a seu mando, mas a mantém na também desejada posição de vítima.

Freud mostrou que o sintoma é uma formação de compromisso entre o desejo inconsciente que quer se realizar e os mecanismos de censura do ego e do superego que querem barrá-lo. O sintoma é uma espécie de arranjo, acordo provisório, em que as estruturas envolvidas ganham algo e perdem algo. Todos ficam satisfeitos e insatisfeitos ao mesmo tempo. A função do sintoma é defensiva, é a de livrar o sujeito da angústia que tal desejo provoca, sendo que o sujeito conhece a angústia, mas não o desejo ensejador, que age a partir de um esconderijo, o recalque. Os sintomas, por piores que pareçam ser, aliviam o sujeito de algo que, para ele, parece pior que o sintoma. Um bom exemplo disso são as fobias; elas, ao relacionar via simbolização um perigo interno a um perigo externo, visível, procuram afastar o sujeito do desejo inaceitável. Agora o perigo está fora e não dentro. O horror está fora e não dentro. O indecente está fora e não dentro. Porém, pode chegar o momento em que o sintoma se torna insuportável e já não é mais suficiente para aplacar o desejo proibido. Abafada, no meio da crise, resolve falar. Ao falar, coloca a palavra a serviço do sentido, descobre que pode fazer contato consigo mesma, que pode aceitar o inaceitável em si, pois já cresceu, já não é mais um bebê indefeso. Da apneia, passando pela dispneia e chegando à eupneia, ela refaz seu percurso singular, pois assim são todos os percursos. Somente ela pode, corajosamente, contar a própria história, como é com todos nós. Ao atravessar o breu, ela finalmente se sente confiante o suficiente para respirar. Havia uma leitora/um leitor suficientemente boa/bom para lhe dar confiança, para lhe dizer de alguma forma: continue.

“Tia Celina sorrindo, os olhos apertados, chegava flutuando, vaporosa, se sentava ao meu lado, o semblante sereno, como se supõe que sejam sábios e serenos aqueles que já fizeram a travessia para a Índia para o plano astral, seu sorriso era a pura compreensão, seu ente gasoso que irradiava a luz dourada da tarde, Tia Celina permanecia ao meu lado, flutuando impassível sobre a cidade, com os olhos apertadinhos e o sorriso zen budista me informava que ia ficar tudo bem, tudo estava bem, que eu tivesse paciência, que tudo fazia parte de um plano grandioso, generoso, um mistério que compreende tudo, mães, tias, filhas, a cidade a serra os raios dourados do sol que entram pelos poros o vento da tarde que arrepia os cabelinhos do braço (

Você está cada vez mais parecida com a Celina, mamãe dizia e agora definitivamente não era um elogio, tampouco uma ameaça, era, sim, uma tristeza, uma constatação de que eu começava a condensar em meu corpo adolescente todas aquelas palavras com D, Doida, Deprimida, Destemperada, Desvairada, Desatinada, Dançada, Doente ( ”


 p. 107/108



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Marcela Fassy

Romance

Ed. Reformatório

2025

 



Marcela Fassy nasceu em Belo Horizonte (mg), em 1984, e atualmente vive em Diamantina (MG). É formada em História pela Universidade Federal de Minas Gerais, especialista em artes visuais (Senac-MG) e mestre em ciências humanas (UFVJM) pela Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri. Trabalha como educadora no Instituto Brasileiro de Museus. É autora das coletâneas de contos Oniros (Urutau, 2022) e Animais cinzentos (Viseu, 2021). Foi finalista do 4º Prêmio Internacional Pena de Ouro na categoria Conto. Possui textos publicados em revistas e antologias diversas e realiza oficinas literárias.




Adriane Garcia, poeta, nascida e residente em Belo Horizonte. Publicou Fábulas para adulto perder o sono (Prêmio Paraná de Literatura 2013, ed. Biblioteca do Paraná), O nome do mundo (ed. Armazém da Cultura, 2014), Só, com peixes (ed. Confraria do Vento, 2015), Embrulhado para viagem (col. Leve um Livro, 2016), Garrafas ao mar (ed. Penalux, 2018), Arraial do Curral del Rei – a desmemória dos bois (ed. Conceito Editorial, 2019), Eva-proto-poeta, ed. Caos & Letras, 2020, Estive no fim do mundo e lembrei de você  (Editora Peirópolis) e A Bandeja de Salomé ( Caos e Letras, 2023)