O Jardineiro | crônica de Valdocir Trevisan


Still frame de Morangos Silvestres
O Jardineiro


Se Epicuro ensinou seus discípulos em seus famosos jardins é porque esses locais  remetem a  felicidade e bem-estar. 

 Ora, belos jardins sempre foram admirados e glorificados.

Pena que seus “construtores” raramente recebam o mesmo reconhecimento e, quase sempre, sejam mal remunerados. Ser jardineiro costuma ser associado ao trabalhador simples, de vida humilde. Isso, porém, não significa que estejamos falando de pessoas infelizes. 

Bertrand Russell disse que uma das pessoas mais felizes que conheceu foi, vejam só, seu jardineiro. 

Sim, um dos maiores filósofos que o mundo  conheceu, habituado a conviver com diferentes campos do conhecimento, grandes pensadores e personalidades reconhecidas, encontrou na simplicidade de seu jardineiro uma expressão da vida em sua plenitude. 

A vida tem dessas coisas: muitas vezes, a simplicidade se sobrepõe ao espetáculo.  

Há dois, três anos, abri a porta da casa onde minha filha morava em Salvador e tive a sensação de abrir a porta da velha casa de veraneio na praia de Tramandaí, onde passei 50 temporadas de verão. 

Incrível, até o cheiro naquele dia, na distante Bahia lembrava minha infância e adolescência na praia gaúcha.

Lembrei da sacada do quarto onde a sombra dos galhos da enorme árvore penetrava, em  quase uma dança nas paredes e no teto do quarto. Era motivo de alegria e felicidade… É, Lenine tem razão, “a vida não pára”, ela é rara.

Quem já assistiu Morangos Silvestres de Ingmar Bergman sabe o que estou falando e quem não viu, assista…existencialismo puro… São interessantes os nossos valores. Tudo depende do momento vivido por cada indivíduo. São os “instantes eternos” de Michel Maffesoli. 

Quando Dostoiévski esteve preso na Sibéria, experimentou essas discrepâncias: “Como eu podia imaginar anteriormente, mesmo de longe, que uns simples trapos pudessem ser considerados peças de vestuário? Pois desses trapos fiz cobertores.” 

 Era o autor russo exilado na gelada Sibéria vivendo tal qual um inseto kafkaniano.

Já Ingmar Bergman ilustra o velho personagem que está cansado de amizades estranhas, preferindo a solidão, pois já não consegue conversar com outras pessoas.

Que loucura não é mesmo? Ora, sabemos, a solidão pode deixar homens racionais enlouquecidos, o náufrago de Tom Hanks revelou esse pavor.

Porém a solitude é salutar.

É, os paradoxos revelam ambiguidades, uns desejam a solidão, outros, e imagino, a maioria, faz qualquer negócio para estar incluído.

Ainda assim, Bergman sempre genial, traz reflexões e diálogos existenciais que faz o mais alegre dos homens preferir curtir uma solidão diferente daquela que não devora. É aí que nossas interações revelam micro e macrocosmos. No final, descobrimos que as amizades sinceras valorizam a essência das relações humanas.

O  ambicioso sem ética percebe que a luta foi inglória.

O famoso escritor que tanto sublinhou personagens inesquecíveis e conviveu com intelectuais, preferiu conviver com as palavras do seu amigo sincero, o jardineiro. Palavras de quem conhece as rosas, entende as flores e respeita o verde que, como na canção de Geraldo Vandré, insiste em florescer.    

E, no final, entre saberes complexos e grandes teorias, Bertrand Russell encontrou nas palavras simples e profundas de seu feliz jardineiro uma sabedoria particular. E eu? Bom, eu vou cuidar bem dele. Vou cuidar do seu jardim...



Valdocir Trevisan é gaúcho, gremista e jornalista. Autor do livro de crônicas Violências Culturais (Editora Memorabilia, 2022)