Em Derrisão, Celso Tádhei imagina um Brasil onde rir se torna crime



Finalista do Jabuti 2025, escritor e roteirista transforma uma Copacabana ameaçada por uma gigantesca onda de gelo em cenário para discutir medo, controle, liberdade e o papel do humo
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Uma gigantesca onda de gelo se ergue diante da praia de Copacabana e permanece imóvel, suspensa como uma ameaça prestes a avançar sobre a cidade. Quando cientistas descobrem que o riso humano pode comprometer sua estrutura, o governo passa a controlar as gargalhadas até chegar à medida extrema: rir torna-se proibido.

É desse ponto de partida que o escritor e roteirista carioca Celso Tádhei desenvolve Derrisão (Mondru Editora), seu novo romance, publicado pela Mondru Editora e lançado durante a Flip 2026. Finalista do Prêmio Jabuti 2025 com A Casa da Ópera de Manoel Luiz, o autor recorre à ficção científica e à sátira para imaginar uma sociedade disposta a sacrificar parte de sua liberdade em nome de uma promessa de segurança.

O personagem principal dessa história, Tito Bastos, um roteirista de humor vê sua profissão e sua própria maneira de existir ameaçadas à medida que o controle sobre o comportamento da população se intensifica. Medo, liberdade, vigilância e comportamento coletivo aparecem ligados a uma questão que orienta o romance: o que uma sociedade perde quando decide abrir mão da alegria para se sentir protegida?

“O romance usa a ficção científica e a sátira para discutir uma pergunta simples: o que acontece quando uma sociedade decide abrir mão da alegria em troca da promessa de segurança?”, explica Tádhei.

Copacabana sob uma ameaça permanente

A escolha de Copacabana como cenário parte também da relação pessoal do escritor com o bairro, onde já viveu. Em Derrisão, uma das paisagens mais conhecidas do Rio de Janeiro é modificada pela presença da muralha de gelo, que transforma a orla em um local marcado pela expectativa de uma catástrofe. A imagem da onda surgiu antes mesmo do desenvolvimento da trama. “Achei uma imagem forte: uma tensão constante, uma ameaça permanente que, a qualquer instante, poderia decidir engolir a cidade”, conta o autor.

A partir dessa situação extraordinária, o romance observa os mecanismos que podem levar uma população a aceitar restrições progressivas quando confrontada pelo medo. O humor deixa de ter um papel aparentemente secundário para se tornar elemento decisivo na discussão sobre liberdade. Para Tádhei, o riso está relacionado à maneira que as pessoas enfrentam a dor, criam vínculos e questionam estruturas de autoridade. “Algumas coisas que nos tornam humanos são inseparáveis da nossa vulnerabilidade, da nossa disposição de correr riscos, de nos expormos ao olhar, à crítica, mas também ao abraço do outro”, afirma. Entre as referências literárias de Derrisão, o escritor cita Kurt Vonnegut, Machado de Assis de Memórias Póstumas de Brás Cubas, as distopias de George Orwell e Ray Bradbury e a obra de Ursula K. Le Guin.



Da literatura de volta à televisão

O lançamento de Derrisão coincide com a retomada da parceria de Celso Tádhei com a TV Globo, emissora na qual trabalhou durante 23 anos. O roteirista integrou projetos de humor e chegou à chefia de roteiro do Zorra, programa indicado ao Emmy Internacional. Agora, Tádhei faz parte da equipe de Daniel Ortiz na preparação de uma nova novela das sete, ainda sem título e com estreia prevista para março de 2027. O autor trabalha como colaborador do folhetim ao lado de Flávia Bessone e Victor Atherino. A comédia romântica acompanhará mulheres que enfrentam dificuldades e se unem para reconstruir suas vidas.

Tádhei também atuou como roteirista colaborador de Paraíso Perdido, novela do Globoplay escrita por George Moura e Sergio Goldenberg, cuja produção se prepara para iniciar as gravações nos Estúdios Globo. 

A experiência de décadas escrevendo humor para a televisão encontra em Derrisão outra perspectiva. Desta vez, o próprio riso deixa de ser apenas recurso narrativo e passa a determinar o conflito: diante de uma ameaça aparentemente incontornável, a sociedade precisa decidir até onde está disposta a renunciar à liberdade para permanecer segura.

Leia, a seguir, a entrevista com o autor.

1. Em Derrisão, o riso se transforma em ameaça e passa a ser controlado pelo Estado. O que essa inversão lhe permitiu discutir sobre liberdade individual, poder e comportamento coletivo? 

O riso incomoda há séculos e frequentemente representa um perigo para as autoridades, especialmente para aquelas mais apegadas ao poder. Isso acontece diante dos nossos olhos: basta lembrar que o homem mais poderoso do mundo, o presidente Donald Trump, tem feito ataques públicos recorrentes a comediantes norte-americanos e aos programas que o satirizam. Essa tentativa de controle não é nova. E é natural: por sua própria natureza, a comédia não respeita coisa alguma. Nada nem ninguém escapa à sua força corrosiva. Não há ato, símbolo, pessoa ou instituição sagrada demais para sair ilesa do deboche alheio. Esse é um dos aspectos que tornam a comédia tão perturbadora. Ela ocupa o lugar do “outro”: olha de fora, mantém distância, não se deixa envolver pela emoção. O vasto histórico de conflitos entre o riso e os poderes, tanto laicos quanto religiosos, não existe por acaso.

Entre pessoas ou grupos, funciona de maneira parecida. A tão proclamada liberdade de fazer piadas costuma terminar no momento em que alguém se ofende ou se sente ferido. Mas esse limite é variável e, verdade seja dita, parece cada vez mais difícil de ser percebido. Tudo se complica quando o melhor instrumento para medi-lo parece nos escapar a cada post ou comentário nas redes sociais: o bom senso. Essa discussão está longe de terminar — e talvez nunca termine.

No meu livro, dou materialidade a essa questão, já que o “perigo” do riso ganha contornos apocalípticos: ele é o único capaz de descongelar as ondas gigantes e, portanto, pode destruir cidades, talvez aniquilar países inteiros. O limite da comédia é então estabelecido da forma mais radical possível: ela é simplesmente proibida. No entanto — e esse é, em essência, o paradoxo da comédia —, isso está longe de representar uma solução.

Como sabemos, se o riso provoca e destrói, ele também agrega, humaniza, alivia e cura. Faz parte dos mecanismos que nos ajudam a recuperar algum equilíbrio diante das tensões da vida. Em Derrisão, os órgãos responsáveis pela vigilância e pelo controle logo percebem que, se o riso pode matar, sua ausência também pode. Não há muito como escapar. Então, eu acho, é melhor relaxar e rir da coisa toda. Nesse ponto, a vida real está bem próxima da situação-limite que o livro leva ao extremo.

2. A proibição do riso é apresentada inicialmente como uma medida de proteção diante da ameaça da onda congelada. Como o romance trabalha essa passagem entre uma justificativa aparentemente legítima e a construção de um sistema cada vez mais opressor?

Pois é. Acredito que, na vida real, as coisas costumam acontecer assim: num crescendo. Uma piada ultrapassa determinada fronteira e, dependendo do regime, isso pode levar ao debate público e jurídico — o que é saudável — ou descambar para o autoritarismo, a censura, a prisão e a tortura — o que é doentio.

Em Derrisão, como o cenário é realmente aterrador, tudo vai sendo escalonado até se criar um clima terrível, como diria Galvão Bueno. O que mais me surpreendeu, ao desenvolver o enredo e as consequências da situação que eu havia criado (um mundo em que o riso representa uma ameaça real), foi perceber que poderia surgir uma opressão ainda mais violenta vinda da própria população, naturalmente impulsionada pelo medo.

O medo pode despertar o pior nas pessoas. Em Derrisão, os comediantes, antes figuras queridas pelo público, passam a ser vistos como inimigos do povo e se tornam vítimas de ataques e linchamentos. Até onde nossos medos podem nos levar?

A ficção, acredito, cumpre um de seus papéis justamente ao inventar esse tipo de cenário, quase como um experimento social. Desde Nós, Admirável Mundo Novo e 1984, as distopias vêm nos mostrando como as coisas podem dar muito errado quando fazemos determinadas escolhas. Parece que todos nós ainda precisamos ler — e reler — esses clássicos.

3. Tito Bastos é roteirista de humor e, portanto, vê não apenas sua liberdade, mas a própria profissão ameaçada. O que a escolha desse personagem lhe permitiu discutir sobre o papel de quem produz humor em momentos de medo, censura e controle social? 

Há uma longa e nobre linhagem de cômicos que enfrentaram o autoritarismo apenas com suas piadas. Stanislaw Ponte Preta, a turma do Pasquim, Henfil, Dercy Gonçalves, Jô Soares, Chico Anysio… Com ímpeto de guerrilheiros, usaram o que tinham de melhor — ou de pior — para denunciar abusos e enfrentar o poder.

Todos eles, não por acaso, podem ser considerados filhos e netos afetivos de Apparício Torelly, o famoso Barão de Itararé. Ele protagonizou uma história exemplar: em 1934, depois de publicar em seu jornal textos sobre João Cândido e a Revolta da Chibata, foi sequestrado, ameaçado e espancado por oficiais da Marinha. No mesmo dia, voltou à redação e pendurou na porta de sua sala uma placa com a frase: “Entre sem bater”.

Esse episódio, que atravessou décadas, de certo modo exemplifica o espírito desses artistas. Mas não é apenas em situações extremas que isso acontece. Comediantes são pessoas que vivem numa corda bamba, muitas vezes estendida por elas mesmas.

Não é que gostem de correr riscos. A comédia, em sua essência, é um risco. Provocativa, instável, transgressora, está sempre desafiando os próprios limites. Algumas teorias do humor costumam propor que o riso habita um lugar que fica exatamente entre aquilo que é seguro e aquilo que é incômodo. Se descambar para um lado ou para o outro, se for inofensiva ou hostil demais, não há gargalhada possível. Permanecer nessa interseção entre agressão e confiança é um grande desafio. Facilmente, ao arriscar alguma acidez, você pode ferir alguém da plateia. Se permanecer apenas em território seguro, sendo apenas fofo, talvez não esteja fazendo o seu trabalho.

Tito Bastos, escritor de comédia experiente, sabe disso. E sabe também que cabe a cada um fazer suas escolhas, decidir quais riscos está disposto a correr, quem e o que pretende provocar com suas gracinhas. Assim como o Barão de Itararé, Tito faz as escolhas dele… e encara as consequências.

4. Copacabana é um território ligado à sua própria memória, mas em Derrisão aparece diante de uma enorme onda de gelo permanentemente suspensa sobre a praia. Como você trabalhou a transformação de um espaço tão reconhecível do Rio de Janeiro em cenário de uma distopia?

Imaginar uma Copacabana gelada foi divertido. Há no Brasil esse nosso eterno fascínio tropical pela neve e pelo gelo, por aquela beleza branca e pura associada a um imaginário importado das culturas europeia e estadunidense, ao Papai Noel e a todas essas coisas. De certa forma, o clima de terror instaurado pelo cataclisma é amenizado pelo inusitado da queda de temperatura e, principalmente, pelo inexaurível espírito zombeteiro do carioca. 

Para quem gosta de ficção científica, criar uma “personagem” como a Onda e todo o aparato científico e militar construído em torno dela foi particularmente saboroso. Sua presença ameaçadora passa a dominar o bairro e, como consequência, aquilo que conhecíamos deixa de existir. Copacabana se transforma numa espécie de memória de si mesma.

Tratar a Copacabana atual como lembrança de um passado recente foi, para um roteirista de humor como eu — e para meu protagonista, Tito —, um exercício bastante atraente. Isso nos permitiu observar e comentar certas insanidades comportamentais que, de tão corriqueiras, pareciam naturais. Não são. Nunca foram. 

Qualquer um que tenha frequentado a praia na altura do Posto 2 ou algum boteco da Prado Júnior sabe do que estou falando. E, se não souber, saberá — basta ler o livro.

5. Você tem uma longa trajetória escrevendo humor para a televisão e agora retorna à Globo enquanto lança um romance no qual justamente o riso é criminalizado. De que maneira sua experiência como roteirista de humor influenciou a criação de Derrisão e sua reflexão sobre os limites e a importância do riso?

Bom, acho que o livro nasce justamente dessa experiência, do meu amor pela comédia, pelo riso e pelos humoristas. Tive a sorte de conviver com comediantes das mais diferentes origens, gerações e estilos. Trabalhei com alguns dos meus ídolos de infância, como Renato Aragão, Maurício de Sousa, Chico Anysio, Agildo Ribeiro e Paulo Silvino, e conheci gente que hoje é sucesso nacional quando ainda estava começando.

Nessa trajetória, fiz programas muito exitosos, outros nem tanto, e fui seguindo em frente. Sigo até hoje. Como você lembrou, agora mesmo estou vivendo uma nova experiência. Tem sido incrível fazer parte da equipe de Daniel Ortiz, autor de vários sucessos da novela das sete, que honra o legado deixado por Silvio de Abreu, trabalhando com humor, leveza e inteligência.

Ter a oportunidade de experimentar diferentes formatos, linguagens e temperamentos cômicos é, para mim, uma enorme sorte e uma alegria. Procuro honrar as oportunidades que tenho, e Derrisão foi uma das maneiras que encontrei — por mais doido que isso possa parecer, e é — de celebrar e agradecer à Comédia, essa deusa perspicaz, irreverente e repleta de contrastes.



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