
Foto de Josie Weiss na Unsplash
Minha França Querida
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| Foto de Josie Weiss na Unsplash |
Minha França Querida
Estou escrevendo aqui de cima, haja vista que já morri há muito tempo. A exemplo do meu vizinho brasileiro Brás Cubas, mas não com o mesmo talento, resolvi contar um pouco da minha história.
Meu nome é Emma, nasci em 1830 em uma fazenda na Normandia, França. Sempre fui muito bonita, modéstia à parte, adorava contemplar os quadros de Rousseau, Courbet e Corot que conheci no convento muito fechado em que estudava, mas, quando minha mãe morreu, voltei para casa para ajudar meu pai. Apesar de estar muito triste com a perda de mamãe, a vida ia bem tranquila, tranquila até demais. Certo dia, papai teve um ferimento na perna e precisei chamar um médico, e foi aí que conheci Charles, que vinha sempre acompanhar a evolução da ferida. Três anos depois, nos casamos e nos mudamos para Tostes. Na verdade, nunca fui realmente apaixonada por ele; precisava sair daquela vidinha monótona, era um tédio só. Foi minha grande oportunidade!
Charles era um bom homem, dedicado, honesto, e me senti muito atraída em ter minha própria casa e ser respeitada, afinal, seria a esposa de um médico! Ele me amava loucamente e fazia tudo para me agradar. Eu achava que, ah, que tolinha, nada poderia dar errado e acabaria me apaixonando também. Mas, já na lua de mel, percebi que algo não estava funcionando, sabe, vocês me entendem, até na cama me senti desconfortável, esperei tanto por aquele momento e, quando me entreguei, foi longe, mas muito longe do que imaginava. Doía, queria logo acabar com aquilo, e Charles era rápido, mecânico, nem carinho nem juras de amor e muito menos aquelas palavras calientes que havia lido nos romances. Uma decepção desde o início.
Nossa vida em Tostes era aquela rotina diária previsível, nenhuma emoção, pelo menos para mim. Charles trabalhava fora o dia inteiro e eu cuidava da casa com a doce Felicité, nossa criada, que me fazia companhia. Para sair dessa estagnação, ia sempre para Rouen, meia hora lá de casa, comprava joias, roupas , chapéus lindíssimos e tudo que via pela frente, quadros, estatuetas, perfumes, maquiagens. Precisava sair daquele torpor de Tostes e nada como comprar bobagens; ah, que delícia...
Nessa época Charles já começava a reclamar: “Muita despesa, para que tudo isso? Você precisa parar de gastar tanto, Emma.” Na verdade, hoje, revendo tudo aqui de cima, percebo que era só para tentar me divertir um pouco. Fui fútil e rasa mesmo. Mas o pior é que, com o tempo, as dívidas e a irritação dele aumentavam proporcionalmente e nada mais me satisfazia, voltou o tédio.
Uma tarde fui com Charles a uma consulta médica em Yonville e acabei conhecendo o Leon. Ele tinha uma conversa boa, muito mais interessante que Charles, que só falava de doença e de minhas dívidas, e não é que ele acabou se apaixonando por mim? Foi com ele que tudo começou. Conte tudo para Felicité, que era de total confiança. Ela me ajudava a despachar as cartas cifradas com códigos secretos e, com ele, descobri pela primeira vez o prazer do sexo. Íamos aos bosques isolados e longínquos. Foi muito bom, mas durou pouco. Após alguns meses, menos de um ano, Leon foi para Paris estudar Direito. Era ambicioso, queria ser um advogado famoso. Você acredita que ele partiu, sem me dizer uma palavra? Fiquei devastada.
Depois que conheci o gozo, não conseguia mais ficar sem, vocês hão de me entender. E logo, algumas semanas depois acabei conhecendo o Rodolphe, num evento agrícola. Era podre de rico, casado, mas sua esposa vivia doente. Que grande sedutor! Acho que juntou a sua fome com a minha vontade de comer. Que homem charmoso! Fazíamos lindas cavalgadas, passeios e piqueniques. Acredito que com ele passei os melhores momentos da minha breve existência na terra. Charles, bondoso, era muito ingênuo e o considerava um amigo do casal. Como estava sempre ocupado, não se incomodava que ele viesse me buscar para passear. Era um sonho! Foi com Randolph que soube o que era uma verdadeira paixão. Precisava ficar linda para ele, e as dívidas iam crescendo.
Vou tentar abreviar um pouco, porque minhas linhas estão se esgotando. Novamente, quase um ano, depois de Randolph ter conseguido tudo que queria, também me abandonou e, para piorar, os comerciantes começaram a mandar cartas de cobrança para Charles, que dessa vez foi fundo nas investigações e descobriu tudo.
Me senti abandonada e traída, procurei por Leon e fui novamente rejeitada. Charles ficou arrasado e eu fiquei completamente desesperada. Não sabia mais o que fazer. Com Charles, viver era uma tormenta, e agora que ele sabia de tudo, iria ser um verdadeiro inferno. Não fazia sentido continuar viva. A sociedade à qual pertencia não me deixava alternativas, não conseguia ter liberdade, autonomia. “Que mais que eu queria? Não me bastava ser a fidalga senhora de um bom médico?” Não, não era possível simplesmente tentar ser feliz da forma que desejava!
Fui à farmácia, comprei arsênico para matar ratos e, ao lado de Charles, ingeri meu alívio. Com dores horríveis e muito sofrimento, vim aqui para cima. Fiquei muito arrependida de tudo que fiz, principalmente ao ver a morte terrível com tanto desespero e desgosto que proporcionei a meu marido.
Hoje, mais de um século e meio depois, não me arrependo, mas percebo que nasci à frente do meu tempo e, se houve alguma estupidez na minha história, foi daquela sociedade arcaica e preconceituosa na França do século XIX. As mulheres não tinham direitos civis e políticos; nem votar podíamos. O casamento era nossa principal função e éramos submetidas à autoridade do marido. Você consegue imaginar isso?
Agora, preciso deixar vocês, porque meu querido amigo Flaubert está chegando para tomar um conhaque Napoleon comigo, e sou tão grata a ele. Sabe, naquela época, minha história foi considerada escandalosa e imoral. Foi processado, quase foi preso por minha causa, mas ninguém teria escrito melhor essa história. Danado, ele adora implicar comigo, só me chama de Madame B.
Au revoir.
Arnaldo Motyl, natural do Rio de Janeiro, carioca da gema. Formado em engenharia civil pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro em 1982 e MBA em administração de varejo pela CoppeAd-UFRJ em 2001. Empresário do varejo no Brasil por quarenta anos, maior desafio que um simples mortal pode ter na vida. Iniciou como cronista em 2024, tendo uma de suas crônicas publicada na Folha de São Paulo. Em 2026, foi convidado a participar de uma coletânea da Academia de Letras da Grande São Paulo-ALGRASP.

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