Renato Bezerra de Mello, obra Lembranças e esquecimentos
Exposição inédita no Sesc Tijuca reúne 11 conjuntos de trabalhos do artista pernambucano e percorre memória, autobiografia e a minúcia do fazer manual.
O gesto aparentemente simples de dar um nó, perfurar uma folha, lixar um pequeno objeto ou escrever algumas palavras ganha outra dimensão no trabalho de Renato Bezerra de Mello. A partir de 3 de outubro, o artista pernambucano radicado no Rio de Janeiro apresenta “Gestos Cotidianos”, exposição individual e inédita que ocupa a galeria do Sesc Tijuca. Com curadoria de Daniela Name e Jocelino Pessoa, a mostra reúne trabalhos produzidos em diferentes momentos de sua trajetória e evidencia a presença do fazer manual como elemento recorrente de sua produção.
Ao todo, são 11 conjuntos de obras, instalados nas paredes, no chão, suspensos pelo teto ou distribuídos sobre mesas e prateleiras. A diversidade das montagens acompanha a variedade de materiais empregados pelo artista: papel carbono, jornal, papel vegetal, fios de seda, grafite, giz de sinuca, arquivos descartados e pequenos fragmentos escritos. Materiais comuns são submetidos a procedimentos pacientes e repetitivos, transformando-se em objetos, desenhos, instalações e pequenas esculturas.
A repetição, entretanto, não significa reprodução do mesmo. Ao reunir exemplares que à primeira vista parecem idênticos, o artista evidencia justamente suas diferenças. Cada nó, corte, perfuração, fricção ou desenho guarda as marcas particulares de sua execução. É o que ocorre na inédita “Nozinhos”, formada por fios presos individualmente que assumem formas semelhantes a trouxas, ninhos ou corações.O caráter minucioso desse trabalho conduz a exposição para uma geografia autobiográfica. Memórias familiares, relações amorosas, acontecimentos da rotina e experiências do ateliê permeiam obras nas quais objetos e arquivos deixam de funcionarenquanto registros do passado e passam por processos de transformação.
No centro da galeria, duas instalações ajudam a estabelecer esse diálogo. Em “Lembranças e esquecimentos” (2005), parte do piso é tomada por tirinhas escritas em papel cristal. Já “Cópia da cópia” (2006) toma o espaço aéreo com pequenos cadernos nos quais desenhos realizados pelo artista deixam suas marcas nas páginas através do papel carbono. A exemplo da própria concepção da montagem, escritas no chão e escritas no ar. A elas se somam “Fingindo repetir o idêntico” (2016), “Brincar de novo” (2011), “O fim desde o começo” (2013), “Aparas” (2014), “Nada, ninguém, coisa alguma” (2015), “Ouro negro” (2015), “O que sinto não sei dizer o que é” (2016), “Carbonos (Tristeza profunda)” (2025-2026) e “Correr no azul à busca da beleza” (2014).
Para a curadora Daniela Name, a fabulação e a autofabulação já estavam presentes na produção do artista muito antes de esses conceitos se tornarem recorrentes no debate artístico. Arquivos pessoais e materiais encontrados são desviados de suas funções originais, recortados, perfurados e reorganizados até adquirirem novos sentidos. A forte presença do papel também ganha significado em um período destacado pela crescente substituição da escrita e dos suportes físicos pelos dispositivos digitais.
“Há uma escolha propositalmente anacrônica em tempos de amnésia, desuso da escrita e saturação dos dispositivos tecnológicos de inteligência superficial”, observa Name.
Esse movimento entre experiência individual e memória coletiva também orienta a leitura de Jocelino Pessoa. Para o curador, a intimidade presente na produção de Bezerra de Mello ultrapassa o âmbito privado ao permitir que o público reconheça suas próprias experiências naquilo que vê. “Em um gesto de delicada intimidade, a poética de Renato Bezerra de Mello transforma a memória em um território compartilhado — um convite para sentar, escutar e dividir nossas próprias histórias”, afirma.
“Gestos Cotidianos” permanece em cartaz até 3 de janeiro e terá uma programação de ativações durante o período expositivo. Entre as atividades previstas estão uma oficina de escrita com a poeta e apresentadora Bianca Ramoneda e um debate com Renato Bezerra de Mello e os curadores, acompanhado do lançamento de ensaios críticos de Daniela Name e Jocelino Pessoa sobre a obra do artista.
A exposição foi um dos projetos vencedores do Edital de Cultura Sesc RJ Pulsar.
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Renato Bezerra de Mello | Foto: Rafael Adorján
SERVIÇO:
GESTOS COTIDIANOS — RENATO BEZERRA DE MELLO
Curadoria: Daniela Name e Jocelino Pessoa
Abertura: 3 de outubro, das 14h às 17h
Visitação: 6 de outubro de 2026 a 3 de janeiro de 2027.
Sesc Tijuca
R. Barão de Mesquita, 539 - Tijuca
De terça a sexta-feira, das 10h às 20h, sábados e domingos, das 10h às 17h.
Entrada gratuita.

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