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| Fotografias de Carlos Monteiro |
Mestre Zu, a doçura mais gentil que conheci
Há
pessoas que a gente fotografa com os olhos. Mestre Zu era uma delas. Zuenir
Ventura chegava sem fazer barulho. Um sorriso discreto. O olhar atento. A
palavra sempre pronta, mas nunca apressada. Tinha a rara elegância de quem
sabia ouvir. E isso, hoje, é quase uma fotografia antiga. Em tempos de tanta
pressa, Mestre Zu caminhava devagar. Devagar não era lentidão. Era atenção. Via
pessoas. Via histórias. Via o Rio. Talvez por isso tenha sido tão grande
jornalista. E tão grande escritor. Porque antes de escrever, olhava. Antes de
julgar, escutava. Antes de transformar uma história em texto, procurava o homem
escondido dentro dela.
Mestre
Zu conhecia o Brasil pelas suas contradições. Pelas ruas. Pelos personagens.
Pelas dores. Pelas esperanças. E conhecia o Rio pelo afeto. O Rio da janela
aberta. Da calçada molhada depois da chuva. Do vendedor de jornal na esquina. Do
botequim de porta aberta. Do mar de Ipanema recortando o horizonte. Do Cristo
aparecendo entre dois prédios. Do carioca sentado diante do nada, olhando o mar
como se conversasse com ele. Esse era o Rio de Mestre Zu. Um Rio físico. De
pele, sal e sol. Mas também um Rio indelével. Aquele que permanece quando a
paisagem muda. Quando o prédio antigo desaparece. Quando a esquina deixa de ser
a mesma. Quando as pessoas partem. O Rio que fica dentro da gente.
Mestre
Zu carregava esse Rio consigo. Talvez por isso suas palavras tivessem sempre
alguma luz carioca. Mesmo quando escrevia sobre o Brasil mais duro, havia nelas
uma espécie de janela. Uma possibilidade de enxergar além. Ele fez do
jornalismo uma maneira de compreender o país. E da literatura, uma maneira de
guardar aquilo que o tempo insiste em apagar. Há jornalistas que registram
acontecimentos. Mestre Zu registrava vidas. E há escritores que inventam
mundos. Mestre Zu encontrava mundos nas pessoas. Foi assim que sua obra
atravessou gerações. Foi assim que chegou à Academia Brasileira de Letras. A
cadeira de um imortal não é apenas uma cadeira. É uma fotografia de longa
exposição. Nela ficam os que passaram. Os que escreveram. Os que pensaram. Os
que ajudaram a construir a língua, a literatura e a memória de um país. Ao
tornar-se imortal da Academia, Mestre Zu ganhou um lugar entre essas vozes. Mas,
pensando bem, sua verdadeira imortalidade já estava garantida. Estava nas
páginas. Nos livros. Nas reportagens. Nos leitores. Nos amigos. Nos colegas. E,
principalmente, na lembrança de quem teve o privilégio de encontrá-lo. Porque
algumas pessoas deixam saudade. Outras deixam ensinamentos. Mestre Zu deixou os
dois. E deixou também uma delicadeza.
Uma
maneira de olhar o outro. Uma maneira de conversar. Uma maneira de estar no
mundo. Hoje, quando penso nele, imagino uma fotografia. Mestre Zu caminhando
pelo Rio. A luz da tarde batendo de lado. O mar ao fundo. Uma brisa mexendo a
camisa. Ele para por um instante. Olha. Sorri. Talvez tenha acabado de
encontrar uma história. Talvez tenha apenas encontrado o Rio. E, como sempre,
tenha entendido que os dois eram a mesma coisa.
Porque
Mestre Zu não apenas amou o Rio. Ele ajudou a escrevê-lo. E algumas cidades,
quando encontram homens assim, também se tornam imortais.
Carlos Monteiro é fotógrafo, cronista e publicitário desde 1975, tendo trabalhado em alguns dos principais veículos nacionais. Atualmente escreve ‘Fotocrônicas’, misto de ensaio fotográfico e crônicas do cotidiano e vem realizando resenhas fotográficas do efêmero das cidades. Atua como freelancer para diversos veículos nacionais. Tem três fotolivros retratando a Cidade.








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