Três lançamentos discutem alfabetismo, vida digital e a urgência de desacelerar

por *Taciana Oliveira | 


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Novos títulos abordam os 25 anos do Inaf, as transformações da internet e os impactos da cultura da velocidade sobre o cotidiano

Educação, tecnologia, desigualdade, excesso de informação e falta de tempo são temas abordados em três novos livros que chegam ao público em 2026. Embora partam de campos distintos, Inaf 25 anos: alfabetismo no Brasil em tempos digitais, A internet não precisa ser assim e Urgente é gente se encontram ao examinar mudanças que interferem diretamente na vida cotidiana e colocam em discussão as condições de participação social em um mundo cada vez mais mediado pelas tecnologias.

Os títulos integram duas coleções editoriais. Inaf 25 anos: alfabetismo no Brasil em tempos digitais faz parte da coleção Estudos em Movimento, enquanto A internet não precisa ser assim e Urgente é gente pertencem à coleção Diálogos Urgentes.

As obras lançam olhares distintos sobre questões que ganharam maior complexidade nos últimos anos. De um lado, as transformações no alfabetismo e os desafios impostos por uma sociedade em que ler, escrever, trabalhar, acessar serviços e exercer a cidadania também exigem habilidades no ambiente digital. De outro, a concentração de poder das grandes plataformas e os mecanismos que transformaram atenção e dados em ativos econômicos. Completa esse panorama uma reflexão sobre a aceleração da vida, o cansaço e a ideia de que estar permanentemente disponível e produtivo se tornou uma exigência social.


Inaf 25 anos
: alfabetismo no Brasil em tempos digitais, de
Heloisa Trenche Belusci e Roberto Catelli Jr

Organizado por Heloisa Trenche Belusci e Roberto Catelli Jr., Inaf 25 anos: alfabetismo no Brasil em tempos digitais destaca os 25 anos do Indicador de Alfabetismo Funcional (Inaf) e analisa os resultados da edição de 2024 da pesquisa, que incorporou pela primeira vez a dimensão digital em seu instrumento de avaliação. Criado em 2001 pela Ação Educativa e pelo Instituto Paulo Montenegro, o Inaf realizou dez edições ao longo de sua trajetória. A publicação apresenta de que forma as transformações tecnológicas acrescentaram novas questões à compreensão do alfabetismo. Em uma sociedade na qual diferentes atividades são mediadas por telas e plataformas, avaliar as capacidades de leitura, escrita e matemática passa também pela maneira como essas habilidades são mobilizadas nos ambientes digitais. Os resultados indicam que desigualdades já observadas no alfabetismo também aparecem nesse universo.

A coletânea reúne especialistas que analisam os dados de 2024 em diálogo com a série histórica do indicador. A primeira parte se dedica às mudanças metodológicas, ao letramento digital, à conectividade e às relações entre práticas digitais e numeramento. A segunda direciona o olhar para as políticas públicas e para desigualdades geracionais, raciais e de gênero, além dos desafios da Educação de Jovens e Adultos (EJA). Entre os temas abordados está a constatação de que o acesso à internet, isoladamente, não assegura condições iguais de participação no ambiente digital. A publicação também chama atenção para a presença do analfabetismo funcional sobretudo entre pessoas com 40 anos ou mais e para a necessidade de políticas consistentes de EJA diante do envelhecimento da população brasileira. 

Sobre os organizadores — Heloisa Trenche Belusci é formada em Pedagogia e Letras e mestre em Educação pela Unicamp. Coordenadora editorial da Diálogos Editora, atuou até meados de 2026 na Ação Educativa e integrou a equipe técnica do Inaf desde 2019. Roberto Catelli Jr. é mestre em História e doutor em Educação pela USP. Diretor dos cursos de EJA e Educação Profissional do Colégio Santa Cruz, é responsável pelo Inaf na Ação Educativa e atua como consultor em avaliação de políticas públicas para a EJA.

Inaf 25 anos: alfabetismo no Brasil em tempos digitais tem 160 páginas e custa R$ 85.


A internet não precisa ser assim, de 
Fernanda Campagnucci e Marcelo Soares

Em A internet não precisa ser assim, Fernanda Campagnucci e Marcelo Soares retornam à chegada da internet ao Brasil, em 1995, para acompanhar as mudanças que transformaram uma rede associada inicialmente a inúmeras possibilidades de comunicação e conhecimento em um ambiente cada vez mais definido pela coleta de dados, disputa pela atenção e concentração de poder nas grandes empresas de tecnologia.

O livro identifica diferentes momentos dessa transformação. A entrada da publicidade nos anos 2000 modificou a lógica econômica da rede e atribuiu valor aos cliques e à atenção dos usuários. Depois vieram as redes sociais, alterando a circulação da informação e as formas de interação. Com os smartphones e aplicativos de mensagens, a conexão passou a acompanhar praticamente todos os momentos da vida. Em outra mudança, algoritmos cada vez mais sofisticados passaram a selecionar conteúdos e calcular estratégias para prolongar a permanência das pessoas diante das telas. 

Campagnucci e Soares examinam a concentração de poder das chamadas big techs e os efeitos desse processo sobre a imprensa e a circulação das informações. Desinformação, vigilância, golpes e extremismo político aparecem entre os problemas de uma estrutura na qual interesses comerciais, entretenimento, sociabilidade e política passam a compartilhar os mesmos mecanismos de tráfego e geração de receita. A crítica, porém, não significa uma defesa do abandono da internet. Os autores partem justamente do reconhecimento de suas possibilidades para argumentar que o modelo atual não é inevitável. O livro discute caminhos para uma internet mais justa e elementos que deveriam ser considerados em sua regulação, buscando devolver às pessoas parte do poder sobre os rumos da rede. 

Sobre os autores — Fernanda Campagnucci atua há 15 anos com tecnologia de interesse público. É diretora executiva do InternetLab, integra a diretoria colegiada da Ação Educativa e já dirigiu a Open Knowledge Brasil. Jornalista, é mestre em Educação e doutora em Administração Pública. Marcelo Soares é um dos pioneiros do jornalismo de dados no Brasil e dirige o estúdio Lagom Data. Mestre em divulgação científica pela Unicamp, foi o primeiro editor de audiência e dados da Folha de S.Paulo e trabalhou para publicações brasileiras e internacionais. 

A internet não precisa ser assim integra a coleção Diálogos Urgentes, tem 160 páginas e custa R$ 65. 


U
rgente é gente, estamos vivendo se estamos sempre correndo?, de Michelle Prazeres

Em Urgente é gente: estamos vivendo se estamos sempre correndo?, a jornalista, professora e pesquisadora Michelle Prazeres  investiga como a pressa, a exaustão e a obrigação de produzir continuamente passaram a integrar o cotidiano. A aceleração é tratada não enquanto dificuldade individual de organização da agenda, mas em um fenômeno social, cultural, econômico e político. A autora relaciona a produção do cansaço a uma lógica que transforma pessoas em máquinas de desempenho, produtividade e consumo e ressalta que a chamada pobreza de tempo não atinge todos da mesma maneira: classe, raça e gênero interferem diretamente na forma que cada pessoa experimenta o tempo. 

Em vez de necessariamente liberar horas para descanso e convivência, os recursos digitais podem capturar atenção e ampliar a disponibilidade permanente. O livro questiona ainda uma concepção de descanso subordinada à produtividade — parar apenas para voltar a produzir melhor — e reivindica a pausa e o descanso como necessidades humanas e direitos que não devem estar subordinados à produtividade. 

Nesse sentido, desacelerar não equivale simplesmente a fazer tudo mais devagar. Para a autora, significa interromper automatismos, recuperar atenção e consciência e questionar a velocidade transformada em regra. Sem oferecer fórmulas prontas, o livro procura possibilidades para outros ritmos de cuidado, comunicação e convivência, tratando a aceleração como uma questão coletiva. 

Sobre a autora — Michelle Prazeres é jornalista, professora e pesquisadora, fundadora do Instituto Desacelera e colunista do UOL Viva Bem. Leciona no Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Unip e na graduação em Jornalismo da Faculdade Cásper Líbero. Mestre em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP e doutora em Educação pela USP, realizou pós-doutorado com pesquisa sobre as relações entre comunicação, tecnologias e aceleração social do tempo. É também idealizadora do Desacelera SP, da Escola do Tempo e do Dia sem Pressa. Urgente é gente_informacoes

Urgente é gente; estamos vivendo se estamos sempre correndo?,integra a coleção Diálogos Urgentes, possui 160 páginas e chega ao público por R$ 65. 


Ao abordar alfabetismo, internet e aceleração da vida, as três publicações partem de questões distintas, mas convergem ao mostrar que seus efeitos não podem ser compreendidos apenas no plano individual. O acesso às tecnologias digitais, por si só, não supera desigualdades; o modelo atual da internet está relacionado a escolhas econômicas e políticas; e a sensação permanente de falta de tempo não se resume à maneira como cada pessoa organiza a própria rotina. Em comum, os livros chamam atenção para as condições sociais que moldam essas experiências e para a necessidade de pensar respostas coletivas. 

Por caminhos distintos, os três livros conduzem a uma questão comum: diante das transformações sociais e tecnológicas, como tornar a educação, o uso da tecnologia e a relação com o tempo mais próximos das necessidades humanas? É com esse conjunto de abordagens que a Diálogos Editora inicia sua trajetória no mercado editorial brasileiro. A nova casa nasce da experiência de mais de três décadas da Ação Educativa na produção e circulação de conhecimentos ligados à educação, à cultura, à democracia e aos direitos humanos. Seu catálogo se dedica a questões emergentes, urgentes e insurgentes do nosso tempo, perspectiva já presente nos três títulos de estreia, que abordam educação, tecnologia, raça, classe, trabalho e democracia. A proposta editorial busca garantir o acesso ao conhecimento e promover diversidade no debate público, fazendo das suas publicações espaços de escuta, troca e reflexão sobre questões que mobilizam a sociedade e incidem diretamente sobre a vida cotidiana.




Taciana Oliveira – Natural de Recife (PE), é bacharel em Comunicação Social (Rádio e TV) e pós-graduada em Cinema e Linguagem Audiovisual. Roteirista, diretora e produtora cinematográfica, é criadora das revistas digitais Laudelinas e Mirada Janela Cultural, além de coordenar o Selo Editorial Mirada. Dirigiu o documentário Clarice Lispector – A Descoberta do Mundo e integra a direção do longa-metragem de ficção O Rio de Clarice, no qual assina o segmento Amor. Publicou Coisa Perdida (Mirada, 2023), livro de poemas.