Primeiro romance de Lindjane Pereira acompanha a trajetória de Inês entre lembranças da infância, violência, relações afetivas e personagens femininas que ajudam a revelar diferentes faces da cidade
Primeiro romance de Lindjane Pereira acompanha a trajetória de Inês entre lembranças da infância, violência, relações afetivas e personagens femininas que ajudam a revelar diferentes faces da cidade
Em Parque das Flores Mortas, a escritora paraibana Lindjane Pereira faz de João Pessoa parte da própria construção da narrativa. Ruas, paisagens e espaços da capital paraibana guardam as marcas das experiências de Inês, personagem acompanhada em diferentes momentos da vida. Memória, experiência feminina e cidade se encontram em um romance de estrutura não linear e linguagem marcada por elementos sensoriais.
A história retorna à década de 1990 para acompanhar a infância de Inês nas ruas de João Pessoa. Em meio à precariedade e à violência, a menina estabelece vínculos com outras crianças que vivem em condições semelhantes. Entre elas está Preta, líder da Tropa, grupo formado por meninos e meninas em situação de rua e dependentes de cola de sapateiro. É nesse ambiente que aparecem também personagens como Nina, compondo uma infância marcada pela sobrevivência e pela exclusão. Essas experiências não permanecem confinadas ao passado. Ao longo do romance, lembranças da infância, relações amorosas, perdas e outros acontecimentos da trajetória de Inês reaparecem no presente e ajudam a revelar a mulher em que ela se transformou. A narrativa alterna tempos e alinha personagens ligados a diferentes espaços da cidade, acompanhando o próprio funcionamento da memória.
Cheiros, cores, flores, música e chuva ajudam a compor uma João Pessoa que não se limita à descrição geográfica. A cidade “nasce” filtrada pelas lembranças de Inês e pelas experiências que cada lugar preserva. Esse movimento é destacado na estrutura fragmentada do romance. Lindjane conduz passado e presente conforme as recordações emergem, permitindo que diferentes momentos e relações adquiram novos significados ao serem revisitados.
Além de Inês, surgem mulheres como Preta, líder da Tropa; Lourdinha, dona do cabaré da Rua da Areia; e Nevinha, mãe da personagem, figuras que ocupam lugares distintos e carregam experiências determinadas ´pela a força, a violência, a proteção e o abandono.
“São mulheres que, de maneiras muito diferentes, tentam encontrar seu lugar no mundo, e é justamente esse entrelaçamento de suas vidas que sustenta boa parte do romance”, afirma Lindjane.
Estreia de Lindjane Pereira no romance
Doutora em Letras pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB), Lindjane Pereira também é graduada em Letras e Jornalismo pela instituição. Já trabalhou como repórter e assessora de imprensa e atualmente atua como professora de Língua Portuguesa e revisora de textos. Em 2025, publicou Entre muros e sussurros, seu primeiro livro. A autora também esteve entre os 20 vencedores do concurso de contos do Museu do Futebol, que recebeu mais de 700 concorrentes, e conquistou o terceiro lugar no Concurso Microconto de Ouro, realizado com mais de 6 mil participantes. Parque das Flores Mortas é sua estreia no romance.
Dois trechos do romance
“Sentada sob as árvores do parque da Lagoa, encaro a menina que fui. Ela rodopia ao meu redor. Entre feliz e alucinada, me lança sorrisos melancólicos e seus cabelos, chamas flutuantes, brilham enquanto ela corre — rápido, muito rápido — para longe de mim. Ela parece frágil; tem a alma marcada pelos tombos, mas é forte, muito forte, agora sei.”
— Trecho de Parque das Flores Mortas
Ainda assim, adorava meus sapatos. Adorava a mulher que me tornei ao calçá-los; o som dos seus saltos finos, na altura de 10 centímetros, tocando no chão do salão vermelho como o meu scarpin. Cor da paixão que ainda sinto; cor da minha quase morte.
Expostos na sapateira de madeira antiga, meus sapatos vermelhos são uma chama que resiste. Perfeitos, sem nenhum arranhão, marca ou sujeira, como se nunca tivessem me levado por caminhos nebulosos.”
— Trecho de Parque das Flores Mortas
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