Pesquisa investiga percepção do ritmo por pessoas surdocegas

 

Foto: Fábio Barella

Estudo liderado por Keyla Ferrari Lopes utiliza movimento, vibração e comunicação tátil para investigar experiências de pessoas com surdocegueira na dança contemporânea

Como perceber o ritmo de uma música quando visão e audição não estão disponíveis? E de que maneira o corpo pode estabelecer outras formas de comunicação através do movimento, do toque e da vibração? Essas questões são destacadas  em  “Dança e ritmo com surdocegos: Uma pesquisa sobre linguagens corporais, vibração e comunicação sensorial”, conduzida pela pesquisadora, docente, pedagoga e bailarina Keyla Ferrari Lopes.

O estudo investiga como adultos com surdocegueira constroem interações e percebem pulsação, cadência e fluxo rítmico no contexto da dança contemporânea inclusiva. Para isso, observa possibilidades de comunicação que passam pelo corpo, pelo contato com outras pessoas, pelo espaço e por estímulos vibratórios. A pesquisa dá continuidade a uma trajetória de mais de 30 anos de Keyla na área da dança inclusiva. Com mestrado, doutorado, pós-doutorado e publicações dedicadas às práticas corporais adaptadas e à Libras tátil, ela parte agora de experiências desenvolvidas com seus alunos para sistematizar procedimentos que possam contribuir com outros profissionais.

“O objetivo é dar mais subsídios para que outros profissionais possam compreender o universo sensorial dessas pessoas e aplicar técnicas inclusivas em suas próprias práticas pedagógicas e artísticas”, explica a pesquisadora.

Iniciado recentemente, o trabalho é desenvolvido em parceria com o Centro Cultural de Inclusão e Integração Social (CIS-Guanabara), vinculado à Pró-reitoria de Extensão, Esporte e Cultura (ProEEC), por meio da Diretoria de Cultura da Unicamp. As oficinas e a elaboração do estudo já estão em andamento.

Com duração prevista de um ano, a pesquisa está organizada em três eixos: ritmo, comunicação tátil e expressão corporal. A metodologia combina procedimentos qualitativos e atividades práticas, com laboratórios e oficinas de dança contemporânea e criativa voltados especificamente a adultos com surdocegueira. Durante os encontros, são utilizadas técnicas de comunicação tátil e Libras tátil. A investigação inclui ainda observação dos participantes, registros em vídeo e relatos de experiência, posteriormente submetidos à análise de conteúdo.

Um dos focos é compreender de que maneira a percepção rítmica pode ocorrer por outras vias sensoriais. Toque e estímulos vibratórios, assim como a relação do corpo com o espaço e com outras pessoas, integram as experiências analisadas. A partir desses elementos, o estudo pretende observar questões relacionadas à corporalidade e à acessibilidade estética de pessoas surdocegas nas artes cênicas. A proposta didático-metodológica desenvolvida durante o projeto procura transformar as experiências realizadas nas oficinas em conhecimento sistematizado, capaz de servir de referência para práticas pedagógicas e artísticas inclusivas.

Pesquisa dará origem a livro e vídeoensaio

Os dados reunidos ao longo de um ano serão organizados para identificar unidades de sentido e fundamentar duas produções: um livro didático e um vídeoensaio, ambos com distribuição gratuita. O livro reunirá análises, registros e a sistematização da metodologia desenvolvida durante a pesquisa. A publicação terá versões impressa e digital, esta última com descrição de imagens e recursos de navegação acessível.

Já o vídeoensaio apresentará demonstrações práticas da metodologia, registros dos laboratórios, entrevistas e explicações técnicas sobre os procedimentos adotados, permitindo acompanhar também visualmente parte do processo de investigação.

O projeto foi contemplado pelo Edital Fomento CultSP – PNAB nº 35/2025 – Realização de Pesquisa e Publicação de Estudo Cultural, do Programa de Ação Cultural (ProAC), da Secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativas do Estado de São Paulo, e da Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura (PNAB), do Ministério da Cultura. A proposta ficou em primeiro lugar geral no edital, com nota 9,63, na ampla concorrência.Ao reunir pesquisa, dança e acessibilidade, o trabalho procura não apenas compreender como pessoas surdocegas experimentam ritmo e movimento, mas também registrar e compartilhar metodologias que possam contribuir para sua participação nas práticas artísticas e educativas.