´por Taciana Oliveira |
A memória é um lugar de existência | Mariela Mei
Em Desquerência, a escritora Mariela Mei examina a fragilidade das relações humanas e a maneira pela qual a perda modifica nossa percepção da vida, da finitude e do pertencimento. Publicada pela Editora Patuá em 2025, a coletânea de 14 contos reúne personagens que enfrentam o abandono, a violência, a solidão e a inevitabilidade da morte. Com uma narrativa que entrelaça lirismo, ironia e situações alarmantes, a autora evita idealizar os afetos e revela suas contradições, inclusive quando o amor se confunde com dependência, a memória se transforma em sofrimento e as instituições destinadas ao bem-estar reproduzem a violência. O resultado é uma obra que expõe a vulnerabilidade humana em suas diferentes manifestações, sem oferecer respostas confortáveis às inquietações que apresenta.
Organizado em duas partes, "Dos descaminhos" e "Das finitudes", o livro contém histórias que vão de acontecimentos aparentemente impossíveis a experiências familiares ao leitor. O título remete à ruptura dos vínculos afetivos e à sensação de não pertencimento, questões presentes em diferentes situações.
Em "Sete-copas", conto que abre a coletânea, a história de tia Jonta, uma mulher de 63 anos que conserva comportamentos infantis e depende dos cuidados familiares, é associada à imagem de uma folha que resiste à queda. A narrativa aborda a dependência, os desafios de cuidar de alguém que necessita de atenção familiar e as transformações inevitáveis da existência. Já em "O Homem que Deu à Luz uma Menina", a autora recorre ao extraordinário para apresentar um homem que, após um acidente, descobre ter dado à luz uma criança. O acontecimento suscita questionamentos sobre maternidade, paternidade e responsabilidade afetiva.
A crítica social é destaque em “Claudião Maluco e o Destino”, ambientado em uma clínica psiquiátrica onde pacientes sofrem negligência, abusos e violência institucional. Ao apresentar as relações entre médicos e internos, Mei denuncia práticas autoritárias e questiona a credibilidade concedida às pessoas em situação de vulnerabilidade.
Em Crônica do Interminável Anseio, a memória amorosa assume contornos obsessivos. Um homem observa a rua da casa materna enquanto espera reencontrar uma antiga companheira. As recordações dos gestos e hábitos da mulher revelam sua dificuldade de aceitar o fim da relação.
Na segunda parte, Das finitudes, a autora dedica atenção à mortalidade e ao desaparecimento das referências afetivas. Em Zé Pião, a devastação da floresta é apresentada pela perspectiva de um trabalhador que recorda a vida naquele território, relacionando degradação ambiental e desenraizamento. Em Conta-gotas, uma infiltração no teto de um apartamento desperta reflexões sobre a proximidade da morte e a fragilidade da existência.
O luto aparece em "Enquanto Patrícia Não Volta", no qual o narrador se dirige à irmã desaparecida no mar, dividido entre lembranças, culpa e a impossibilidade de modificar o acontecido. Em "Caronte", que encerra a coletânea, um homem de 89 anos enfrenta a solidão.
Desquerência reúne personagens que vivem à margem das convenções sociais, confrontados com o estranhamento, a rejeição e a dificuldade de encontrar seu lugar no mundo. Sem recorrer a julgamentos ou romantizações. Entre o humor, o absurdo e a melancolia, os contos questionam os limites do pertencimento e o significado da própria existência. Ao explorar essas experiências, a escritora apresenta a memória enquanto possibilidade de permanência, mesmo diante da ausência e da morte. Mariela Mei entrega uma obra sensível e, por vezes, desconcertante, que faz da complexidade das relações humanas um dos aspectos mais expressivos de sua escrita.
Para conhecer melhor o processo criativo e as reflexões que deram origem a Desquerência, convidamos os leitores a conferir a entrevista com a escritora na Mirada – Janela Cultural.
1. O título "Desquerência" sugere uma condição de não pertencimento, de estar fora de um lugar ou de uma realidade que parece não acolher determinadas existências. Como surgiu essa palavra e de que maneira ela representa as experiências vividas pelos personagens dos 14 contos?
Desquerência foi um neologismo criado a partir da palavra “querência”, que significa “lugar de escolha”. No sul do país, é também utilizada para descrever o lugar em que os animais escolhem como seu território. Os personagens de cada um dos contos têm vivências deslocadas do comum, daquilo que usualmente é aceito dentro de uma normalidade socialmente construída, ou então eles mesmos, os personagens, se colocam à margem desta normalidade a partir da forma como experimentam a existência. Desquerência é a antítese do pertencimento, ainda que pertencer esteja condicionado a apenas uma forma dentre inúmeras de existir no mundo, não sendo absoluta.
2. O livro está dividido em duas partes: “dos descaminhos” e “das finitudes”. Embora as histórias apresentem situações e personagens bastante distintos, existe uma ligação entre elas. De que forma você pensou essa divisão e o que aproxima, em sua perspectiva, o sentimento de não pertencimento da consciência da finitude?
Tanto o pertencimento quanto a consciência da finitude são representações da nossa relação com o mundo. Não pertencer é experimentar uma distância entre si e o lugar que se ocupa, das vivências em relação ao outro, da identidade que se cria a partir de onde se vive. Já a finitude mostra que os lugares, os vínculos e até mesmo o reconhecimento de si não são permanentes.
Os descaminhos refletem a experiência de não encontrar o lugar no mundo; as finitudes, de perder este lugar. Entre uma coisa e outra, há a tentativa de encontrar sentidos e identidade e construir formas de permanência.
3. Em “Claudião Maluco e o Destino”, o humor e o absurdo convivem com situações de violência e abuso de poder. Como surgiu essa narrativa e o que você buscou explorar através das relações entre os personagens?
A saúde mental é um assunto que atravessa muito do que escrevo. Eu tive depressão severa por anos, numa época em que se ampliava o esclarecimento sobre saúde mental, mas ainda de forma muito restrita e com diversos preconceitos e práticas hoje comprovadamente ineficazes. Tive pensamentos e impulsos suicidas, e por esta razão fui institucionalizada. Durante o pequeno período em que estive numa clínica de saúde mental, pude conviver com diversas pessoas e seus sofrimentos, e isso me trouxe reflexões que posteriormente se transformaram em personagens e situações na minha literatura.
Muitos anos mais tarde, descobri que a instituição onde estive havia sido fechada por questões envolvendo abuso em relação tanto a tratamentos exagerados, com pacientes excessivamente dopados e negligenciados, quanto a pacientes molestados. “Claudião Maluco e o Destino” surgiu da necessidade de denunciar, a partir da ficção, problemas infelizmente comuns em instituições de internação psiquiátrica, além da própria problemática da institucionalização em si, que isola, exclui e violenta pessoas em sofrimento psíquico.
Algumas das situações descritas realmente ocorreram com pessoas com quem convivi, como a cena da convulsão, a barganha por medicamentos e o próprio personagem que dá nome ao conto, com a diferença que Claudião permaneceu dopado por dias, ao invés de ser submetido à eletroconvulsoterapia, popularmente conhecida como terapia de choque. Apesar de não saber, à época, de casos de abuso sexual, eu não poderia deixar de abordar a questão no conto pelo simples motivo de, infelizmente, ser algo recorrente em locais que violentam de todas as formas pessoas já muito vulneráveis.
Minha intenção, ao utilizar o absurdo e o humor, muitas vezes caricatos, foi conduzir o leitor desavisado a reflexões mais duras que muitas vezes nos recusamos a fazer. Não sei se deu certo. É difícil encarar a violência, seja ela escancarada em toda sua perversidade, seja ela adornada pelos muitos artifícios da ficção.
4. Em “O homem que deu à luz uma menina”, você parte de uma situação aparentemente impossível: um homem que descobre ter dado à luz uma criança. O acontecimento é narrado com naturalidade, apesar do espanto dos personagens. Qual é a importância do insólito na sua escrita e por que recorrer a situações extraordinárias para explorar questões tão íntimas quanto identidade, corpo e responsabilidade?
O realismo mágico sempre me fascinou e também me formou como leitora e, posteriormente, como escritora. A forma como esse gênero narrativo permite que contemos histórias e abordemos situações reais a partir do estranhamento, na minha opinião, dá força para que possamos explicar o que é real, mas muitas vezes parece absurdo, contraditório. Como brasileiros, como latino-americanos, somos uma mistura de grandes contrastes sociais e desigualdades, e também de um rico imaginário popular, recheado de mitologias e misticismos. Não à toa o realismo fantástico vem desenhar, tão perfeitamente, essa construção de povo e de suas histórias.
Ao escrever “O homem que deu à luz uma menina” com a intenção de abordar o abandono parental, eu quis me distanciar da narrativa pura e simples dessa questão que nos é tão comum, principalmente como país em que a maioria dos lares tem uma mulher como chefe de família, ou seja, provedoras, cuidadoras, bases para suas casas e os que nelas vivem. Mesmo diante do improvável, o que poderia ser interpretado como algo divino, um sinal ou algo parecido, e apesar ainda de um breve sentimento de “ligação maternal” vivenciado pelo protagonista, a história se desenrola para a inevitabilidade do real. O que deveria parecer tão absurdo – um pai abandonar sua filha, talvez mais absurdo ainda do que um homem gerar em seu próprio ventre uma criança –, é a simples realidade.
5. No conto “Zé Pião”, a devastação da paisagem representa a perda de um mundo de lembranças, relações e referências pessoais. Em outras histórias, a memória parece ser aquilo que ainda permite alguma forma de permanência diante da morte ou da ausência. Para você, a memória pode se tornar uma forma de pertencimento, mesmo quando os lugares, as pessoas e as experiências que lhe deram origem já não existem?
Vejo a memória como um lugar – e não uma forma – de pertencimento. Ainda que as configurações de espaços e relações já não sejam as mesmas, a existência se perpetua através da memória. É possível continuar por meio dela.
E escrever a partir dessa construção que criamos sobre o que já não está ali, já que a memória é composta do que já esteve e também do que imprimimos de particular de nossas vivências sobre aquilo que já esteve, é preencher lacunas da ausência e permitir que algo continue existindo, e nós também, apesar (ou por causa) dessa ausência.
A memória é um lugar de existência.
6. Em Desquerência, você reúne 14 contos com personagens, situações e atmosferas bastante diferentes, alternando humor, estranhamento e melancolia. Como foi o processo de escrita dessas histórias? Elas nasceram de experiências, observações do cotidiano ou de situações inteiramente imaginadas?
Eu acredito que o escritor não cria histórias do absoluto nada. As histórias que criamos são invenções a partir daquilo que vivenciamos, seja pela experiência própria, seja pela observação da experiência do outro. Na verdade, nós recriamos as histórias que já existem.
Assim, minha literatura se constrói a partir da observação e da minha própria vivência. Claro que, para fazer ficção, é preciso inventar. Mas esse artifício, o da invenção, é um meio e não o princípio da minha literatura. Ele serve como uma liga para o que eu quero dizer. O realismo mágico é um exemplo disso. Um fio condutor totalmente absurdo para falar de coisas que são extremamente reais, observadas ao longo de minha vivência.
7. Ao concluir a leitura de "Desquerência", que sentimentos ou reflexões você gostaria que permanecessem com os leitores? Há alguma questão que você considera especialmente importante despertar por meio dessas histórias?
Desquerência surgiu numa época em que eu estava voltando à literatura após onze anos de hiato, em 2025. Na verdade, poucos destes contos foram inteiramente escritos nesse momento de retorno; a maioria dos contos já existia, eles foram retrabalhados nesse retorno como um exercício de retomada.
Quando deixei a literatura em 2014, eu estava num momento de desquerência mesmo, não me sentia pertencente, algo não encaixava. Então eu me distanciei. O que eu não sabia, e fui entender quase uma década mais tarde, é que a literatura é, sim, o meu lugar de pertencimento, a minha base, meu lugar de existir. Foi interessante retornar falando de deslocamento e também de chão, raiz, lugar. Não foi proposital, mas foi potente. Talvez a mensagem, ou a reflexão que eu queira deixar com essas histórias, seja a de que o lugar é um conceito que se altera a partir da referência. Um mesmo espaço de pertencimento pode adquirir diferentes significados dependendo de quem o habita e das experiências que nele se acumulam. Pertencer é se reconhecer e ser reconhecido (é aí que entra a memória).
É como a refração da luz na água, que se transforma conforme a referência a partir da qual olhamos. O lugar permanece, mas sua imagem, seu sentido e a maneira como nos reconhecemos nele se alteram conforme o experimentamos.
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Mariela Mei nasceu no interior de São Paulo. Escritora e poeta, participou de diversas ações de divulgação literária, e teve textos publicados em revistas e jornais literários e antologias e plaquetes no Brasil, em Portugal e na Alemanha, além de ter sido colunista de sites de cultura. É autora dos livros de poesia “Bolas de Gude” (Multifoco, 2011) e “Fluxo-verso” (Oitava Rima, 2014), e do livro de contos “desquerência” (Patuá, 2025).
Taciana Oliveira – natural de Recife (PE), é bacharel em Comunicação Social (Rádio e TV) e pós-graduada em Cinema e Linguagem Audiovisual. Roteirista, diretora e produtora cinematográfica, é criadora das revistas digitais Laudelinas e Mirada Janela Cultural, além de coordenar o Selo Editorial Mirada. Dirigiu o documentário Clarice Lispector – A Descoberta do Mundo e integra a direção do longa-metragem de ficção O Rio de Clarice, no qual assina o segmento Amor. Publicou Coisa Perdida (Mirada, 2023), livro de poemas.


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