Bocas Mestiças reúne 12 anos de escrita entre corpo, ancestralidade e desejo



Premiado pelo Tato Literário, livro de Carolina Santos reúne contos escritos ao longo de 12 anos e aproxima corpo, desejo, ancestralidade e questões sociais do Brasil

Vencedor do 2º Prêmio Tato Literário, na categoria Contos, Bocas Mestiças, da escritora e socióloga goiana Carolina Santos, chega à 4ª Fliparacatu reunindo narrativas escritas ao longo de 12 anos. Publicado pela editora orlando, o livro será lançado no dia 30 de agosto, às 10h, em sessão de autógrafos no Centro Histórico de Paracatu, em Minas Gerais.

Entre realismo, lirismo e elementos fantásticos, Carolina aproxima questões íntimas de conflitos históricos e sociais. Raça, gênero, classe, ancestralidade, erotismo, espiritualidade e território aparecem em histórias nas quais mulheres, crianças e corpos dissidentes reivindicam seus desejos e suas formas de existência. O Cerrado, o rio Araguaia e Brasília também integram esse universo, criando relações entre paisagem, memória e as marcas da formação social brasileira.

A distância de 12 anos entre o primeiro conto, “Colar Essencial”, e o último, “Sem carne e em chamas”, registra ainda mudanças na própria escrita da autora. “A diferença entre eles é de 12 anos, 3 eleições presidenciais e 3 Copas do Mundo”, observa Carolina. Nesse intervalo, o que começa com a busca de uma jovem por uma revolução erótica e íntima chega a uma narrativa em que transformação pessoal e política se tornam inseparáveis.

Formada em Ciências Sociais pela UFG e mestre em Literatura Pós-Colonial e Estudos de Gênero pelas universidades de Bolonha e Granada, Carolina dialoga com referências que incluem Jorge Amado, Clarice Lispector, Guimarães Rosa, Mia Couto, Conceição Evaristo, Gloria Anzaldúa e María Lugones.

Em entrevista à Mirada Janela Cultural, Carolina Santos fala sobre os 12 anos de elaboração de Bocas Mestiças, a presença do Cerrado em sua literatura, a relação entre corpo e território e o lugar do desejo e do erotismo feminino em seus contos. Confira, a seguir, a conversa com a autora.

1. Bocas Mestiças reúne contos escritos ao longo de 12 anos. De que maneira as mudanças pessoais, sociais e políticas ocorridas nesse período transformaram sua escrita e a forma de olhar para as personagens?


Acho que o intervalo de doze anos entre o primeiro e o último conto é uma das coisas mais interessantes do livro. Foram doze anos de muitas transformações no país, mas também de transformações pessoais. Eu comecei a escrever alguns desses contos a partir de questões muito íntimas, ligadas ao corpo, ao desejo, à solidão e à autonomia. Ao longo do tempo, fui percebendo que essas experiências individuais estavam profundamente conectadas às estruturas sociais e políticas que nos atravessam.


Minha maneira de olhar para as personagens também mudou. Fui ficando cada vez mais interessada nas contradições que existem dentro de cada uma delas e nas forças que atravessam seus corpos: família, gênero, raça, classe, território, espiritualidade, desejo e memória.


Acho que o livro registra, de alguma maneira, essa minha própria travessia. Da percepção de que o corpo é um território íntimo para a compreensão de que esse território também é político.



2. Você define o livro como uma obra sobre “corpos em disputa”. De que maneira questões de raça, gênero, classe, ancestralidade e território se encontram na construção desses corpos e de suas histórias?


Quando digo que Bocas Mestiças é um livro sobre “corpos em disputa”, penso no corpo como um território onde diferentes forças se encontram. Ele nunca é apenas individual: carrega uma história, uma origem, uma classe, uma raça, um gênero, uma memória e uma relação com o território onde vive.


Em “Sem Carne e em Chamas”, por exemplo, imaginei uma mulher branca, de origem política conservadora, que vê algumas de suas crenças abaladas pela violência política do seu tempo. Trabalhei também a sensação de ser traída não apenas por uma relação amorosa, mas pelo próprio caminhar político do país. Tentar compreender a decepção de uma mulher que parte de um lugar político diferente do meu foi um exercício muito rico para entrar em contato com minhas próprias contradições.


A política também não é homogênea, embora muitas vezes tentemos dividi-la em opostos. Ela também é mestiça: resiste às nossas tentativas de separar, classificar e organizar tudo em categorias rígidas.



3. O erotismo feminino aparece em uma dimensão importante da obra e também como possibilidade de autonomia. O que lhe interessava investigar ao aproximar desejo, prazer e liberdade das questões políticas presentes nos contos?

Eu me interessava muito pela possibilidade de uma mulher recuperar para si o direito de desejar. Parece uma questão íntima, mas não é. Historicamente, o corpo e o desejo das mulheres foram regulados pela família, pela religião, pelo casamento, pela moral e pelas expectativas sociais.


Por isso, quando escrevo sobre erotismo feminino, não estou falando apenas de sexo. Estou falando de autonomia. De poder escolher, dizer não, sentir prazer, experimentar o próprio corpo e não precisar transformar o desejo em culpa ou justificativa.


O prazer pode ser uma forma de liberdade. E, quando uma mulher reivindica o direito de sentir prazer e de decidir sobre o próprio corpo, isso também é uma questão política.


Talvez por isso o erotismo apareça no livro não como algo separado das outras dimensões da vida, mas como uma força que atravessa as relações de poder, a ancestralidade, a violência e a própria possibilidade de transformação.


4. A mestiçagem está no próprio título e ganha diferentes sentidos ao longo do livro. Como você trabalha esse conceito sem apagar as violências históricas, raciais e coloniais que também fazem parte da formação brasileira?

A mestiçagem brasileira também é feita de escravização, violência sexual, deslocamentos, apagamentos e imposições culturais. Mas ela também é feita de resistência, sobrevivência, criação e reinvenção.


É justamente essa contradição que me interessa.


Por isso, não penso a mestiçagem como uma síntese que resolve as diferenças, mas como um lugar de conflito, de passagem e de transformação. Um corpo mestiço pode carregar heranças diferentes, às vezes contraditórias, sem precisar escolher uma única origem ou identidade.


E a própria ideia da boca, no título, tem a ver com isso. A boca é lugar de mistura: é por onde a gente come, beija, fala, canta, grita, reza, conta histórias. É um lugar de encontro, mas também de conflito. A mestiçagem do livro está muito mais nessa experiência viva e contraditória do que em uma ideia pacificada de mistura.


5. Sua formação em Ciências Sociais e sua atuação na defesa dos direitos das mulheres convivem com uma escrita que recorre ao lirismo e, em alguns momentos, ao fantástico. De que forma você equilibra a dimensão política dos temas com a liberdade da criação literária, evitando que a ficção se torne apenas um veículo para determinadas ideias?

Quando escrevo ficção, é como se eu estivesse em uma manifestação de rua. Ela pulsa dentro de mim, uma energia ritual e transformadora. Na vida, a política atravessa tudo: família, trabalho, relações. A diferença é que, na literatura, uma autora tem mais liberdade para aprofundar na política de forma imaginativa. Eu participo dessa manifestação de rua quase como um drone, com poder de explorar horizontes e detalhes ao mesmo tempo. A minha literatura não simplifica a política; ela a complexifica. O lirismo e o fantástico são os meus mergulhos de drone, gostoso demais.



Lançamento na Fliparacatu: Bocas Mestiças, de Carolina Santos

Data: 30 de agosto, sexta-feira

Onde:  Centro Histórico de Paracatu

Horário: 10h

Adquira no site da editora orlando: clica aqui