Fotos: Carlos Monteiro
Paladares cariocas
O Rio
também se fotografa com a boca. Há sabores que têm endereço, hora marcada e uma
estranha capacidade de nos devolver ao passado. Basta uma mordida. Um gole. E
pronto. A memória abre suas janelas, o mar reaparece ao fundo e a Cidade
Maravilhosa se senta à mesa.
Na praia,
o ritual é simples. Biscoito Globo e Mate Leão. O biscoito estala entre os
dentes, leve, quase nada. O mate desce gelado, doce, refrescante. Uma
combinação improvável que virou patrimônio afetivo das areias cariocas. O
vendedor passa equilibrando o isopor, a lata tilinta, o sol bronzeia a pele.
Não há sofisticação. Há sensualidade. Há Rio. E há sabores que ficaram na
saudade.
Quem
provou os sorvetes do Dragão Chinês sabe que certas lembranças não derretem. A
memória guarda também os gelados da Maria Tereza Vaz, com seus sabores que
pareciam ter vida própria. O chocolate africano, intenso, quase misterioso. O
Moraes, daqueles que a gente não esquece. Eram mais que sorvetes. Eram pequenas
cerimônias de felicidade, fotografias coloridas de uma cidade que sabia
transformar o cotidiano em festa. O Rio tem dessas coisas. O sabor passa pela
língua, mas permanece em algum lugar mais fundo.
Nos
balcões, outras paixões resistem ao tempo. O bolinho de bacalhau do Jobi.
Crosta dourada, interior macio, cheiro que chega antes do prato. No Bracarense,
o bolinho também tem sua legião de admiradores. O chope gelado sua no copo. A
conversa cresce. O guardanapo se amassa. O botequim vira extensão da calçada, e
a calçada, sala de estar de uma cidade inteira. Ali, ninguém come apenas para
matar a fome. Come-se para encontrar os amigos, rever os ausentes, discutir
futebol, contar vantagem, rir alto. O petisco é quase um pretexto. O afeto, o
prato principal.
Mas o Rio
tem outra gastronomia. Menos comportada. Mais noturna. É a cozinha dos podrões.
Depois da madrugada, quando as luzes das boates se apagam e os últimos acordes
ainda ecoam na cabeça, aparece o sanduíche generoso, o cachorro-quente
carregado de molhos, milho, batata palha e tudo aquilo que a fome — e a
liberdade — permitirem. O balcão improvisado ilumina a calçada. A chapa chia. O
cheiro se espalha pela rua. É quase manhã. Há quem volte da noitada, quem saia
do trabalho, quem simplesmente não queira encerrar a noite sem aquele último
pecado gastronômico. O podrão não pergunta de onde você vem. Apenas acolhe.
E talvez
seja essa a grande receita carioca: misturar tudo, sem cerimônia, sem pedir
licença. A elegância da praia e a desordem da madrugada. O sorvete sofisticado
e o sanduíche de esquina. O bolinho de bacalhau servido no balcão e o biscoito
com mate consumido de pé, diante do mar. Cada sabor tem sua luz. Cada aroma,
sua paisagem. Cada mordida, uma história. Porque a sensualidade do Rio não está
apenas nas curvas das montanhas, no desenho das ondas ou na pele dourada pelo
sol. Está também no prazer de comer. No sal que fica nos lábios depois do
mergulho. No gelado do mate. Na crocância do biscoito. No tempero que desperta
o paladar. Na última garfada compartilhada, quando ninguém tem pressa de ir
embora. O Rio seduz pelos olhos. Conquista pelo ouvido. Mas também sabe
apaixonar pela boca.
E quem
experimenta seus sabores descobre que a Cidade Maravilhosa tem tempero próprio.
Uma mistura de mar, memória, botequim, saudade e desejo. Paladares cariocas. Sabores
que não se explicam. Sentem-se. E nunca mais se esquecem.
Carlos Monteiro é fotógrafo, cronista e publicitário desde 1975, tendo trabalhado em alguns dos principais veículos nacionais. Atualmente escreve ‘Fotocrônicas’, misto de ensaio fotográfico e crônicas do cotidiano e vem realizando resenhas fotográficas do efêmero das cidades. Atua como freelancer para diversos veículos nacionais. Tem três fotolivros retratando a Cidade.



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