por Manoel Tavares Rodrigues-Leal |

Manoel T. R.-Leal – 2011 – frame de um vídeo por LBTavares
Quatro poemas inéditos de quatro cadernos manuscritos

Tu que existes exposto ao que os dias te trazem, o que é ser Alguém? O que é não ser Ninguém? O humano é o sonho de uma sombra. [ἐπάμεροι· τί δέ τις; τί δ' οὔ τις; σκιᾶς ὄναρ ἄνθρωπος.]
Mas quando chega o esplendor dispensado por um deus, há uma luz brilhante entre os homens e a vida torna-se doce. [ἀλλ' ὅταν αἴγλα διόσδοτος ἔλθῃ, λαμπρὸν φέγγος ἔπεστιν ἀνδρῶν καὶ μείλιχος αἰών.]
Píndaro, da Ode Pítica VIII (tradução de António de Castro Caeiro)
I
Domínio de memória.
Ou de mágoa diurna.
Somente enunciar-te a arte da música.
Quando cessam os ventos vários.
E se inicia a memória dos dias.
Lx. 28-3-75 – “(à Ana) – caderno Voz equívoca (as flores eloquentes)
II
I
A minha solidão insone, madrugante,
amanhece, incólume, adolescente.
II
Hoje, não desenho os mosaicos
de rigor vertical de gestos,
nem a doce dança de estátua equestre,
terrestre.
III
Apenas ouço esculpida escrita,
voz nascitura, conceptura e diurna,
no corpo de marfim ausente.
Lx. 26-6-66 – 19-10-75 – caderno Ensaio de Ausência
III
E quando me povoam bastos brilhos nocturnos,
que reino se ergue neste pobre quarto e que quietude jaz.
Poesia amadurece, amanhece em símbolos de beleza,
erecta em quentes estátuas gregas. Ofício de poeta me espera sem paz,
e que nitidez de alvas pétalas de praias, que mansa mão e ilesa.
Mas perco-me em pecados de amor, corpos decepados, instrumentos soturnos.
Lx. 8-8-76 – caderno No Reino de Eros. Há uma outra versão deste poema em Mirada (poema II). Agora: “E quando me povoam bastos brilhos nocturnos”, em vez de “E quando me povoam brilhos nocturnos”.
IV
Que quem me visita? : a boca queimada
sedutoramente baça e irreal. A quem servi, por quem me fendi
em dispersas ondas. Não sei em que mera história de amor me distraí.
E da visita, que gume, que vigília: minha vida jaz duplamente abandonada.
Belas – 19-9-76 – caderno Fragmentos de um livro dividido (Anónimo do séc. XX)

Manuscrito do poema IV. O poema depois de revisto guarda uma curiosa pontuação no primeiro verso (“? :”).
*
Vídeo da leitura do poema I (“Domínio de memória”) por Manoel T. R.-Leal.
Poemas M. T. R.-Leal recentemente publicados na Revista Mirada
Poemas coligidos por Luís de Barreiros Tavares
Manoel Tavares Rodrigues-Leal (Lisboa, 1941–2016). Foi aluno das Faculdades de Direito de Lisboa e de Coimbra até ao 5.º ano, não concluindo. Conviveu em jovem com Herberto Helder no café Monte Carlo frequentando “as festas meio clandestinas, as parties de Lisboa dos anos 60 e 70”. Conheceu Sophia (era primo do marido da poeta, Francisco Sousa Tavares), Gastão Cruz, Maria Velho da Costa, José Sebag, Pedro Tamen, José Bação Leal, entre outros. Trabalhou na Biblioteca Nacional como “Auxiliar de Armazém de Biblioteconomia”. “A minha chefe deixava-me sair mais cedo para acabar o meu primeiro livro”, A Duração da Eternidade (2007). Cinco livros de edição de autor (de 2007 a 2011). Poemas na “Nova Águia”, “Caliban”, “Triplov”, “Mirada (BR)”, “Pessoa Plural (Brown University, University of Warwick, Universidad de los Andes)”, “A Ideia”, “Ameopoema (BR)”, “Occaso: voci poetiche dal Portogallo” (IT), “Athena”, etc. Os últimos dias de vida foram trágicos. Caído no quarto, morreu absolutamente só no Natal e passagem de Ano 2015–2016.
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