Furacão Tornado: Letícia Miranda transforma a memória das avós em poesia e experimentação visual

         por *Taciana Oliveira


Publicado pela editora orlando, livro combina poemas, fotografias e colagens para investigar histórias familiares definidas pela ausência e pelo apagamento da memória de mulheres negras.

Como reconstruir a história de alguém que nunca conhecemos? É dessa pergunta que nasce Furacão Tornado (orlando, 2026), novo livro da poeta, pesquisadora e artista visual Letícia Miranda. Dedicada às avós Maria e Rosalina, falecidas antes que a autora pudesse conviver com elas, a publicação reúne poesia, fotografia e intervenções visuais para recuperar fragmentos de uma memória familiar que ela conhece apenas por relatos, imagens e vestígios do passado.

Resultado de sua pesquisa de mestrado em Artes Visuais na Universidade de Brasília (UnB), realizada sob orientação do artista e professor Geraldo Orthof, a obra investiga as possibilidades de reconstruir histórias a partir daquilo que permaneceu desconhecido. Ao contrário de apresentar uma narrativa biográfica convencional, Letícia utiliza procedimentos de coleta, escavação e montagem para resgatar lembranças, relatos familiares e imagens encontradas.

Desde a infância, a escritora procurava descobrir quem eram suas avós, como viviam, do que gostavam e quais características marcavam suas personalidades. Sem a possibilidade de conhecê-las diretamente, passou a reunir as histórias contadas por familiares, especialmente pelos pais. Dessa investigação afetiva nasceu uma escrita que reconhece a imaginação enquanto parte do processo de recuperação da memória.

“Desde a infância tento me aproximar de quem elas foram, uma vez que não tive a chance de conviver com nenhuma das duas. Dessa forma, a invenção é uma forma de inscrever nossa história no mundo. Minhas avós são minha alegria mais difícil”, afirma a autora.

Ao recuperar as histórias de Maria e Rosalina, duas mulheres negras, Letícia aborda a fragilidade dos registros familiares e os processos históricos de silenciamento que dificultam a preservação de determinadas experiências. A ausência de documentos e testemunhos completos deixa de ser apenas uma limitação para se transformar em matéria literária e visual.

Fotografias encontradas e imagens reinventadas

Um dos elementos que definiram a identidade visual de Furacão Tornado surgiu durante a pandemia, quando Letícia adquiriu pela internet uma série de fotografias anônimas, impressas em papel Agfa-Brovira. As imagens registravam uma tromba-d'água sobre o mar, entre ilhas e praias. O fenômeno meteorológico integra o universo simbólico da obra. A partir dessas fotografias, a artista desenvolveu intervenções em negativos, colagens analógicas e composições que conversam com os poemas e os relatos familiares recolhidos durante a pesquisa.

A junção de materiais produz uma narrativa fragmentada, na qual o passado não aparece em uma sequência organizada de acontecimentos, mas  um conjunto de imagens, vozes e lembranças que precisam ser interpretadas. Segundo Letícia, o processo criativo foi definido pela tentativa de enxergar aquilo que não estava imediatamente disponível. A coleta de palavras e imagens tornou-se, assim, parte essencial de sua prática artística. Na orelha do livro, a poeta, colagista e editora da Revista Desvario, Thainá Carvalho, destaca a relação entre imagem, tempo e memória presente na publicação. “Este livro é uma investigação da imagem, é olhar para trás buscando o som que se avizinha amanhã”, escreve.

A quarta capa é assinada pela pesquisadora e poeta Erica Martinelli, que observa a dificuldade de recuperar o passado sem permanecer aprisionada a ele. Para Martinelli, a força das palavras e das imagens permite acompanhar a elaboração de uma história que reúne experiências vividas, imaginadas e sonhadas.

Nascida no Distrito Federal, em 1996, e moradora do Itapoã, Letícia Miranda desenvolve trabalhos que transitam entre literatura, fotografia, colagem e pesquisa acadêmica. Graduada em Letras Português pela Universidade de Brasília, com especialização em Fotografia, é mestra e doutoranda em Artes Visuais pela mesma instituição. Sua estreia literária aconteceu em 2022, com A suspensão de Tomie Ohtake, publicado pela Litteralux. O livro nasceu de estudos sobre a artista plástica nipo-brasileira, iniciados durante uma oficina com o poeta Carlito Azevedo.

Embora tenham abordagens diferentes, as duas publicações compartilham o interesse da autora pela morte, pela memória e pelas possibilidades de permanência de uma existência através da arte. “Ambos os livros perseguem a morte. De um lado, o fascínio por uma artista centenária, do outro, o desejo de ver além do que foi abandonado. Porém, o primeiro livro carrega a ingenuidade de uma estreia. O segundo, está fincado no desejo”, explica.

Nas artes visuais, Letícia participou de exposições no Centro Cultural São Paulo, no Museu Nacional da República e na Casa Niemeyer. Possui trabalhos no acervo do Palácio do Planalto, é cofundadora do Clube de Colagem de Brasília e integra o Coletivo Zarafas e o Grupo Antiquário.

Sua produção passeia por referências literárias, filosóficas e musicais, entre elas Walter Benjamin, Georges Didi-Huberman, Audre Lorde, James Baldwin, Ana Martins Marques, Adélia Prado, Jards Macalé e Milton Nascimento. Em Furacão Tornado, essas influências aparecem associadas à investigação de uma história íntima..

“Escrevo para guardar o que foi ignorado, o que tentaram apagar. Os itens descartados se apresentam como janelas, são pequenos espaços por onde se pode ver, mesmo que de forma embaçada”, afirma Letícia.

A presença de referências literárias e filosóficas, como Walter Benjamin, Georges Didi-Huberman, Audre Lorde, Ana Martins Marques e Noemi Jaffe, acrescenta outras possibilidades de leitura. Essas vozes acompanham a investigação da autora sobre o tempo, a imagem, a morte e os vestígios deixados pelas experiências humanas.

Há, contudo, um aspecto que merece atenção: a quantidade de referências e as constantes mudanças entre registros poéticos, reflexivos e visuais podem tornar a leitura menos imediata para quem espera uma narrativa linear. Essa característica não representa necessariamente uma fragilidade, mas uma escolha estética que exige disponibilidade para acompanhar os desvios e as interrupções do texto.

A força do livro está justamente em não disfarçar suas lacunas. Letícia não transforma Maria e Rosalina em personagens de biografias imaginárias inteiramente resolvidas. Elas permanecem como presenças evocadas, mulheres cujas experiências a autora deseja conhecer, mas sobre as quais dispõe de informações limitadas.

Essa opção ganha importância quando considerada a história de apagamento das experiências de mulheres negras. Ao dedicar sua pesquisa às duas avós, Letícia também chama atenção para a fragilidade dos registros familiares e para as consequências de uma sociedade que nem sempre preservou as histórias de determinadas populações.

Poemas do livro

Com quantos pratos se faz uma casa?


Minha herança

é de uma materialidade comum

vale um prato de ágata

(usado)


Frames da infância ou poema sobre a Bahia


I.


Bois abrem janelas

corro deles

minha blusa é vermelha

andar a cavalo dá uma sensação estranha na barriga

minha avó não comia bolo de chocolate à noite

eu não sabia nada sobre árvores frutíferas


II.


A mansidão dos dias inundava

cada centímetro do meu corpo

o frescor da roça no meu rosto da infância

subia no pé de ciriguela e afogava

os dentes nos frutos ainda verdes

sabor algum superava o gosto da subida

a árvore me recebia na sua copa

assim concretizava o sonho da morada


III.


Meu avô me ensinou que durante o dia

o céu é azul

quando a noite vem chegando

ele fica rosa e depois

cai na escuridão


IV.


Minha avó se chamava Rosalina

por redundância

ou por precaução da vida que sabe do alcance de um nome


V.


Corroída pelos cupins

a casa vai morrendo

sozinha

desterrada

sem gente viva

O telhado caiu, não há mais frutos nas árvores

nenhum céu nos contará dos dias que se foram

desse tempo guardo um verso inaudito

cantado pela minha vó


VI.


O pé de mamão começou a arriar

sem olhar para o tronco

me perguntei

o que significava arriar

até que ouvi um estalo

aí pulei fora

meu irmão ficou

botamos abaixo o pé de mamão da vovó


VII.


Aos cinco anos


maxixe era minha planta preferida

Sem título

Tocar o espaço

e o tempo

com o corpo


*


Encostar no tempo

pelo espaço


*


Esbarrar no espaço

com o corpo

com o corpo

inventar um tempo


Miragem

II.

Tocar a transposição dos rios

com uma linha-pensamento

Dedilhar paisagens

até alcançar as enchentes não testemunhadas

Saltar para perto do presente

inventar dobras, retas, circularidades e desenhos

Coletar para inventar o futuro


Minhas avós presenciaram muitas inundações

IX.


Ser negra

como o carvão

e inscrever

na pedra

os dias que se foram



Entre a memória e a invenção: os vestígios do passado 

Furacão Tornado é uma obra sobre a ausência, mas não se limita ao sentimento de perda. Há curiosidade, desejo de descoberta e uma relação afetiva com os objetos, as imagens e as palavras. Ao reunir fotografias anônimas, examinar seus detalhes e descobrir novas possibilidades de interpretação, a autora transforma a busca por vestígios do passado em um processo de investigação e criação artística. Entretanto, diferentemente de uma pesquisa que pretende chegar a uma verdade definitiva, sua investigação admite a convivência entre memória e invenção.

O resultado é um livro que encontra sua identidade na combinação entre poesia e artes visuais. A linguagem não serve somente para narrar lembranças, ela participa da tentativa de produzir alguma forma de encontro com o passado.

Permanece a percepção de que conhecer a própria história não significa necessariamente recuperar todos os seus acontecimentos. Às vezes, é preciso reconhecer aquilo que se perdeu e encontrar uma maneira de preservar as perguntas que continuam sem resposta.

Com Furacão Tornado, Letícia Miranda apresenta uma obra poética e visualmente experimental sobre a ancestralidade, demonstrando que mesmo as histórias incompletas podem encontrar permanência na literatura.


Letícia Miranda (Distrito Federal, 1996) é professora, poeta, artista visual e pesquisadora. Mestra e doutoranda em Artes Visuais pela UnB, transita entre a literatura e as artes plásticas, com obras presentes em acervos institucionais e exposições em diferentes estados brasileiros. É autora de "A suspensão de Tomie Ohtake" e do mais recente "Furacão Tornado" (2026), além de integrar coletivos artísticos como o Clube de Colagem, Coletivo Zarafas e Grupo Antiquário.


Serviço

Livro: Furacão Tornado
Autora: Letícia Miranda
Editora: orlando
Ano: 2026
Gênero: Poesia e artes visuais



Onde adquirir:
Site da editora orlando



*Taciana Oliveira – natural de Recife (PE), é bacharel em Comunicação Social (Rádio e TV) e pós-graduada em Cinema e Linguagem Audiovisual. Roteirista, diretora e produtora cinematográfica, é criadora das revistas digitais Laudelinas e Mirada Janela Cultural, além de coordenar o Selo Editorial Mirada. Dirigiu o documentário Clarice Lispector – A Descoberta do Mundo e integra a direção do longa-metragem de ficção O Rio de Clarice, no qual assina o segmento Amor. Publicou Coisa Perdida (Mirada, 2023), livro de poemas.