Tons do Rio | Carlos Monteiro





Fotos de Carlos Monteiro

Tons do Rio

O Rio tem cor. Tem som. Tem luz. E tem um jeito muito próprio de misturar tudo isso numa única fotografia. Amanhece. Primeiro, um azul quase tímido, lavado de cinza. Depois, uma faixa de rosa desponta no horizonte, tingindo as nuvens de lilás e pêssego. O amarelo chega devagar, derramando-se sobre os telhados, escorrendo pelos morros, acendendo as fachadas. O Cristo Redentor surge em contraluz. A cidade se revela aos poucos, como uma fotografia que emerge no laboratório da memória. E o Rio começa a falar.

O trem corta a manhã num ranger de ferro. Nas avenidas, motores roncam, buzinas reclamam, ônibus suspiram nos pontos. A cidade desperta apressada. Mas, em Ipanema, o mar insiste em outra cadência. As ondas quebram na areia, espalham espuma branca e retornam ao azul-esverdeado do horizonte. Um movimento antigo. Quase uma oração.

Nos galhos, sabiás e bem-te-vis afinam a manhã. Seus cantos atravessam os jardins, misturam-se ao vento, disputam delicadamente espaço com o rumor urbano. Lá no alto, fragatas abrem as asas sobre a paisagem. São traços escuros no azul, pinceladas vivas sobre a tela carioca.

Tom Jobim sabia dessas coisas. Sabia que a natureza também compõe? No Jardim Botânico, diante da majestosa sumaúma, encontrava motivos para demorar o olhar. Imagino o maestro observando a árvore, a luz filtrada pelas folhas, os verdes multiplicados em infinitas nuances. O verde profundo das sombras. O verde-claro das folhas novas. O dourado que o sol deposita nos galhos. Talvez ali compreendesse, mais uma vez, que a beleza não precisa fazer barulho para ser ouvida. O Rio é assim. Tem uma orquestra de contrastes.

Na feira, o grito do vendedor anuncia frutas e verduras. Vermelhos de tomates, amarelos de mangas, laranjas que parecem guardar um pedaço do sol. O pregão atravessa as barracas, mistura-se às conversas, ao ruído das sacolas, ao tilintar das moedas. Na calçada, alguém pede um café. No botequim, copos se encontram. Uma gargalhada rompe o ar. E, numa janela qualquer, o samba escapa sem pedir licença. As cores também conversam.

Há o azul profundo da Baía de Guanabara. O verde da mata que abraça a cidade. O branco das ondas e das nuvens. O cinza dos edifícios, do asfalto, dos dias chuvosos. Há o amarelo dos guarda-sóis, o vermelho dos ônibus, o colorido das feiras. E há aquela luz, tão carioca, que transforma até uma parede descascada em cenário.

Ao entardecer, a paleta muda. O azul vai ficando mais denso. O horizonte recebe pinceladas de coral, cobre, magenta e violeta. As montanhas escurecem lentamente, enquanto o sol, atrás delas, espalha reflexos dourados sobre o mar. No Arpoador, silhuetas se recortam contra o crepúsculo. Por alguns minutos, a cidade parece suspender o tempo.

É quando o ruído das avenidas encontra a música das ondas. Quando o canto dos pássaros se recolhe e as primeiras luzes acendem nas janelas. Quando o Rio troca o ouro da tarde pelo azul profundo da noite.

Talvez seja essa a sua grande arte: nunca apresentar a mesma paisagem duas vezes. Cada amanhecer tem um tom. Cada entardecer, uma nuance. Cada esquina, uma sonoridade. O trem, o mar, os pássaros, o feirante, o samba, a buzina — tudo participa dessa composição imperfeita e fascinante. Tom escutava a natureza. O fotógrafo persegue a luz. O carioca, mesmo sem perceber, vive dentro dessa obra.

E o Rio continua assim: colorido pelo sol, afinado pelos sons da rua, pintado de azuis, verdes, rosas e dourados. Uma cidade de muitos tons. Uma sinfonia de muitas vozes. Uma fotografia que nunca termina.

 


Carlos Monteiro é fotógrafo, cronista e publicitário desde 1975, tendo trabalhado em alguns dos principais veículos nacionais. Atualmente escreve ‘Fotocrônicas’, misto de ensaio fotográfico e crônicas do cotidiano e vem realizando resenhas fotográficas do efêmero das cidades. Atua como freelancer para diversos veículos nacionais. Tem três fotolivros retratando a Cidade.