Rio de se ver | Carlos Monteiro




Fotos de Carlos Monteiro

Rio de se ver

Há um Rio que todo mundo vê. E há outro que poucos enxergam. Um está nos cartões-postais, nas paisagens repetidas, nos enquadramentos já conhecidos. O outro se esconde nos detalhes. Mora nas pequenas coisas, nos ângulos esquecidos, naquilo que os olhos apressados deixam escapar. É preciso mudar a maneira de olhar. Às vezes, abaixar-se. Outras, levantar a cabeça. Quase sempre, desaprender o que já se viu.

Do Leme ao Pontal, por exemplo, há um universo inteiro aos pés de quem caminha. Conchas espalhadas pela areia, pequenas esculturas que o mar desenha e abandona. Vistas de perto, parecem planetas, espirais, fragmentos de uma arquitetura secreta. Basta mudar o ângulo para descobrir que a praia não é apenas mar e horizonte. É também um delicado museu natural.

Na Floresta da Tijuca, a lente precisa atravessar o verde. Não basta contemplar a imensidão da mata. É preciso enxergar a folha que recebe a primeira gota de orvalho, a raiz que abraça a pedra, o tronco que carrega as rugas de séculos. A floresta não é apenas paisagem. É tempo, resistência e ancestralidade vegetal.

A Pedra da Gávea, vista de longe, parece vigiar a cidade. Mas, observada de outros ângulos, revela suas rugosidades, suas cicatrizes, seus desenhos minerais. É uma fotografia da eternidade. O granito guarda a memória dos ventos, das chuvas e de tudo aquilo que passou sem conseguir movê-lo. O fotógrafo sabe: nem sempre a beleza está no horizonte. Às vezes, está justamente onde ninguém costuma olhar.

No Aterro do Flamengo, a luminosidade faz seu próprio espetáculo. O sol atravessa as árvores, recorta a relva, desenha sombras sobre os caminhos e transforma a Baía de Guanabara numa imensa chapa fotográfica. Pela manhã, a luz é quase transparente. No entardecer, ganha tons de cobre, âmbar e ouro. O mesmo cenário. Outra cidade. Outro olhar. E há um Rio que não se revela apenas na natureza. Nas igrejas, a arte barroca e seus ornamentos guardam uma riqueza que muitas vezes passa despercebida. Os entalhes, os altares, as imagens, os douramentos. Mas é preciso olhar também para além da beleza aparente. Reconhecer as mãos que trabalharam a madeira, a pedra e o ouro. Muitas delas pertenciam a homens e mulheres negros, escravizados ou seus descendentes, cuja inteligência, técnica e sensibilidade ajudaram a construir o patrimônio artístico brasileiro.

A ancestralidade africana está espalhada pela cidade. Está nas igrejas, nas ruas, nos ritmos, nos gestos, na arquitetura e na cultura que atravessaram o Atlântico durante a diáspora. Está nas marcas de uma história de violência, mas também de resistência, reinvenção e permanência. Há uma cidade negra que precisa ser vista com a mesma atenção dedicada às montanhas e ao mar. Uma história que não pode continuar escondida atrás dos cartões-postais.

Talvez seja esse o maior exercício de fotografia: aprender a enxergar o que sempre esteve diante dos nossos olhos. O Rio não precisa de novos cenários. Precisa, muitas vezes, de novos enquadramentos. De um olhar que descubra o extraordinário no ordinário, que perceba a história por trás da paisagem e a humanidade por trás da beleza. O fotógrafo procura o instante. O cronista procura o detalhe. Ambos sabem que uma mudança de perspectiva pode revelar um mundo inteiro. Porque a Cidade Maravilhosa não se esgota no Cristo Redentor, no Pão de Açúcar ou nas praias famosas. Está nas conchas, nas raízes, nas pedras, na luz, nos altares e nas memórias de quem ajudou a construí-la.

É preciso olhar de novo. Olhar de perto. Olhar por baixo, por cima, por dentro. Ver o Rio com outros olhos. Os olhos de quem não se contenta em simplesmente enxergar, mas deseja descobrir. Afinal, o Rio mais bonito talvez seja justamente aquele que ainda não aprendemos a olhar.

 


Carlos Monteiro é fotógrafo, cronista e publicitário desde 1975, tendo trabalhado em alguns dos principais veículos nacionais. Atualmente escreve ‘Fotocrônicas’, misto de ensaio fotográfico e crônicas do cotidiano e vem realizando resenhas fotográficas do efêmero das cidades. Atua como freelancer para diversos veículos nacionais. Tem três fotolivros retratando a Cidade.