Quatro poemas do livro Mofo e suas Simetrias, de Leandro Rodrigues

 por Taciana Oliveira____





A OUTRA VOZ DO MORTO

 

 

  

Nossos mortos têm voz

 

Nossos mortos ainda gritam

e acenam em frente ao prédio da justiça

Nossos mortos ainda querem um país digno

Nossos mortos nos olham com um olhar grave - cíclico

De suas covas clandestinas soletram seus nomes

para não serem jamais

esquecidos

 

Nossos mortos ainda parecem se indignar

fazem longas procissões com cartazes e cantos de liberdade

Atiram poemas ao vento como preces ao deus

Imaginário

 

Nossos mortos se despem de suas mortalhas

e com punhos fechados desfiam suas cicatrizes num novelo

emaranhado que toma conta das ruas da

cidade

 

Nossos mortos esquecidos em arquivos

querem saltar para fora das gavetas,

querem novos processos,

novas letras, novos pareceres

 

Nossos mortos ainda não morreram de fato

aguardam por suas mortes

na antessala do escrivão chefe

no corpo-centro da petição estadual

com honras e apreço do Srº promotor

na parede uma mosca (re)pousa no quadro

do homem decrépito de faixa verde-amarela

 

Nossos mortos acenam, a morte não lhes basta,

nada fica apenas enterrado e esquecido

 

Nossos mortos querem dizer algo.

 

 


 

LORCA

 



O poeta vendado aguarda os disparos

Em pé

 

Silêncio vertical das armas apontadas

Respiração de réstia de sol

 

Suspiro de faca cortando o instante

 

Pássaros de morte infestam o ar

O tiro frontal / seca distância

 

O poeta vendado cai de lado

Um iguana salta de seu peito perfurado.

 

 

 

 

 

TRÊS PASSOS

 

 

 

três passos no escuro

o sangue escorre no tempo

sombras mudas flutuam

faces movidas a óleo

 

a chama geométrica do espelho

pássaros de tangram no abismo

 

cordas de um caleidoscópio indeterminado

 

pulsares - mortos ainda famintos

com bocas domadas - dentes

cravados no vazio

 

desdobram-se tão enfadonhas mortes

degraus de um precipício assimétrico

nenhuma voz alcança

nenhum poço

nenhum pó

 

 

 

 


ALMENDRA

 

 

 

1

 

 

A minha cara

A minha máscara

A memória escura desse chão

O relógio apontado para o nada

O vazio da sombra guardada num móvel depenado

 

 

Nos olhos a atadura espessa

- pontiagudos cacos de um vidro inquebrável.

 

 

2

 

vertendo lágrimas

ao azul sem fim

abrem-se os fossos

da palavra

 

todo o mar que não cicatriza

corais lápides

da memória

 

dentro de um copo

se amplia

               desfoca o encontro

               da margem com o verso

 

 

 

3

 

 

O silêncio

A ausência

O indizível

O que não é país

O que não é corpo

O que não é grito

 

 

A indigência cancerígena

                     do medo

 

Um lamaçal de destroços

Dejetos, sombras

                   botas

                        leitos

 

horizonte crispado de hereditárias sangrias

dobras ensandecidas dos ossos escondidos

               sob o tapete clandestino da sala.

 

 

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Leandro Rodrigues (Osasco, 1976) publicou os livros Aprendizagem Cinza (Patuá, 2016), Faz Sol Mas Eu Grito (Patuá, 2018) e Todas As Quedas São Livres (Penalux, 2020), além de participar de diversas antologias: O Casulo (2016), Hiperconexões 3 (2017), Sarau da Paulista (2019), MedioCridade (2019), 70XCaio (2019), Clausura (2020) entre outras. Em 2020 venceu o 4º Prêmio Guarulhos de Literatura na categoria Poesia com este Do Mofo & Suas Simetrias (então inédito). Teve poemas traduzidos e publicados na Espanha e Estados Unidos. (Antologia de poesia brasileira contemporânea da revista DUSIE nº 21 da UCLA).








Taciana Oliveira é mãe de JP, comunicóloga, cineasta, torcedora do Sport Club do Recife, apaixonada por fotografia, café, cinema, música e literatura. Coleciona memórias e afetos. Acredita no poder do abraço. Canta pra quem quiser ouvir: Ter bondade é ter coragem.