Amigos para sempre, um conto de Dias Campos

 por Dias Campos__






          Se há cenas que a todos encantam são as que retratam animais de estimação de diferentes raças – que, em princípio, jamais poderiam conviver – interagindo em perfeita harmonia. 

Carlos adorava assistir a esses vídeos no Instagram. E quanto mais esdrúxula fosse a combinação, mais maravilhado ficava. – Era coruja brincando com Golden Retriever; patinho dormindo abraçado com filhote de macaco; gato servindo de poleiro para periquitos...


E a tal ponto deixou-se seduzir por essas imagens, que resolveu transformar o seu passatempo em realidade, adquirindo os pets mais exóticos e incompatíveis que houvesse no mercado.


Para isto, Carlos seguiria o conselho de um amigo veterinário, e optaria pelas crias ao invés dos adultos, condição mais segura a um futuro convívio pacífico. 


Ocorre que exotismo e incompatibilidade não são, necessariamente, fáceis de achar, nem de comprar. 


Pois várias semanas passaram até que uma das muitas lojas que visitou ligasse informando que uma Jiboia albina acabara de chegar. – Carlos não especificara nenhuma raça, deixando que o destino o surpreendesse.


Ele, então, mandou reservá-la, pouco se importando com o preço que iria pagar. 


E o final de semana seria todo dedicado à sua primeira aquisição.


O segundo animal, contudo, não aparecia; e isso preocupava Carlos, pois era imprescindível que Jaciara – era o nome que dera à cobra – crescesse na companhia de um irmãozinho.


Mas esse contratempo seria resolvido no final de semana seguinte, quando Carlos resolveu visitar o seu único tio, que morava em um sítio isolado, no interior do Estado.


É que o matuto adotara um Carcará ainda em plumas, cujos pais tiveram o azar de terem sido atropelados em plena rodovia.


Carlos encantou-se com o achado, e perguntou ao dono se quereria vendê-lo.


Ora, como seu parente ficasse muito feliz com a visita, deu-lhe a ave de presente.


E o sonho de Carlos concretizava-se. Seriam dois animais naturalmente inconciliáveis, mas cujo convívio precoce faria com que se unissem para sempre.


Com o passar do tempo, Jaciara e Alfredo tornaram-se inseparáveis, sendo corriqueiro dormirem juntos – aquela (enrolada) servindo de ninho para este.


Carlos deliciava-se, e os postava no Instagram.


Por vezes, ele recebia mensagens dos internautas, advertindo-o de que, mais cedo ou mais tarde, ou Carcará estriparia a Jiboia, ou a cobra engoliria o falcão.


O orgulhoso proprietário, contudo, recusava-se a crer que isso pudesse acontecer. Afinal, não se dedicara por tanto tempo aos rebentos para ver a família destroçada à custa de um fratricídio.


No entanto, esta infame possibilidade começou a criar raízes no coração de Carlos... E os pesadelos não tardaram a açoitá-lo, ora testemunhando Jaciara asfixiando o pobre do caçula, ora assistindo a Alfredo rasgando os olhos da indefesa irmã.


Mas como poderia prevenir-se? O que precisaria fazer para afastar a tragédia anunciada? Deveria impedir o convívio? Mas, daí, tudo o que idealizara seria jogado no lixo. Melhor, então, seria imitar seus pais na natureza, sacrificando (doando) o mais fraco em proveito da mais forte? Impossível, pois o amor que sentia por ambos não lhe permitia discriminações.


Com o passar dos dias, mais se avizinhava o perigo, e mais desanimado ficava Carlos ante a sua impotência. 


Certo sábado, à tarde, quando o coração batia contrito, Carlos resolveu ir até a igreja de São Francisco de Assis, o protetor dos animais. Nada melhor do que uma boa prece para que uma luz se fizesse.


Só que ao invés de vislumbrar um caminho, o que veio à mente do fiel foi a lembrança de que saíra de casa sem que, antes, tivesse distribuído os almoços aos animais. E um arrepio subiu-lhe pela espinha!... E ele chispou antes mesmo da liturgia terminar.


Ao abrir a porta de sua residência, Carlos topou com uma cena que por certo jamais sumirá de sua mente... Jaciara e Alfredo banqueteavam-se, sim, mas com o coelho do vizinho, petisco este que a ave capturou logo depois de ter escapulido pela janela, e a serpente comprimiu até virar uma maleável e apetitosa panqueca.


E se é verdade que Carlos não teve coragem de comer carne naquela noite, também é exato afirmar que nunca mais se preocupará com eventuais aversões entre seus pets. 




Dias Campos
 é autor do romance "As vidas do chanceler de ferro", Lisboa: Chiado Editora; Colunista do Jornal ROL; do (atual) site Cultura & Cidadania; do Portal Show Vip; e do (atual) portal Pense! Numa notícia; autor de diversos textos literários; autor e coautor de livros e artigos jurídicos.