De um colecionador de postais, crônica de Anthony Almeida

 por Anthony Almeida__


Feira de Caruaru
                                                              
         Folheio um álbum de capa dura e cor-de-rosa. Nele, guardo uma parte da minha coleção de cartões-postais. Tenho este álbum inteiro dedicado à minha cidade natal. São 120 retângulos de papel que mostram Caruaru e dão conta de imagens que vão da década de 1950 a 2010. Neste acervo há cartões em branco e outros escritos no verso, circulados por várias pessoas; todos preciosos.

Sendo eu colecionador, adquiri muitas peças de segunda mão, busquei cartões que faltavam, fiz escambos, tentei completar séries que julguei importantes. Dentre estes, os que mostram a Feira de Caruaru são os que mais conseguiram fechar o ciclo de vida de um postal. Adiléa Mattos, em 26 de maio de 1966, visitou a cidade, comprou um cartão — Caruaru: Aspectos da maior Feira do Nordeste do Brasil — e escreveu uma mensagem: "Esta parte da Feira vende só panelas de barro, chamam a 'Feira de panelas'". Depois, foi até os Correios e postou o mimo "A Yara Mônica, com dedicação da amiga Adiléa Mattos". 

Barbosa, em 27 de julho de 1977, escolheu para o correspondente, José, um cartão que também mostra a Feira — Caruaru/PE: Cerâmica de Barro - Bonecos de Vitalino. Ao destinatário, escreveu com letra engarranchada e miudinha: "Aí está uma pequena amostra dos bonecos do Mestre Vitalino. Nossa terra é conhecida como a Capital do Agreste por estar encravada entre a região da Mata e o Sertão pernambucano". Caruaruense e orgulhoso deste chão, como se nota, prosseguiu: "Terra dos Condés, dos avelozes e do Mestre Vitalino, Capital do Artesanato, maior Feira do Brasil e de onde colhemos elementos para o folclore e a literatura de cordel". Despediu-se com certa formalidade: "Aguardo QSL. Atenciosamente, Barbosa". 

Um dos que foram remetidos a mim, embora não mostre a Feira, exibe outra das atrações turísticas da cidade — Série Festas Juninas - Caruaru/PE — e conta o seguinte: "Olá, Anthony. Em tempos de festa junina, ao ver um postal caruaruense, só poderia te mandar para aplacar a saudade que você deve estar sentindo. Beijos, Luzia". Datado e carimbado pelos Correios em 18 de junho de 2019, o meu endereço da época explica o tom da mensagem: "Rua Henrique Dias - Presidente Venceslau/SP". Minha amiga Luzia entende das coisas...

Minha avó materna também entendia a importância de se recordar dos nossos lugares. Herdei dos seus objetos queridos, que moravam numa caixa estampada de flores, um postal — Caruaru/PE: Agência do Banco do Brasil — com uma de suas lembranças: "Banco do Brasil, onde foi o cinema de Santino, o Cine e Teatro Caruaru". Completam o cartão a sua assinatura e o seu apelido, manuscritos em bonitas letras arredondadas: "Aurora Maria de Azevêdo. Mocinha". Infelizmente, não tem data, mas registra, além da reminiscência de vovó e da destruição do Cine Caruaru, a grafia adequada do nosso sobrenome. Eu sempre tive dúvidas se o meu Azevêdo é Azevedo ou Azevêdo...

Há outros. Deles, se destaca a grande quantidade de cartões de um mesmo remetente. Ele não se identifica com assinatura, apenas com rubrica. Mas a reconheço. É a minha própria rubrica. Eis um hábito que todo cartofilista cultiva: enviar postais a si mesmo. A identificação apenas com um rabisco é a maneira de evitar um: "De: Anthony; Para: Anthony" e o julgamento alheio, uma vez que a mensagem postal viaja sem envelope, exposta a qualquer carteiro curioso.

Nas mensagens, o objetivo costuma exaltar, do mesmo modo que o confrade Barbosa, os principais elementos turísticos da cidade. Num cartão de 12 de abril de 2010 — Casa Museu Mestre Vitalino - Caruaru/PE - Brasil —, me autoescrevo: "Essa é a Casa Museu do Mestre Vitalino, importante escultor caruaruense, que ficou famoso por sua obra, feita com barro. Entre a variedade de suas peças destacam-se o boi, Lampião e Maria Bonita, o caçador de gatos maracajás e muitas outras". 

Quase sempre, eu escolhia selos bem bonitos para acompanhar a mensagem. Isso ajudou na composição de boas peças. Uma relíquia, contudo, tem dois dos selos mais banais já emitidos pelos Correios: Costureira, com valor facial de cinco centavos, e Barbeiro, de sessenta centavos, ambos da série Profissões. Em 08 de março de 2010, sessenta e cinco centavos eram suficientes para se enviar um cartão-postal. 

A opção pela dupla foi premeditada, harmoniza com a imagem da frente — Feira de Artesanato - Caruaru/PE — e com o texto que escrevi no verso, uma homenagem, revelada num canto, entre os selos, os carimbos dos Correios e o meu endereço: "Poema escrito p/ meu pai":


"O fazedor de barracas


Bater o prego

Bater o prego na madeira

Ripa no caibro

Caibro na linha

Telha, lambri


Serrote corta a tábua

Martelo bate

Cavalete, prumo, metro

Máquina de serrar


Subir, descer, pregar

Bater, serrar, fazer"


Termino de folhear o álbum com uma certeza. Tenho uma bela coleção e ela vai além dos próprios cartões-postais.





— Caruaru. Janeiro, 2023.




Anthony Almeida nasceu em 1989, em Caruaru/PE. É cronista, geógrafo, professor e editor-adjunto da RUBEM – Revista da Crônica. Atualmente desenvolve pesquisa de doutorado em Geografia Literária na UFPE, campus Recife, sobre o tema ‘Geograficidades do mundo vivido-escrito na crônica brasileira’. Escreve para a Revista Mirada. Saiba mais em: https://linktr.ee/anthonypaalmeida