Das bananas, nem as cascas, crônica de Raphael Cerqueira Silva

 por Raphael Cerqueira Silva__




Foto:Felipe Pelaquim


No fim da tarde, uma saudade. 

E me ponho a recordar minha meninice: podia comprar fiado em qualquer venda ou bar. Deixava no balcão o indefectível “anota na conta”, voltava serelepe para a rua. Chupando um picolé, comendo pastel de queijo, devorando Aymoré de morango, ou emborcando a Coca até extrair a última gota do casco… Fiado, palavra curta, tão engraçada. E tão corriqueira nos tempos que vivia em São Geraldo. Meninice livre, short e chinelo, bicicleta e hominhos, doces e chicletes… e cadernetas pra anotar os fiados. 

Vou me recriminando pela rua: esqueci a carteira em casa. Logo hoje, que planejara passar no mercado para comprar frutas, queijo, pão, iogurte… logo hoje, esqueço a merda da carteira. Ah, fosse noutros tempos, não haveria problema algum: parava na quitanda, na padaria, pegava tudo o que quisesse, mandava anotar, e pronto. Pensando bem, até minha caminhada seria diferente: outrora, estaria me equilibrando nesses trilhos da ferrovia, ou no meio-fio, me imaginando um daqueles artistas que se apresentavam no Show de Calouros... Hoje, me equilibro de outro jeito. 

O sol vai se deitando no morro. 

Muros e casas ainda assopram calor. Cantarolo uma antiga e melancólica canção que ouvia no rádio: cai a tarde tristonha e serena, em macio e suave langor… cantarolo, sobretudo, porque preciso parar de me xingar por ter esquecido a bosta da carteira.

Um casalzinho toma sorvete na Chaybom. A boca chega a salivar, mas tenho que passar direto: infelizmente, não estou mais nos tempos do fiado. Atravesso a rua, por pouco a moto não leva o retrovisor de um Siena. Os motoristas, senhores de sua própria razão, trocam insultos. O sol, bolinando o morro, explode num âmbar quase orgíaco… Melhor voltar a cantar. 

Na esquina, um chato me pára: “me dá dois real aí!”. Antigamente, pediam; hoje, ordenam, feito o Reizinho Mandão que conheci na biblioteca da escola. Grosseiro e fedendo a cachaça, retruca: “que não tem o quê” e vai, calçada afora, encher o saco de outro. Ainda que tivesse, não daria: trabalho muito, suporto coisas demais naquela repartição para entregar meu rico dinheirinho a vagabundo. 

Passam por mim alguns garotos, shorts e cabelos molhados. Na idade deles, eu também saía a essas horas do clube. Mas, saía desembestado pedalando minha Monark, a barriga chiando por qualquer coisa. Parava na padaria, pegava um pacote de biscoito, às vezes um Galak. Bota na conta, dizia à moça. “Botar na conta”, corruptela que eu ouvia e também usava muito nos memoráveis tempos do fiado. Tornava então a montar na bicicleta, ia pela 21 de abril, feliz da vida, torcendo pra não cruzar com um chatonildo que me pedisse um punhado de biscoitos ou um naco do chocolate.

Passo pelo pontilhão. Comprar xampu, é a lembrança da vez. Como, se não trago nos bolsos um caraminguá, e nessas farmácias não vendem fiado? Lembrar do xampu, eu lembro; mas de trazer a carteira, neca de pitibiriba… Hoje será banho sem xampu. E não comerei o costumeiro pão com queijo antes de dormir. Pelo menos, ainda restam as bananas que comprei ontem, digo a mim mesmo, enquanto subo a ladeira. 

Entro em casa. 

As crianças na sala, cada uma no seu celular. Enquanto me livro da camisa impregnada de burocracia, um pressentimento me assalta. Corro à cozinha: das bananas, nem as cascas.       





Raphael Cerqueira Silva, é mineiro São Geraldo, servidor público, graduado em Direito e História, e cronista nas revistas Vicejar e Conhece-te. Publicou Confissões, livro de contos, e A Vida Segue, livro de crônicas.