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A casa da mãe | Germana Accioly

por Germana Accioly |



Mãe, Cora, sua bisneta, nasceu. Você deve estar vendo tudo daí, né? Hoje ela completa 20 dias e há oito meses que você não está mais com a gente. Você se foi, mas a cada dia percebo que o extrato do nosso amor está apurando. Sinto em mim suas lições, percebo que você vive nas minhas atitudes, nos meus passos, nas minhas escolhas. 


Existe uma sintonia fina, na casa do sutil, que me atravessa. 


Faz uma semana, eu estava ali na rua das Creoulas, esquina com a Rui Barbosa, e uma senhora já bem idosa me pediu uma informação:


— Minha filha, você sabe onde fica a Clínica tal? 


Parei e respondi que ficava na próxima rua, a da Amizade (aliás, você adorava o nome dessa rua, né?), e me ofereci para acompanhar a senhora até a porta da clínica, era meu caminho.

Ela agradeceu e emendou: 


— Peguei o ônibus Conjunto Beira Mar/Derby e me perdi pra chegar até aqui”.

 

Eu, que não gosto de conversar nem nada, disse a ela que já morei na região de Pau Amarelo, e que peguei muito esse ônibus. A senhorinha, que nem perguntei como se chamava, me disse na sequência: 


—Moro na rua da padaria Praieira.


 Acredita nisso, mãe???? Entendi que era um recado, mas ele foi ainda mais preciso. Respondi ser uma tremenda coincidência, que era a rua que morei na infância e a casa era aquela que hoje servia como lar para freiras idosas. A senhora arregalou os olhos pra mim e disse:


— Minha filha, é o número 136?


E eu:


— Sim!!!! Essa casa mesmo. 


E ela:


— Não existe mais o lar das idosas, eu aluguei a casa.


Aí deu que devo ter feito uma expressão de susto, meus olhos marejaram imediatamente, e falei:


— Meu Deus! A senhora mora na casa da minha mãe!!!! 


Queria abraçar aquela senhora, agradecer aquele momento! Mas ela, serenamente, colocou as duas mãos nos meus ombros, me olhou firme nos olhos e disse: 


— A casa da sua mãe será sempre a sua casa. 


Me deu um abraço e falou:


— Já sei onde estou, minha filha, sigo sozinha daqui. Obrigada pela companhia.

 

Fiquei na rua sentindo a sua presença, mãe, experimentando a força do momento. Dois dias depois, mudei para o apartamento que você morou por mais de 20 anos.


Hoje escrevo sentada na mesa da copa, sentindo sua força, sua energia, nesse dia em que me lembro da sua partida. Ainda reverbera em mim o diálogo casual (nem tanto assim, você era dessas, de armar as situações) na esquina… O recado que você me mandou e que foi como um afago nesses tempos difíceis.


Vou ali, mãe, pegar Cora no braço, celebrar a vida dela, carregando comigo o sentimento que me envolve e me deixa mais perto de você.




GERMANA ACCIOLY é jornalista, especialista em Política e Representação Parlamentar pelo CEFOR em Brasília e em Política e Cultura pela Agecif, Paris. É autora do Relatório dos Mandatos Ativistas no Brasil (2023). É cronista, publicou textos em diversas revistas e sites e lançou seu primeiro livro, “Não é Sobre Você”, em 2021. Participa da coletânea “Crônica Popular Brasileira” (2024) e lançou "A esperança não recebe visita" em 2025. Todas as obras publicadas pelo Selo Editorial Mirada.