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Foto: Taciana Oliveira

Era eu. Vestida numa saia de forro dourado e umas pérolas bem falsas aplicadas no tule preto, que comprei numa loja evangélica na Rua Nova.


Eu, com a tal saia sacra, com uma blusinha de lamê dourada frente única profana, que comprei na costureira da esquina.


Eu, com a saia sacra, a blusa profana, o coração de quem já tem mais da metade da vida de carnavais brincados, pulados, amados, poetizados.


Eu, com a roupa sacro-profana na festa mais mundana do calendário religioso. Uma pena lilás na cabeça, e cílios postiços da mesma cor, e meia arrastão fazendo o degradê. Para completar, maquiagem preta e roxa, feita por mim e finalizada pelas amigas que foram no esquenta tomar a sopa da sustância lá em casa. Sapatilha lilás nos pés que já completava três carnavais.


Eu, toda paramentada para a festa sagrada. A concentração do bloco na frente da igreja da matriz. Tanta gente linda! Minha licença poética de ver o mundo todo decorado de luz e brilho. Começa a orquestra, rasgando a Rua da Imperatriz, abrindo caminhos entre os sobrados. Um bloco inesquecível como tantos. E o milagre do carnaval. Festa sagrada tem que ter milagre. Da vida. Das pessoas. Permita-me o lirismo, essa sou eu... você já sabe.


E a chuva vem batizar o cortejo, a procissão frenética. As gotas desmantelam os cílios postiços. Devem estar agindo na purpurina preta brilhante que desenha ondas no meu rosto. Pouco importa. Me meto no meio do furdunço da orquestra. Aquele aperto, aquele limite entre o desespero de não poder sair e a alegria de querer que ficar. Canto em coro alucinada “ai, meu bem sem você não há carnaval, vamos cair no passo e a vida gozar...” e a sapatilha do pé direito, já encharcada, ganha outro rumo. Não demora e a outra também é arrancada do meu pé. Saio da massa de gente toda feliz, perdi a sapatilha de três carnavais. Foi Momo quem levou. Piso nas pedras da Imperatriz, cruzo a ponte de ferro. A esta altura, não sabia onde estavam os amigos.


Com tanta expertise no assunto, continuei o desfile feliz. Sem sapato...sozinha pela multidão.  Aproveitei o descanso da orquestra (tocador quer beber), ali pertinho da Guararapes, procurei um cantinho mais resguardado e tirei de dentro da saia sacra (ou já estaria profana?) uma bolsinha para tentar ligar para alguém. Tudo molhado. Tanto, que quando puxei o celular, vieram junto, grudadinhas, duas notas de 20 contos. O dinheiro caiu no chão. Antes mesmo que eu pegasse, um mané que passava se atravessou e resgatou as cédulas. Eu falei: “moço, este dinheiro é meu”. E ele, mais malandro impossível: “prove que é seu”.  Tudo o que eu tinha. Quis provar nada. Ele se foi. E eu ainda sob o efeito do espírito carnavalesco, fiquei sem sapato e sem dinheiro em plena Guararapes... A chuva benzia tudo.


Uma senhorinha chegou junto de mim:"Tava aqui catando as latas, mas vi tudo". E eu "pois é.... ", toda lesa. Ela se ofereceu para me pagar uma coca, ficar comigo até aparecer alguém conhecido. Coisa linda! Trocamos umas frases, uns sorrisos e a companhia.


 Não demorou, passou uma galera. Abracei aquela anja, caí no frevo. Os amigos já me deram 10 reais. “Tô no lucro!!!!!” Segui cantando, dançando! A gente se encontra e se desencontra, mas não se perde.


A gente só perde o que não é nosso, dizem por aí... Filosofia barata à parte, passamos frevando pela Pracinha do Diário. E mais uma ponte, abrindo alas para a entrada na Ilha do Recife.


Gosto particularmente da Ponte Mauricio de Nassau. Ela tem cheiro de maresia. Rio e mar se misturando numa dança sem fim. Parece a gente no meio da orquestra. Deve ser o frevo da água salgada do mar com a água doce do Capibaribe. Eita, Recife!!!!


Poesia à parte, meus pés já começavam a doer. É que as pedrinhas do asfalto da ponte são pequeninas. Machucam pra valer. Já estava cogitando voltar pra casa, a meia lilás ficando preta... Aí encontro uma amiga no pé da ponte. No meio da conversa, ela vê meus pés descalços, saca da mochila um par de sandálias e me dá. Meu númeroooooo!!! E ainda combina com minha fantasia!!!


No meio do bloco, voltei a pular. Tudo que é meu voltou. O carnaval que embriaga de alegria, também abraça e aquece o coração. Minha crônica, minha história da vida normal, meu milagre diário. Salve o meu carnaval!!!!


 


Germana Accioly
é escritora e jornalista. Publicou “Não é sobre você” (Selo Mirada, 2021). Escreve no blog Perder de Vista.

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Reprodução

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Fotografia:Germana Accioly

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