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O fim do mundo nos interiores: resenha crítica do livro Os Interiores, de João Matias

 por Nivalter Aires*



O fim do mundo nos interiores: resenha crítica do livro “Os Interiores”, de João Matias


“É mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo”, disse Fredric Jameson. 


Esta expressão passou a sintetizar aquilo que Mark Fisher apresenta como realismo capitalista, enquanto expressão de uma “atmosfera” que envolve a produção cultural na contemporaneidade. Não à toa as distopias — narrativas com futuros indesejáveis ou mesmo opressivos — têm mobilizado as energias criativas de escritores.


Mas o que acontece quando um romance, embebido nessa atmosfera, é produzido na periferia da periferia? Ou seja, quando o fim do mundo tem lugar no Sertão nordestino? É isso que faz João Matias na obra Os Interiores (seu primeiro romance, depois de uma carreira de contista convicto).


O livro tem como pano de fundo um Brasil militarizado. Através da intervenção das forças armadas brasileiras no Haiti, a partir da qual estas foram projetadas a um patamar de destaque na vida política no Brasil, e o destino do país passou a ser resolvido na surdina e nos quartéis.


Diante desse cenário, acompanhamos Tieta — viúva e matricida de um General legalista — seguindo seu “chamado” aos interiores de sua infância/juventude, para reclamar Novas Brasília / Sertões Novos, terras que outrora foram de seus antepassados. Para chegar ao seu destino, Tieta se depara com os tortos ou retirantes, como prefere chamar em associação com o quadro de Portinari. Estes são sujeitos expulsos dos seus lugares pelas voçorocas — grandes crateras ou buracos formados pela erosão do solo, como uma espécie de vingança (ainda que não explícita) da Terra / Gaia. 


A jornada de Tieta a leva no caminho inverso aos retirantes. Enquanto estes fogem do Sertão, a protagonista de Mathias atende um chamado para o seu lugar, vindo da capital paraibana em direção ao seu Sertão. Ela tem livre passagem, pois foi peça central numa trama golpista dos militares, e no romance acompanhamos seu avanço em direção ao seu interior (em termos geográficos e subjetivos). Os retirantes, por sua vez, são retidos, impedidos de chegar ao litoral, aprisionados em campos de concentração, explorados, oprimidos, assassinados e devorados pela terra.



Nivalter Aires é Pesquisador de Pós-doutorado no Programa de Pós-graduação em Serviço Social da Universidade Estadual da Paraíba. Professor, resenhista, leitor assíduo e divulgador da literatura brasileira contemporânea dentro e fora das salas de aula.




Nascido em Juazeiro do Norte (CE) e residente no Crato (CE), João Matias também viveu em outras cidades, entre elas João Pessoa (PB), onde morou por 15 anos. Jornalista e cientista social, é professor da Universidade Regional do Cariri, atuando na disciplina de Teoria e Pesquisa em Sociologia e no Programa de Pós-Graduação em Letras. Antes do romance, construiu trajetória sólida como contista, com os livros O lugar dos dissidentes (Editora Escaleras, 2019), Os santos do chão bravo (Caos e Letras, 2022) e As madrinhas da rua do sol (Caos e Letras, 2023). Também é roteirista de cinema e quadrinhos, coautor do argumento do longa de horror brasileiro O Nó do Diabo (2017), apresentador do podcast sobre literatura Lavadeiras do São Francisco e integrante do projeto O Livro Quebrado, dedicado a entrevistas com autores nacionais. Entre suas influências literárias estão Rachel de Queiroz, Dalton Trevisan, Murilo Rubião, Rubem Fonseca, Cormac McCarthy, Flannery O’Connor, Silvina Ocampo, Ana Paula Maia e João Ubaldo Ribeiro. “Creio que busco uma linguagem próxima de uma realidade sucinta, objetiva e clara, mas sem renunciar à ironia. Procuro encontrar no leitor o respiro, a cadência e o ritmo de uma tensão urdida no limite do real e do irreal, da crença e da dúvida, da calma e da violência”, resume.