por Pedro Matos |

Foto de Brice Cooper na Unsplash
A Craibeira
Todas as manhãs, quando os pioneiros raios de sol alumiavam a minha casa, eu ia à cozinha e admirava a paisagem que a janela me expunha: o piso maciço, os varais sustentados pelas extremidades do quintal, as telhas marrons dos casebres, o antigo hospital limítrofe ao meu lar. Ao fundo, uma grande árvore cobria o espaço sufocante do céu azul; árvore sábia, folhas de um verde-jade que exprime a serenidade que o sertão atribui às suas crias. Sempre foi assim. Todos os dias eu agraciava aquela dádiva. Durante a primavera, a árvore enjuvenesceu; deixou sua sabedoria jade, apanhou a inocência, a alegria tenra. Suas flores douradas se abriram, e alumiaram mais a minha paisagem que o próprio sol, que agora possuía concorrente. Outubro cessou. Elas caíam em meu quintal como chuva de ouro. A ventania do verão acabou o serviço. Só sobraram as folhas, verdes, sérias e perenes. Não reclamei; o brio que me era ensinado por aquela árvore, nada mais seria do que lição para o ano que viria. Um verde-velho, de alguém que já passou por muita coisa e não se surpreende com as adversidades. Hoje, aviso-lhes, a árvore foi cortada. Cada manhã, quando os feixes solares acordam, eu vejo a paisagem da minha janela, e percebo que a craibeira não está mais lá; só deixou a vastidão angustiante do céu azul. Eu sempre escutei, vindo dos meus mestres, que o Homem brinca de Deus, transformando a natureza, organizando o próprio espaço; eu desacreditava, queria que fosse apenas uma mentira marxiana. “E os pediplanos, as serras sublimes, e essa caatinga que vejo aos montes? E esse céu cítrico do fim da tarde, essa água opaca do riacho? O Homem não é nada perto dessas beldades”. Quando mal acreditei, tiraram de mim aquela pintura impressionista. Desde a tenra idade, admirei aquela craibeira que sorria para a minha casa; agora, ela se tornou um rastro na História: fútil, esquecível. De um dia para o outro, aquela graça tornou-se fugaz. Quantas outras belezas fugazes eu perdi de vista? Quantas outras entraram para a lata de lixo da História?
Pedro Matos, 19 anos, vive em Delmiro Gouveia, Alagoas. Interessado por Literatura, Geografia e Filosofia, almeja unir os três em uma nova forma de ver o Nordeste e o Sertão. Estuda Geografia na Ufal, Campus do Sertão e publicou "Panthalassa" pela editora Parresía em 2025.

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