por Manoel Tavares Rodrigues-Leal |
Sete poemas inéditos de três cadernos (1976)
Eu não sou doudo, tenho sido manejado como um puro manequim
Ângelo de Lima
Eu sei o que é o manicómio: / É essa ideia central que me obceca.
Manoel T. R.-Leal
I
Como cedo anoitece e os amantes
debruçados numa esquina, se abraçam num beijo demorado…
Quanto quis, se esquiva, distante
e perecível, consumo do que é breve, loucura do que me é ave, despido e doado.
Lx. 28-8-76 – de um caderno sem título
II
Nua te sorvo, loucura de amar-te.
É adoecer de ódio. Como esplendes
quando és ébria égua água. Te sorvo o corpo.
E o sexo é música estreme e como te acendes
nos meus braços jovens, nua, e que arte e que desastre.
Lx. 28-8-76 – de um caderno sem título
III
Não me esqueçais: para além do poema
há a lisa alma simples irredutível a um esquema.
E quando a harpa do poeta profanais
Belas – 18-11-1976 – caderno Fragmentos de um livro dividido (anónimo do séc. XX). Poema escrito na Casa de Saúde do Senhor da Serra, em Belas, perto de Sintra. “Belas, casa de saúde mental; manicómio para gente fina; uma duquesa iria para ali.” (M. T. R.-Leal — 1976).
IV
Meu perdido amor como me perdeste
era edifício ou ofício de escrita
algo alguém que em estátuas de morte me seduzia
verbo minha palavra primordial e vítrea incesto loucura que me cedeste
Lx. 13-11-76 – caderno Fragmentos (compilados)…
V
Minha palavra primitiva onde principia
esta madrugada despovoada di-lo calo inocência
através da paisagem divido-me mas há um novo antigo dia
e é o princípio e é o fim loucura me sabe amar-te não há ciência
pequenos brilhos não os recuses são límpidos reinos onde o meu adeus te adia
Lx. 13-11-76 – caderno Fragmentos (compilados)…
VI
Mas como amar-te vírgula de amor bastante abstracto
nas substantivas coxas da noite
nos obsessivos subúrbios dos teus cabelos
E o caudal dos dias? Oh ofício de poeta se matando metáfora do que foi deus desenhado
Despido para o ímpio quotidiano loucura? Arte de amar? Em inocência?
Lx. 18-11-76 – caderno Fragmentos (compilados)…
Manuscrito do poema VI
VII
Já não somos a esmo os luares, os lugares,
alicerces de uma alma que conheceu as esquinas,
as escamas, o elogio óptimo da loucura.
Que soe o silêncio, a exacta atenção. E quando o rosto inclinas,
Íngreme, sobre o crânio, que verdade pura habitares e amares.
Lx. 25-11-76 – caderno Fragmentos (compilados)…
Luís de Barreiros Tavares e Manoel T. R.-Leal — em casa do poeta (Rua da Guiné — Lisboa) — c 2012
Duas publicações com as mesmas temáticas na Revista Caliban
Poeta, poema e loucura — Poemas inéditos de Manoel T. R.-Leal
Loucura, poeta e poema — Inédito de Manoel T. R.-Leal
*Poemas coligidos por Luís de Barreiros Tavares
Manoel Tavares Rodrigues-Leal (Lisboa, 1941–2016). Foi aluno das Faculdades de Direito de Lisboa e de Coimbra até ao 5.º ano, não concluindo. Conviveu em jovem com Herberto Helder no café Monte Carlo frequentando “as festas meio clandestinas, as parties de Lisboa dos anos 60 e 70”. Conheceu Sophia (era primo do marido da poeta, Francisco Sousa Tavares), Gastão Cruz, Maria Velho da Costa, José Sebag, Pedro Tamen, José Bação Leal, entre outros. Trabalhou na Biblioteca Nacional como “Auxiliar de Armazém de Biblioteconomia”. “A minha chefe deixava-me sair mais cedo para acabar o meu primeiro livro”, A Duração da Eternidade (2007). Cinco livros de edição de autor (de 2007 a 2011). Poemas na “Nova Águia”, “Caliban”, “Triplov”, “Mirada (BR)”, “Pessoa Plural (Brown University, University of Warwick, Universidad de los Andes)”, “A Ideia”, “Ameopoema (BR)”, “Occaso: voci poetiche dal Portogallo” (IT), “Athena”, etc. Os últimos dias de vida foram trágicos. Caído no quarto, morreu absolutamente só no Natal e passagem de Ano 2015–2016.


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