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Valor Sentimental: quando a ausência molda afetos e destinos

 por Taciana Oliveira |


Valor Sentimental: quando a ausência molda afetos e destinos

Dirigido por Joachim Trier, Valor Sentimental é um drama familiar que aposta na contenção e na delicadeza para investigar os efeitos duradouros da ausência. A narrativa parte da casa onde duas irmãs cresceram, espaço que atravessa gerações e funciona como eixo simbólico do filme, para acompanhar o reencontro com o pai, um cineasta consagrado que retorna após anos afastado, justamente no enterro da ex-esposa.

Logo na abertura, o filme apresenta uma redação escolar em que uma das filhas personifica a casa, descrevendo seus sons, silêncios e tensões. O recurso estabelece o tom da obra: memória, afeto e perda são tratados indiretamente, mais sugeridos do que explicitados. A casa deixa de ser apenas cenário e condensa a história de uma família marcada por separações, interrupções e vazios afetivos.

O conflito central se intensifica quando o pai (vivido por Stellan Skarsgård) reaparece e propõe à filha mais velha, Nora, (interpretada por Renate Reinsve), agora uma atriz consagrada de teatro, que protagonize seu novo filme, um roteiro de caráter pessoal. A relação entre os dois é atravessada por ressentimento e ambivalência: há desejo de aproximação, mas também resistência diante de uma ausência que deixou marcas profundas. Em um dos momentos mais reveladores do longa, a filha confessa que é mais fácil viver outras vidas como atriz do que enfrentar a própria, sintetizando o impasse emocional que a sustenta.

Em contraponto à figura paterna errante, o roteiro destaca o relacionamento entre as duas irmãs, que encontraram apoio mútuo diante do afastamento do pai. Ao longo da narrativa, o vínculo entre Nora e Agnes (Inga Ibsdotter Lilleaas) se revela um dos eixos emocionais mais consistentes do filme. Diante da ausência prolongada do pai, as duas irmãs desenvolvem uma dinâmica de cuidado e sustentação mútua, criando entre si um espaço de proteção e escuta. Essa aliança silenciosa, construída na experiência compartilhada da falta, funciona como um contraponto à instabilidade da figura paterna. Sem grandes gestos ou declarações, o filme mostra como essa cumplicidade feminina se transforma em forma de resistência emocional e em uma das camadas mais sensíveis e comoventes da obra.

O convite feito por Gustav à filha pode ser lido, à primeira vista, como uma tentativa de reaproximação. No entanto, ele também expõe sua dificuldade em estabelecer vínculos diretos no campo do afeto. Incapaz de elaborar o encontro fora da mediação artística, o cineasta recorre ao cinema como forma de contato — a criação surge, simultaneamente, como caminho e como defesa. Essa ambiguidade se confirma quando a atriz americana, percebe a impossibilidade de assumir aquela história. Não se trata apenas de interpretar um drama, mas de acessar uma experiência que pertence, de maneira indissociável a quem o roteiro foi concebido. Então, diante da recusa de Nora de participar do filme, Rachel Kemp, uma atriz americana (Elle Fanning) se encanta com a possibilidade de assumir o papel, mas acaba desistindo ao compreender que aquela história não lhe pertence, sublinhando os limites entre criação artística e experiência vivida.

Sem recorrer ao melodrama, Trier desenha um retrato preciso das tensões familiares e das tentativas frustradas de reparação. O cinema surge como possibilidade de enfrentamento do passado, mas não como solução definitiva. A ausência afeta não apenas as filhas, mas também o próprio pai, revelando-se um elemento determinante de todas as trajetórias apresentadas. Vale ressaltar ainda olhar irônico sobre o ecossistema contemporâneo do audiovisual. Referências à Netflix, ao streaming e ao TikTok aparecem pontualmente, mas reveladora, como signos de um modo de produção e circulação de imagens cada vez mais acelerado e superficial.

Apresentado na competição oficial do Festival de Cannes, a produção foi ovacionada e recebeu o Grand Prix, consolidando-se como um dos títulos mais comentados do ano. O filme figura entre os destaques da temporada de premiações.

Valor Sentimental recebeu nove indicações ao Oscar 2026. O filme concorre nas categorias de Melhor Atriz (Renate Reinsve), Melhor Direção (Joachim Trier), Melhor Roteiro Original, além de indicações técnicas como Fotografia, Figurino, Montagem, Trilha Sonora Original, Design de Produção e Som. No total, aparece atrás apenas de Pecadores e Uma Batalha Após a Outra, empatando em número de nomeações com Frankenstein e Marty Supreme.






Finalizo esse texto destacando que em uma conversa informal sobre filmes indicados ao Oscar, alguém me sinalizou que
Valor Sentimental era um retrato do “white people problems”. A leitura, no entanto, me parece reducionista. Ao me ver, as consequências da ausência familiar, especialmente da figura parental, não obedecem a recortes de cor, classe, religião ou etnia. Trata-se de uma experiência psíquica universal, amplamente discutida pela psicanálise e pela psicologia do desenvolvimento, que reconhecem a ausência como fator estruturante da subjetividade, capaz de atravessar gerações. Desde Freud, passando por Winnicott e Bowlby, a ideia de falta, seja ela física ou emocional, aparece como elemento central na constituição do sujeito. A ausência não é apenas o que não esteve presente, mas aquilo que organiza vínculos, silêncios e defesas. Em Valor Sentimental, esse vazio não é um privilégio social, mas uma ferida relacional que molda escolhas, afetos e modos de existir, independentemente do contexto cultural. Ao tratar a ausência parental como experiência formadora, e não como drama circunstancial, o filme desloca a discussão do campo identitário para o campo humano. O que está em jogo não é um problema “de classe”, mas um tipo de dor que, quando não elaborada, tende a se repetir, influenciando o destino emocional de indivíduos e famílias ao longo do tempo.

Valor Sentimental consolida Joachim Trier como um dos cineastas mais atentos às complexidades das relações contemporâneas. Ao transformar uma história íntima em reflexão universal sobre memória, ausência e pertencimento, o filme se destaca a como um dos dramas mais consistentes e relevantes do cinema recente.




Taciana Oliveira — Natural de Recife–PE, Bacharel em Comunicação Social (Rádio e TV) com Pós-Graduação em Cinema e Linguagem Audiovisual. Roteirista, atua em direção e produção cinematográfica, criadora das revistas digitais Laudelinas e Mirada, e do Selo Editorial Mirada. Dirigiu o documentário “Clarice Lispector — A Descoberta do Mundo”. Publicou Coisa Perdida (Mirada, 2023) livro de poemas.