por Fabrício Pinheiro |
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| Foto de Nathalia Segato na Unsplash |
PRAÇA DO PESCADOR
Lampa havia me desafiado a tomar banho no Chafariz da Praça do Pescador. Eu não tinha coragem para muita coisa, apesar da marra que eu encenava diariamente tentasse dizer o contrário. Assim que o desafio foi feito, os outros moleques começaram a me encarnar. Ah tu gela é, disse o Língua. Ah tu te abicora é, disse Goma. De rocha, disse Maisena. Pomba lesa, pomba lesa, pomba lesa, diziam em coro Topete e Meio Quilo. O Velho Lampa gargalhava mais alto que toda a gritaria. Apesar da falta de coragem e da encarnação dos moleques, eu ainda pesava alguns outros pontos como, por exemplo, estar de uniforme, afinal, chegar molhado em casa poderia me causar consequências ainda mais graves do que ser taxado de covarde por algumas semanas.
O que me fez decidir, foi ver Meio Quilo sem camiseta sentado no banco desamarrando os sapatos. Eu não podia deixar que aquele tripa seca magricela, recém chegado na turma, me desmoralizasse por completo. Eu nunca me arriscava o bastante – ou o que eu deveria –, isso é fato, mas eu não poderia perder meus privilégios a muito custo conquistados na hierarquia daquele grupo de amigos – ou sabe-se lá o que era aquilo realmente – para Meio Quilo, um aparecido que tentava de todas as maneiras se colocar em um lugar de destaque.
Antes que ele tirasse as meias, entreguei meus cadernos para Goma e pulei no Chafariz de uniforme, inclusive com os sapatos. Todos comemoraram, uma mistura de euforia e incredulidade. O próximo a pular foi Meio Quilo. Começamos a brincar chutando água um no outro, não demorou para todos estarem dentro do Chafariz brincando.
A água transbordava e molhava o chão da pequena Praça. As velhas passavam e nos chamavam a atenção, outras se assustavam e se afastavam balançando a cabeça. Os velhos paravam e tentavam nos obrigar a sair. Um deles, careca com pele sobrando pelo cotovelo, ameaçou chamar a polícia. Lampa, que estava com o braço sobre meu ombro, xingou o velho em resposta e lhe mostrou um cotoco, rimos fazendo chacota do pobre coitado. Para completar, Maisena chutou água nele, que saiu correndo para se proteger. Rimos mais ainda enquanto o velho se afastava mostrando o punho cerrado nos proferindo ameaças. Retrucávamos jogando água para fora do Chafariz, fazendo caretas, xingando e mostrando mais cotocos.
Sentamos no fundo do Chafariz, com nossos braços apoiados na borda, como se ali fosse nossa piscina particular. Topete brincava de colocar água na boca e a cuspia como se ele próprio fosse um chafariz. Ao lado dele estava Maisena, maliciosamente colocou água na boca, olhou para cima, bateu com os dedos na água e, de repente, se virou para Topete e cuspiu a água em seu rosto. O pequeno se assustou tanto ao ponto de escorregar sentado e se afogar no raso Chafariz, arrancando gargalhadas descontroladas de todos.
Maisena deu um salto para fora do Chafariz e saiu correndo pela Praça com Topete em seu encalço – depois que esse se recuperou da proeza de se afogar em um chafariz. Topete – o mais rechonchudo e mais novo de todos depois de Meio Quilo – tinha grande desvantagem na perseguição, rapidamente ficou esbaforido, fazia pausas para respirar colocando as mãos nos joelhos, e tudo que queria era acertar uma bicuda em Maisena, que se desviava sem esforço. Maisena, o mais atlético entre nós, fazia chacota de Topete, subia nos bancos, balançava os quadris, ria uma risada maldosa a cada vez que desviava de uma bicuda, fazendo seu perseguidor enrubescer.
Maisena voltou para o Chafariz. Enquanto aguardava Topete chegar, tirou a camisa molhada, a torceu e esperou com mais um sorriso maligno na boca que mostrava os dentes bem feitos. Topete, afoito como alguns rechonchudos são, se aproximou com sede de vingança, mas sem perceber a armadilha, ao entrar no Chafariz, Maisena desferiu nele uma lambada com a camisa molhada e torcida, como se fosse um chicote, diretamente em sua costela. O moleque grunhiu e se contorceu de dor. Maisena armou a camisa para um segundo golpe, mas Topete caiu de joelhos no Chafariz, as mãos sobre a costela, o tronco envergado para a direita, os olhos espremidos com a dor, pedindo clemência.
Maisena era o repetente da turma, o mais velho, com o tempo se tornou um grande amigo, podia não ser o líder da turma – se é que existia um –, mas era um cara muito malino. Todos nos Chafariz olhavam para ele e para Topete com feições engelhadas, falando baixo alguns palavrões, um pouco assustados com a falta de piedade de Maisena, e também agoniados com a chicotada na costela e a dor que isso havia causado. Suas atitudes poderiam ser esperadas, mas ainda causavam certo espanto quando aconteciam diante dos nossos olhos.
A situação desconcertante nos deixou por um tempo calados, sentados no Chafariz, eu sentia certo pesar pelo constrangimento que passava Topete, que continuava resmungando de dor. Poderia ser água o que escorria de seus olhos, mas poderia ser lágrimas, os olhos envergonhados encarando a todos alimentavam minha suspeita. Lampa se levantou, voltou com as encarnações, queria reanimar o grupo, aquilo acontecia, mas não devia nos desmotivar, ele se inclinou sobre Topete. Vai leso, te mete, pra deixar de ser pomba lesa, disse Lampa o que me parecia mais um ralho do que uma graça. Mas ele tinha essa habilidade, de falar qualquer coisa de forma mais descontraída. As risadas ecoaram de novo no Chafariz, mesmo que ainda com certo receio, e as brincadeiras foram voltando aos poucos.
Topete lavou o rosto, aumentando minhas suspeitas, de supetão Maisena o agarrou pelo pescoço fazendo uma guilhotina com o braço, todos ficaram apreensivos. Topete se debatia tentando se livrar do estrangulamento, assistíamos a tudo atônitos, complacentes com a violência, Maisena ria e me parecia relaxado, sem fazer força. Ele então beijou a cabeça imobilizada e pediu desculpas. Os dois deram as mãos e tudo voltou ao normal como antes.
Avistamos na orla um grupo de garotas do colégio – mais velhas. Goma e Língua, os grandes namoradeiros da turma começaram a chama-las. Venham aqui se refrescar desse calor, dizia Goma. Molhem pelo menos os pés, eu enxugo, dizia Língua. Duas das garotas mais velhas acenavam e riam encabuladas. As garotas confabulavam entre elas, até que finalmente o grupo parou, Língua pulou para fora do Chafariz e atravessou a rua para ir até elas. Chegou tentando as abraçar, foi uma correria para todos os lados, gritaria e risos. As garotas se divertiam correndo de Língua fingindo que tentava as abraçar. Ele puxava o cabelo de uma, cercava outra, uma batia em sua nuca para chamar a atenção, soltavam gracinhas, eram maliciosos.
Uma das garotas se deixou pegar por Língua, ela soltou um grito como alguém que é pego surpreendido, depois riu, em seguida se abraçaram. Isabela gostava de Língua, este ainda não se decidira, e ficavam nessa lengalenga, onde se encontravam, se abraçavam.
Ele atravessou a rua de volta para a Praça do Pescador abraçado com Isabela e mais uma garota, e atrás deles vinha Tônia. Eu tinha uma queda por Tônia que talvez eu não soubesse disfarçar. Quando as garotas chegaram, os garotos se retraíram, as piadas indecentes, os palavrões, a violência, pararam subitamente, menos as encarnações que, nesses casos, eram uma forma de demonstrar poder, o que Goma, Velho Lampa, Língua e Maisena faziam muito bem – coitados daqueles que eram encarnados.
As garotas foram devidamente apresentadas, as quais os garotos, no caso os encarnados, respondiam com falas monossilábicas quase inaudíveis, tanto era a falta de traquejo, o nervosismo. Os garotos mais desenvoltos se exibiam para as garotas as nossas custas, nos inventavam apelidos, contavam histórias constrangedoras sobre nós, nos davam rasteira e conversavam de igual para igual. Ninguém queria o mal de ninguém, eles eram tão inexperientes quanto qualquer um ali, mas havia uma diferença, já sabiam falar, mesmo que isso significasse fazer brincadeiras idiotas como a de Língua, mas eles não se inibiam, mesmo continuando sendo grossos e mal-educados como éramos uns com os outros, eles sabiam falar, e continuavam se comportando como as crianças que ainda éramos, um pouco mais calejadas, mas ainda assim, crianças.
Brincavam de puxar as garotas para dentro do Chafariz para que se molhassem, elas gritavam novamente, pediam para que não fizessem aquilo, e por último ficavam emburradas. Os moleques se resignavam pedindo desculpas, dizendo que nunca mais iria acontecer, para alguns minutos depois reiniciarem a brincadeira que terminaria da mesma forma. A única alheia a tudo era Tônia, com quem também nenhum dos meninos se metia a besta.
Mas aos poucos todos começaram a se cansar, parecer entediados, e não mais motivados a estar ali, nem para inventar outras brincadeiras, principalmente as garotas. Goma quis tentar uma última vez, ele saiu do Chafariz e chamou Tônia. Ela ergueu o queixo e foi até ele o encarando com os braços cruzados. Os dois ficaram frente a frente, ele menor que ela uma cabeça. Houve algum burburinho. Goma apontou para mim, eu dei de ombros e fechei o cenho, todos me olhavam, menos Tônia e ele. Meu amigo está a fim de ti, queres namorar ele, disse Goma. Arregalei os olhos surpreso, meu coração imediatamente gelou de vergonha e raiva, Isabela e a outra garota tampavam a boca para abafar as risadinhas, os garotos tinham um riso amarelo no rosto, exceto Maisena que me fitava sério. Não né, tamanho pirralho, disse Tônia. As três garotas se juntaram em um círculo e começaram a rir sem vergonha, elas entrelaçaram os braços e foram embora. Tchau pirralhada, disse por último Isabela, deixando ecoar a gargalhada das três atrás dela.
Os garotos as olhavam se afastar constrangidos, envergonhados, a marra de antes, o confronto, já não existia, restava apenas os olhares desolados e ainda inocentes. Menos a mim, que era tomado pela raiva e pela vingança. Goma assoava o nariz, mirava o chão, cabisbaixo. Era a oportunidade, eu o pegaria desprevenido. Avancei sobre ele o derrubando no chão.
Goma tentava segurar meus braços, que descoordenados, tentavam acertar nele algum soco. Eu não sabia brigar, muito menos dar socos. Acertava seus braços, os ombros, até mesmo me acertava, e ele tentava segurar meus braços estampando – com o que acreditei ser – um sorriso no rosto, mas houve um soco que entrou certeiro, sem obstáculos, direto em seu queixo. Goma arregalou os olhos, rangeu os dentes, e com apenas uma mão me empurrou no peito me tirando de cima dele, me fazendo cair no chão. Os moleques nada faziam, nem torciam para um lado, assistiam a tudo calados, complacentes como foram com Isabela. Eu não esperava que me salvassem, que me livrassem dos ataques de Goma, que agora em pé a minha frente, me dava chutes na barriga, e eu os recebia gemendo em posição fetal.
De repente os ataques cessaram. Me larga, fresco, disse Goma. Abri os olhos e vi Maisena o segurando pelos braços. Goma, criado no Aeroporto Velho, na Rua das Laranjeiras, conseguiu se livrar facilmente. Os dois se encararam por algum instante e como se tivesse soado um sinal, avançaram um contra o outro. Os outros moleques começaram a gritar feito cães selvagens. Todos com os olhos brilhando, maravilhados com o espetáculo. Lampa limpava a baba que escorria da boca com a mão a cada xingamento que vociferava. Língua acompanhava a tudo com as mãos apoiadas nos joelhos, arreganhando a boca como se fosse abocanhar algum pedaço grande de carne invisível no ar. Meio Quilo, o mais novo de todos, pulava rodopiando como um pião, dando socos no ar, se divertindo com a contenda. Topete, o segundo mais novo de todos, era o único que torcia em silêncio, nem por isso com menos intensidade, batia palmas e fazia bico quando erravam algum chute, e mordia os beiços quando alguém acertava uma cabeçada.
Quando finalmente consegui me levantar, recomposto dos chutes de Goma, deu tempo apenas para escutar o apito e o som oco do cassetete nas minhas costas. O maldito velho careca reaparecera com mais dois guardas que desferiam golpes com seus cassetetes indiscriminadamente e com toda a força os fazendo uivar quando cortavam o ar. O velho careca apontava para todos os lados. Pega ele, dizia. Meio Quilo e Topete conseguiram escapar facilmente, os vi correndo com as cabeças tombadas para trás em direção ao Bairro da Prainha – eu sabia para onde estavam indo. Eu queria poder segui-los, mas estava preso por um guarda que me segurava pela gola da camiseta e me dava pequenas pancadas com o cassetete na canela.
Era o meu fim, eu nem precisaria me preocupar mais com a bronca da minha mãe por conta do uniforme encharcado. Mas os outros moleques ainda se mantinham ali, na Praça do Pescador, confrontando o outro guarda. Eles o cercaram, faziam menção de avançar sobre ele e recuavam. O guarda, no centro, desferia golpes no ar para afastá-los. Eu conseguia ver o medo lhe escorrer a testa. O outro guarda, que me segurava pela gola, respirava cada vez mais forte, deixando transparecer a agonia, o desespero, tentava a todo custo encontrar as algemas atrás da calça, eu me debatia tentando me desvencilhar, fazendo com que ele usasse as duas mãos para me conter.
O primeiro a dar as caras foi o Velho Lampa. Como uma isca. Avançou sobre o guarda que facilmente acertou um golpe em seu pescoço, o fazendo cair no chão. Vendo a brecha devido a guarda baixa, Língua agarrou a cintura do homem, que começou a golpear as costas do meu amigo com a cabeça do cassetete. Língua pouco pode aguentar, mas Maisena já segurava o braço com o cassetete do guarda e puxava seu cabelo arrancando dele um grito esganiçado de dor. Por sua vez, Goma desferiu um único soco, um soco único e certeiro, na boca do estômago do guarda, que o fez se dobrar e cair no Chafariz.
Os 4 moleques então se viraram para o guarda que me prendia. Meu carcereiro tremia, tartamudeava, eu sentia o suor escorrer na mão que me segurava pela gola. E os 4 se aproximavam bufando, as veias saltadas, os pés firmes. O velho careca apenas assistia a tudo recuando para trás do guarda. De repente a gola afrouxou ao redor do meu pescoço, senti minhas costas livres, sem mais ninguém rente a elas. E então se ouviu o grito. Corre, gritou Lampa.
Saímos correndo desembestados, a toda carreira, batendo o pé na bunda, também com as cabeças tombadas para trás, pelo meio da rua, em direção ao Bairro da Prainha. Eles estão vindo, filho da puta, corre, corre, dizia o Velho Lampa a nossa frente, soltando uma gargalhada divertida. Nós atrás também ríamos, não sabíamos se nos seguiam ou não, ninguém teve coragem de olhar para trás, mas rimos até doer a barriga.
Corremos até uma construção abandonada onde nos encontrávamos algumas vezes na semana para tomar banho de rio, o lugar tinha uma laje propícia para isso, além do fato dela ter um recuo maior da margem do rio, ou seja, para pular dessa laje tinha que ter um bom impulso, caso contrário, qualquer escorregão, tu poderias te espatifar no chão lá embaixo.
Subimos as escadas até o terceiro andar onde ficava a laje, encontramos lá Topete e Meio Quilo sentados em tijolos fumando. Não poupamos encarnações. Tamanhos pirralhos fumando, disse Lampa. Todos nós rimos. Ele arrancou das mãos do Meio Quilo a carteira de cigarro e distribuiu entre os outros, nos sentamos e começamos a fumar – as tosses ainda eram inevitáveis.
Ninguém perguntou ou falou coisa alguma sobre o acontecido, tanto antes, durante e depois do aparecimento dos guardas, nem mesmo Topete e Meio Quilo pareciam curiosos. Fumávamos em silêncio. Alguns passavam a mão delicadamente em seus machucados e olhavam para o vazio e tragavam. Meio Quilo e Topete jogaram seus cigarros pela metade e começaram a correr atrás um do outro, faziam chacota, davam gritos sapecas, sorriam. Meio Quilo deu um drible de corpo em Topete e saltou, sumindo no chão de concreto. Topete foi logo em seguida. Ouvíamos em silêncio as gargalhadas dos dois lá embaixo nadando no rio. Égua, tu corres muito feio, moleque, parece que te deram uma remada nas costas, disse Goma para mim. Gargalhamos como estivéssemos fazendo aquilo pela primeira vez, em seguida as encarnações recomeçaram, e um a um, lançando desafios uns aos outros, finalmente, pulamos no Rio Tapajós.
Fabrício Pinheiro é paraense nascido em Óbidos, ainda pequeno foi com os pais para Santarém onde foi criado e fez seus primeiros escritos nos projetos que inventava com os amigos para a Feira de Ciências do colégio onde estudava. Se mudou para capital paraense, Belém, onde fez universidade e se formou em Comunicação Social, dando continuidade à escrita criando roteiros para trabalhos em grupo e empurrando algum ou outro conto para que seus professores e amigos avaliassem. Depois de formado, começou a trabalhar como produtor de set no cinema nacional com a escrita ficando em segundo plano. Em 2017 se mudou para São Paulo e se dividiu entre duas paixões, o cinema e a literatura, essa última se fazendo valer, começando a publicar seus textos de forma independente.


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