por Taciana Oliveira |

Créditos da Foto: Dayse Serena
Erotismo, natureza e transfiguração sensorial em A selva nos seus olhos, de Luís Perdiz

No livro A selva nos seus olhos, o escritor, editor e compositor paulista Luís Perdiz aprofunda um eixo temático recorrente em sua produção: a articulação entre erotismo, natureza e experiência sensorial. Publicada pela Editora Primata, a obra integra o conjunto de títulos contemplados por uma bolsa de criação literária do Programa de Ação Cultural (ProAC) e figura entre os vencedores do edital PNAB nº 28/2024 na categoria Obra Literária Inédita, situando-se no contexto contemporâneo de valorização de projetos literários autorais.
A composição da obra evidencia uma estrutura que se aproxima da ideia de poema contínuo. Embora organizado em unidades autônomas, o conjunto apresenta forte coesão temática e imagética, fazendo com que os poemas se articulem como variações de um mesmo campo simbólico. Nesse sentido, o verso inaugural, “Eu vi a selva nos seus olhos e vivi / tanto tempo que me aqueço ao lembrar”, funciona como chave interpretativa da obra, evidenciando uma experiência poética fundada na memória sensorial e na fusão entre sujeito e paisagem. A paisagem natural desempenha papel central na economia alegórica da estrutura poética. Perdiz mobiliza elementos da flora, da fauna e de características naturais como operadores imagéticos capazes de tensionar as fronteiras entre o humano e o não humano. Versos como “Flor insaciável à contraluz. / Boca de mel. / Rugidos no ouvido” exemplificam a forma como o poeta associa o erotismo à materialidade do mundo natural, construindo uma linguagem marcada pela sinestesia e pela transfiguração dos sentidos.
Nesse contexto, o erotismo não aparece apenas como temático, mas princípio organizador da linguagem. O desejo se manifesta tal qual força que atravessa corpos, plantas, animais e elementos cósmicos, aproximando a poesia de uma tradição que concebe a natureza um organismo vivo e interdependente. Essa perspectiva torna-se explícita em passagens que dissolvem categorias entre espécies e identidades, a exemplo do trecho: “Onde o puma é o tamanduá / o tamanduá é o puma / e o guariba dança com a jiboia”, a formulação aponta para uma poética que relativiza a centralidade humana e insere o sujeito em uma rede mais ampla de correspondências.
Do ponto de vista formal, os poemas são marcados por economia verbal e condensação imagética, recursos que aproximam o texto de formas breves de meditação poética. A concisão dos versos não implica redução da densidade alusiva, ao contrário, a síntese intensifica o campo das associações sensoriais e semânticas. Nesse aspecto, a obra dialoga com tradições que valorizam a potência do fragmento e a evocação de experiências liminares entre contemplação e delírio
Outro elemento recorrente é a presença de imagens relacionadas ao calor, ao fogo e à seiva, que funcionam como metáforas da flama e da pulsação erótica. Ao mesmo tempo, o livro alterna cenários naturais com referências pontuais ao cotidiano urbano e cultural (alusões cinematográficas ou marcas de consumo) criando uma tensão produtiva entre o universo da floresta e a experiência contemporânea. Um dos momentos mais sugestivos é apresentado quando imagens corporais e geológicas se entrelaçam até culminar no verso “toda úmida, por trás da cortina / a América Latina respira”. Aqui, o erotismo deixa de ser apenas uma experiência entre corpos para assumir uma dimensão territorial. A paisagem latino-americana nasce como organismo vivo, aproximando corpo, história e geografia numa mesma respiração poética. O desejo, portanto, não se restringe ao encontro íntimo, mas se expande em um ímpeto que atravessa continentes, reminicências e culturas. A dimensão sonora desempenha papel relevante na estruturaçaõ. A musicalidade dos versos, combinada à reprodução de imagens e ritmos internos, contribui para a percepção do livro em uma espécie de poema-canto, no qual a linguagem se organiza não apenas por significado, mas também por cadência e ressonância.
Em termos críticos, A selva nos seus olhos pode ser compreendida a exemplo de uma investigação poética sobre a reintegração do corpo ao mundo natural. Ao deslocar o erotismo do plano exclusivamente humano para uma esfera mais ampla de relações entre seres e paisagens, O resultado é uma obra que, ao mesmo tempo, conversa com as linhagens da poesia conectadas ao mundo natural e propõe uma reflexão recente sobre o lugar do corpo, da memória e do desejo na experiência poética.Não se trata de nostalgia nem de fuga. A poesia de Perdiz não idealiza o mundo orgânico; ela o reconhece território. Nessa paisagem, tudo vibra e reverbera: seiva, sangue, instinto, ancestralidade.
Ao final da leitura, fica a impressão de ter atravessado um espaço onde linguagem e natureza se confundem. Cada poema funciona tal qual uma trilha aberta entre árvores densas, onde cada leitor precisasse, necessariamente, perder-se um pouco para encontrar o caminho. Nesse percurso, as imagens se acumulam, fazendo do livro não apenas um conjunto de versos, mas uma experiência de envolvimento. Entre seiva, corpos e constelações imaginárias, a poesia de Luís Perdiz chama o leitor a desacelerar e a ouvir o ritmo mais sincero da vida, aquele em que desejo, memoração e o mundo natural respiram na mesma cadência.
Poemas do livro
Ela surge
como ferida quente pedindo língua.
Abelhas de fogo
em espelhos vivos.
No centro do templo
pólen e delírio.
–
Uma vez mais
os pés submarinos.
A lareira magnética
replay de um cataclisma.
Braços, pelos, costas.
O suco do guaraná antecipa o paraíso.
Toda úmida, por trás da cortina
a América Latina respira.
–
Manhã sem furacões.
A paz de fora deságua
na paz de dentro.
Contemplo seus cabelos
soltos sobre as flores lilases.
As horas são macias.
Estamos no tempo da floresta.
__
Uma vez mais os pés submarinos. A lareira magnética replay de um cataclisma. Braços, pelos, costas. O suco do guaraná antecipa o paraíso. Toda úmida, por trás da cortina a América Latina respira.
Sobre o autor
Luís Perdiz nasceu em Campinas (SP). Escritor, compositor e editor de livros, coordena a Editora Primata, dedicada à literatura brasileira contemporânea. Atua também na produção e apresentação de eventos de poesia e música, como o Festival Primata e o Sinais de Saturno.Sua obra já foi apresentada por nomes como Jorge Mautner e Claudio Willer, que destacaram as dimensões imagéticas e sinestésicas de sua poesia, voltada aos territórios encantados do erotismo e da natureza. Entre suas publicações, estão o livro Desejo de terra (2019) e a plaquete Você me enche de areia (2023), que reúne seus primeiros poemas. Site: www.luisperdiz.com.br Instagram: @perdizluis
Serviço — Lançamento do livro A selva nos seus olhos
O quê: Lançamento do livro A selva nos seus olhos, de Luís Perdiz
Quando: 14 de março, às 17h
Onde: Caffè Ristoro — Casa das Rosas
Endereço: Avenida Paulista, 37 — São Paulo (SP)Compre o livro: clica aqui
Taciana Oliveira — Natural de Recife–PE, Bacharel em Comunicação Social (Rádio e TV) com Pós-Graduação em Cinema e Linguagem Audiovisual. Roteirista, atua em direção e produção cinematográfica, criadora das revistas digitais Laudelinas e Mirada, e do Selo Editorial Mirada. Dirigiu o documentário “Clarice Lispector — A Descoberta do Mundo”. Publicou Coisa Perdida (Mirada, 2023) livro de poemas.
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