Entre o interior e a capital, Jozias Benedicto constrói um romance polifônico sobre o Brasil
Finalista do Prêmio LeYa Portugal de Literatura 2024, o escritor e artista visual maranhense Jozias Benedicto reafirma, aos 74 anos, a força criativa de uma trajetória que floresceu tardiamente. Em As vontades do vento (Caravana Grupo Editorial, 195 págs.), o autor converte perdas pessoais, memórias familiares e contradições históricas do país em um romance de fôlego, marcado pelo realismo fantástico e por uma sofisticada construção polifônica.
Publicado após os 60 anos, fase em que decidiu dedicar-se integralmente às artes, Jozias simboliza uma geração de criadores que encontra na maturidade um espaço de maior liberdade estética. Autor de nove livros, ele acumula prêmios como o de Literatura do Governo de Minas Gerais, da Fundação Cultural do Maranhão e do Estado do Pará, além de já ter sido finalista do Prêmio Sesc de Literatura. Agora, As vontades do vento o coloca novamente em evidência no cenário lusófono.
No romance, vida, morte e tempo se entrelaçam em múltiplas vozes narrativas que revelam um Brasil profundo, atravessado por heranças emocionais e sociais. A história mergulha nas entranhas de uma família marcada por segredos do clero, prostituição e pela herança escravocrata, compondo uma narrativa inquietante que atravessa gerações. Mortos e vivos compartilham o ponto de vista da trama, ampliando os contornos de um realismo fantástico que sustenta o livro do início ao fim.
Dividido em três partes — O Interior, A Travessia e A Capital —, o romance reúne 49 capítulos narrados em primeira pessoa por personagens distintos. O núcleo central é formado pelo pai mascate, a mãe e os três filhos, Joaquim, Pedro e Bento, além de figuras que orbitam o cotidiano familiar, como Mocinha, a empregada, e Elisa, a cafetina. A avó materna e seu irmão, um monsenhor já falecido e cultuado como santo no vilarejo, assumem papel decisivo no desfecho da história, ambientada em uma pequena cidade do norte do país, nos anos 1950.
A morte da mãe e o compromisso dos filhos em cumprir seu último desejo acionam o enredo, que logo retorna ao passado para revelar a ascensão social da família e a posterior derrocada que marca o destino dos herdeiros. A alternância de narradores é um dos principais trunfos do livro: ao apresentar os mesmos episódios sob diferentes perspectivas, Jozias amplia a densidade dramática e constrói uma narrativa coesa, de ritmo preciso e impacto emocional crescente.
Segundo a escritora Andreia Fernandes, que assina a orelha da obra, o autor “transpõe a estrutura do conto para a narrativa longa, reunindo vozes, lugares, cheiros e ambientações (do vilarejo do interior às grandes cidades modernas) sem perder o eixo do que se quer contar”. O resultado é um romance que articula memória íntima e crítica social, refletindo as tensões entre um Brasil tradicional e outro em busca de modernização, com suas consequências desiguais.
Para Jozias, a ficção é o caminho para tratar desses temas. “Nunca quis escrever ensaio ou não ficção, nem um romance realista e engajado — meu caminho foi o oposto: desenvolver essas questões por meio da ficção e de suas vertentes mágicas e fantasiosas”, afirma. Embora reconheça que a escrita o ajudou a atravessar perdas pessoais, como a morte da mãe e um incêndio em seu apartamento, o autor ressalta que o sentido da obra só se completa no encontro com o leitor.
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Nascido em São Luís (MA), em 1950, Jozias Benedicto viveu grande parte da vida no Rio de Janeiro, passou por Brasília e, desde 2022, divide-se entre o Brasil e Lisboa. Formado em Tecnologia da Informação, atuou na área por quatro décadas antes de migrar definitivamente para as artes. Cursou duas pós-graduações na PUC-Rio — Literatura, Arte e Pensamento Contemporâneo (2014–2015) e Corpo e Palavra nas Artes da Cena e da Imagem (2021–2022) — e trabalhou como editor na Apicuri (2010–2016). Também atua como curador e produtor de textos críticos para exposições de arte e escreve crônicas e resenhas para o portal luso-brasileiro Estrategizando. Estreou na literatura em 2013 com Estranhas criaturas noturnas (Editora Apicuri) e, desde então, publicou nove livros, entre contos, poesia e romance. Acumula distinções como o Prêmio de Literatura do Governo de Minas Gerais, Prêmio Moacyr Scliar, Prêmio da Fundação Cultural do Estado do Maranhão e do Prêmio de Literatura do Estado do Pará, além de ter sido finalista do Prêmio Sesc de Literatura e do Prêmio LeYa Portugal com o romance agora lançado.


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