por Carlos Monteiro
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| Fotos de Carlos Monteiro |
Qual é a música afinal?
Dia
desses fui convidado por uns amigos para visitar um barzinho onde uma amiga do
casal, cantora de MPB, voz e violão, se apresentaria. Nada mais cara de
barzinho descolado e programa gostoso para um fim de tarde quente. A menina
tinha uma afinação perfeita e, como diria minha avó, uma voz maviosa, afora a
simpatia ímpar, com um ‘plus a mais’; cantava sem a famosa ‘dália’ eletrônica
formada por laptops, tablets ou até mesmo celulares. Tudo decorado tim-tim por
tim-tim, nota a nota, solfejo por solfejo. Impecável!
Lá pelas
tantas, talvez pela madrugada que já se prenunciara há mais de uma hora, ela
engrena Claudio Zoli e sua mais conhecida “Noite do Prazer”. Tudo ia muito bem
até que... “...Na madrugada vitrola rolando um blues / Trocando de biquíni sem
parar...”. Ri contidamente, pois quem nunca? Mesmo não tendo muito sentido
alguém passar a noite trocando de biquini, a sonoridade confunde com o nome do Mago
do blues e sua inseparável Lucille, apelido que carinhosamente batizou todas as
suas Gibson e a delícia de ‘ouvir B. B. King sem parar’.
Nada
disso maculou a apresentação impecável da menina/cantora, mas aguçou meu
pensamento para outros memoráveis desafios de ‘Cante a letra certa’ ou ‘Qual é
a música afinal’. Lembrei de alguns clássicos como “Malandragem”, da saudosa Cássia
Eller, onde o príncipe vira sapo e não ‘...Um chato / Que vive dando / No meu
saco...’ ou do “Oceano” de Djavan onde o deserto fica ‘amarelo’ em vez de "...Amar
é um deserto e seus temores...”. Vamos combinar que para Djavam tudo é possível;
letras cheias de simbologias intrínsecas em que até o deserto pode ter tremores
sendo amarelo, icterícia quem sabe.
Em tempos
nos quais a selvageria corre à solta, com essa onda monstruosa de feminicídios
e agressões descabidas às mulheres, a letra de “Homem Primata”, dos Titãs, cabe
bem na versão incorreta: "...Homem que mata! / Capitalismo selvagem... /
Ôoooo Ôooo Ô...!". Nem os primatas são capazes de tamanha frieza e
descalabros, transformando ‘ciúmes’ em agressões e assassinatos frios e
covardes.
Outra
clássica é “Chão de giz’ do amado Zé Ramalho, onde as "...Fotografias
recortadas / São de jornais de folhas, amiúde..." se tornam internacionais
em Hollywood ou a querida Pimentinha, que não foge à regra, em seu “Bêbado e o equilibrista”, que sonhava
“... com a volta do irmão do Henfil, do nosso amado Betinho, e não com um irmão
‘doentil’ ou ainda, em “Como Nossos Pais” onde há uma transformação
gastronômica: "...Mas é você, / Que é mal passado que e que não vê..."
ao invés de “...Mas é você, / Que ama o passado e que não vê...".
Na “Pintura
Íntima” de Kid Abelha o amor tem jeito de pirata ao invés de virada. Em “SOS
Solidão”, Lulu Santos canta “...SOS solidão...”, o que é bem óbvio, mas a
galera insiste em mandar uns pontos cardeais ‘Leste-Oeste solidão’. Para Cazuza
trocam o ‘puteiro’ por ‘chuveiro’. Imaginem o Brasil virando um banho geral,
talvez fosse até interessantes nestes tempos sombrios...
"Na rua,
na chuva, na fazenda" de Hyldon "jogar as suas mãos para o céu e a
cabeça se acaso tiver” pode ser prenuncio de valorizar a letra, nem que seja
com a insuperável dália eletrônica e até o TP.
Essa
história me faz lembrar uma viagem, nos anos 2000, para uma matéria especial,
que resolvemos jantar à beira do caminho, numa churrascaria dessas bem animadas.
A atração da noite era “fulano e seus teclados”. Muito modão, sertanejo e
alguns clássicos do cancioneiro popular. Lá pelas tantas, inovando o
repertório, ele resolve interpretar a obra-prima “Rosa” de Pixinguinha e Otávio
de Souza. Louvável se não fosse por uma “estaulta” logo no início.
São os
bailes da vida ou num bar em troca de pão, quem sabe a música?
Carlos Monteiro é fotógrafo, cronista e publicitário desde 1975, tendo trabalhado em alguns dos principais veículos nacionais. Atualmente escreve ‘Fotocrônicas’, misto de ensaio fotográfico e crônicas do cotidiano e vem realizando resenhas fotográficas do efêmero das cidades. Atua como freelancer para diversos veículos nacionais. Tem três fotolivros retratando a Cidade Maravilhosa.
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