Popular

Prefácio de um livro com Eduardo Lourenço | Heterodoxo – Sempre! – por Miguel Real

                                       

por Miguel Real

Eduardo Lourenço (1923-2020)

Poeiras da Filosofia XIV

Não só é uma maravilha, mas é aquilo que os homens gostariam de ser. Como as aves, não é? Através da linguagem. Isto é a ficção. Voar é realmente ficcionar. Ou ficcionar é voar, para a humanidade.

Eduardo Lourenço, Em Roda Livre

Diz o autor nesta entrevista a Luís de Barreiros Tavares, o homem é um ser de ficção.

Miguel Real, do Prefácio

Pela primeira vez se publica digitalmente o prefácio do livro: Eduardo Lourenço com Luís de Barreiros Tavares, Em Roda Livre, Prefácio de Miguel Real, DG Edições — MIL e Nova Águia, Lisboa, Março 2016, 73 p.

                                    Prefácio (por Miguel Real)


(EDUARDO LOURENÇO — COMENTÁRIO A ENTREVISTA DE LUÍS DE BARREIROS TAVARES)


                                                     HETERODOXO — SEMPRE!


Com a idade, Eduardo Lourenço tem refinado as constantes do seu pensamento: a questão da relação entre linguagem e realidade e o primado absoluto da primeira; a questão da representação “imagológica” da identidade nacional e do seu “irrealismo”; a questão do ensaísmo português como projecto individual com ecos sociais; a questão da “estranheza” da existência literária de Fernando Pessoa; a questão da impossibilidade filosófica de uma representação una do mundo; a questão da impossibilidade de uma representação fidedigna do sagrado…

A entrevista realizada por Luís de Barreiros Tavares a Eduardo Lourenço em 2012 sintetiza, de um modo dialogal, em tom jornalístico, o apuramento requintado daquelas questões. Como se constata pela sua leitura, Eduardo Lourenço, replicando a primeira intervenção pública em Heterodoxia I, de 1949, sessenta e três anos antes, a todas responde de um modo céptico, sem nos oferecer soluções definitivas, mesmo provisoriamente-definitivas, deixando o leitor em suspensão intelectual, forçando-o a pensar pela sua própria cabeça. Foi sempre esta a atitude mental do nosso grande pensador da segunda metade do século XX — a de transfigurar-se em arqueólogo da cultura e da história do pensamento português e europeu, a de desprezar a superfície e escavar fundo as nossas tradições aparentemente consensuais, esventrá-las, manifestando-lhes a sua origem delirante, a encantadora e deslumbrante arquitectónica do Quinto Império em padre António Vieira ou o tormento existencial de um Camões feito corpo-carne do Império metamorfoseado em livro, o narcisismo de um povo construtor de impérios, descobridor de mundos e inventor de metafísicas religiosas que, porém, se resignava, a partir do século XVIII, com uma sardinha dividida em três para alimento do corpo, sonhando mirificamente com a Europa do Bem, do Belo e da Prosperidade que, como o íman de uma utopia, tão próxima parecia estar quanto longínqua se encontrava. É o famoso ditame Laurentino do “irrealismo prodigioso dos portugueses”, tão irrealistas há 600 anos quando partimos para Ceuta armados de uma mentalidade de senhores medievais, quando a Itália e o Norte da Europa floresciam mercantilmente, quanto em 1975 passámos a certidão de óbito do Império como se estivéssemos a comer uma torrada na esplanada de um café, enfim, um pouco perturbados pela torrada se ter queimado excessivamente, mas não mais preocupados. Era como virar uma esquina, antes havia o Império, depois a Europa, nem um nem outro encarados de um modo “realista”. 

Se um papel Eduardo Lourenço desempenhou na representação social e cultural da segunda metade do século XX em Portugal, como a entrevista demonstra, foi a de se estatuir como o nosso grande ensaísta não-académico, aquele que, à imagem de Montaigne, estatui o pensamento como um ponto de partida e a inquirição mental (leitura e escrita) como uma viagem sem cais intermediários nem porto de chegada definitivo, uma viagem com itinerário inventado todos os dias. Heterodoxo sempre, desde 1949 até à actualidade, Eduardo Lourenço tem desmontado a totalidade dos mitos portugueses sem os substituir por novas e ilusórias grinaldas — fê-lo a Camões, demonstrando ser este o cantor de um Império mais sonhado do que havido, fê-lo a Antero de Quental, evidenciando ser a sua poesia o cântico de valores absolutos já então ocos de realização social, a Fernando Pessoa, mostrando-lhe as facetas incógnitas de um desconhecido de si mesmo, a António Sérgio, grão-fino de um pensamento recauchutado neo-kantiano superado em França, à revista Presença, cantora de um serôdio modernismo lírico, ao colonialismo português invisível porque inconsciente, fê-lo ao marxismo como dono e senhor de uma dialéctica absolutista da sociedade…, fê-lo, enfim, à própria noção de História, sarcófago do cúmulo de alucinações humanas cujos rastos e restos tanto se contam tragicamente por milhões de corpos ensanguentados quanto liricamente pelas mais maravilhosas e benignas descobertas e invenções. 

Em Fátima, no Festival Literário “Tabula Rasa”, em novembro de 2015, organizado por Renato Epifânio, tive a oportunidade (o privilégio e a honra) de apresentar Eduardo Lourenço como o nosso Cioran, o crítico e demolidor filósofo romeno-francês cuja obra transformou o Homem da Civilização Ocidental num cadáver cujo chocalhar de ossos teria trucidado os costumes e as tradições das restantes civilizações ao longo de 2000 anos. Estava errado e disso peço desculpa a Eduardo Lourenço. Se o pensamento de Eduardo Lourenço tem em comum com o de Cioran a desconstrução dos mitos europeus, “ocidentais”, e a patenteação da ilusoriedade constitutiva de toda a teoria que se proponha como dogmática, afasta-se deste, porém, quanto ao grau de denúncia e crítica. Eduardo Lourenço é um homem amável e convivente, não um solitário como Cioran; possui um pensamento doce, ainda que analítico e crítico, desconstrói sem ofender e os seus livros não são conspurcados pelo mais vigoroso sentimento que anima a obra de Cioran — o ressentimento, o rancor, o desprezo do homem pelo homem. É verdade que lendo ambos sentimo-nos no estado brandoniano de “sem tecto entre ruínas”, ou no estado pessoano labiríntico de um “novelo com a ponta virada para dentro”. Cioran, porém, transmite a vontade de nos suicidarmos com um trágico e fulminante tiro na cabeça, destruindo-nos no tempo de um relâmpago; com Lourenço, sentimos vontade de continuar a sonhar, de criar teorias fantasmagóricas que ilusões são e outra coisa não são que ilusões senão que são belas, harmoniosas, porventura líricas, mormente lunáticas, talvez utópicas, mas, no fundo, são humanas porque, diz o autor nesta entrevista a Luís de Barreiros Tavares, o homem é um ser de ficção. É uma diferença de tomo a favor de Eduardo Lourenço. 

Como diria Mao Tsé Tung, o seu oposto absoluto, longa vida a Eduardo Lourenço!


Miguel Real, 

Quinta de Santo Expedito, Colares/Sintra, 

1 de janeiro de 2016.



Frame da filmagem da entrevista (Jardim Gulbenkian — 2012 — filmado por Milá, Maria dos Milagres)



Poeiras da Filosofia XIII
: Prefácio de um livro sobre Amadeo de Souza-Cardoso

Luís de Barreiros Tavares, Amadeo de Souza-Cardoso — A Força da Pintura (arte, ressonâncias modernas e contemporâneas), Prefácio de José Martinho, Ed. MIL, Lisboa, 2017, 126 p. (28 ilustrações). 

Vídeo da entrevista: Eduardo Lourenço — Em Roda Livre — com Luís de Barreiros Tavares


*Textos coligidos por Luís de Barreiros Tavares



Miguel Real é o pseudónimo literário de Luís Martins (1953 -). Escritor, ensaísta e professor de filosofia. Recebeu o Prémio Revelação de Ficção da APE/IPLB, em 1979, com O Outro e o Mesmo. Em 2006, conquistou o Prémio Literário Fernando Namora com o romance A Voz da Terra. Licenciado em Filosofia pela Universidade de Lisboa e Mestre em Estudos Portugueses pela Universidade Aberta, com uma tese sobre Eduardo Lourenço. Foi colaborador do JL, Jornal de Letras, Artes e Ideias onde faz crítica literária, até à sua extinção (16/07/2025). Colaborou no programa de rádio Um Certo Olhar, da Antena 2, apresentado por Luís Caetano, com nomes como Maria João SeixasLuísa Schmidt e Carla Hilário Quevedo. (dados recolhidos de Wikipédia)