por Raphael Cerqueira Silva |
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| Foto de Irina Iacob na Unsplash |
— Mãe, tá na hora? A gente já vai, pai?
Afoitas, as perguntas zanzavam pela casa comigo. No encosto da cadeira, a fantasia repousava. Pra não amassar, advertira a mãe.
Quando o sol, enfim, tomava a rua, bulindo nos matos e nos telhados, o pai comunicou: Vou tirar o carro. Passou a mão nas chaves, jogou a camiseta no ombro, saiu. A mãe ajeitou meu cabelo, deu um laço na capa.
— Pronto.
Desembestei a correr e a pular nos sofás que, àquela altura, já eram enormes nuvens. A cada salto, a capa esvoaçante me levava mais e mais longe enquanto o vento bagunçava meu penteado. A mãe fechava as janelas, sempre preocupada com o tempo “que pode virar e molhar tudo”.
Eu avoava, alto e avante, deixando campos e mares para trás, atravessando a estratosfera, cruzando o espaço sideral para brincar de pique-esconde com as estrelas. Com aquela fantasia, deixava de ser menino: agora, era um intrépido super-herói, pronto a desbravar galáxias e vencer qualquer inimigo.
Essa fantasia merece um aparte. Quando entramos na loja, lembro bem, a mãe dissera: Escolhe uma. Carros e ônibus rugiam na avenida; o sino da catedral bimbalhava para a missa. Meus dedos correram pelos cetins coloridos, toquei as roupas nos cabideiros... até bater os olhos no manequim:
— Esta! A do Super-Homem!
E feito o Homem de Aço, desci os degraus. Devagar pra não cair, recomendou a mãe. No fundo do quintal, nosso pastor-alemão já gania de saudades. O pai passava a corrente no portão. Aproveitei para dar voltas no Chevette, parado no meio da rua.
— Fica quietinho pra tirar um retrato.
A mãe ligava a Yashica pendurada no pescoço. O pai interrompeu minha viagem pela órbita de Saturno, içando-me com seus braços fortes. Sentado no capô, fiz pose.
— Olha o passarinho! — disse ele, rindo.
Flash.
Entramos.
— Bota essa daí! — apontei para o porta-luvas aberto.
O pai tirou a fita da capinha, aumentou o volume.
— Demora chegar? — perguntei num quase-grito, para que minha voz vencesse os agudos da Simony.
— É pertinho — disse a mãe.
O Chevette dobrou à esquerda, passou o pontilhão, cruzou os trilhos do trem, desviou da carroça que, lentamente, levava um sofá rasgado e um vaso de comigo-ninguém-pode.
— Tá chegando?
O pai mandou sentar e sossegar o facho. A contragosto, obedeci. Noutras vezes, a mãe já alertara: ele não suportava conversa enquanto dirigia.
Meu mocinho, meu cowboy / Sonha um sonho por inteiro...
— Vai demorar?
— Não! — o pai resmungou.
E realmente não demorou. Em poucos minutos, eu aprenderia: alegria é passageira; felicidade, promessa de canção infantil. No final das contas, a mãe estava certa: mesmo com tanto sol, o tempo pode virar e, quando vira, desaba o maior toró.
O carro parou diante do clube. Das janelas escapavam marchinhas, serpentinas, gritinhos da criançada. A mãe desceu, empurrei a poltrona.
— Calma...— ela disse sorrindo.
Indiozinhos e piratas, marinheiros e ciganinhos, homens descamisados e mulheres de colares havaianos se esbarravam no corredor estreito. E esbarravam em mim. Segurei a mão da mãe. À frente, o pai sorria e acenava, cumprimentando todo mundo.
Desgovernado, o Zorro desceu da galeria, por pouco não entornou bebida em mim. O líquido amarelado respingou na parede e espalhou pelo piso de tacos coberto de confetes.
Allah-La-Ô ô ô ô ô / Mas que calor ô ô ô...
As pessoas cantavam, indicadores — sei lá por quê — apontando para o teto. Desengonçado, o He-Man com um casco de cerveja escapou por um triz do trenzinho de palhaços que cruzava o salão trombando nos foliões.
Agarrei ainda mais a mãe. Ali, no meio da multidão, o Super-Homem se ressabiou e se acovardou.
Você pensa que cachaça é água...
Não conseguia ouvir a mãe. O pai insistia, com gestos, me chamando para dançar.
Cachaça não é água não…
Recusei com a cabeça. Não queria desgrudar da mãe. A Mulher-Maravilha passou, confetes rosados tombaram em meus cabelos. Quando me livrei deles, o pai estava no balcão do bar, rindo e gesticulando com dois bigodudos. Ao voltar, me encarou:
— Se é pra ficar emburrado assim, vamo pra casa.
Não entendi o que a mãe falou, mas vi as sobrancelhas dele contraírem, o tom da voz alterar:
— Se vai ficar que nem mulherzinha agarrado na saia da mamãe, melhor ir embora.
Súbito, suas mãos ásperas de tanto conduzir as máquinas da Rede Ferroviária me puxaram salão afora.
Tanto riso, oh quanta alegria…
Passamos pelo corredor, onde uma pluma alaranjada se embebedava do líquido derramado pelo Zorro. Olhei para trás: a mãe nos seguia, calada. Tropecei numa sapatilha arrebentada.
— Anda! — o pai vociferou, me puxando com mais força.
Ó jardineira, por que estás tão triste / Mas o que foi que te aconteceu...
A porta bateu.
— Eu falei pra não gastar dinheiro com fantasia. Tava adivinhando que ia me aborrecer.
O motor rosnou, os pneus cantaram em desarmonia com as marchinhas.
— Não fico um dia sem passar raiva, que merda! — ele gritava e socava o volante.
A mão da mãe procurou a minha entre as poltronas, enquanto seus olhos caçavam qualquer coisa na rua.
Na porta de casa, o carro parou bruscamente. Quase fui lançado em cima do freio de mão.
— Nunca mais faço papel de besta, não volto mais lá! — ele bradou, tirando a chave da ignição. — Puta que pariu, a gente não tem um minuto de paz!
Me puxou casa adentro. Chutou o tamborete, arreganhou a porta da cozinha. Me empurrando contra o muro do quintal, ignorou os festejos do cachorro:
— Vai deitar!
— Calma... — pediu a mãe.
— Calma é o escambau! Vai pra dentro!
Ela acatou o comando.
O suor escorria da minha testa e se misturava às lágrimas.
— Tira a merda dessa roupa! — ordenou, entrando na cozinha.
O Super-Homem, como sob efeito da Kryptonita, perdeu toda a reação. O pai me encontrou grudado no muro, petrificado. Largou a caixa de fósforos na janela, avançou para cima de mim. Suas mãos descomunais rasgavam e arrancavam a capa, a camiseta, o short, os tênis. Urrava me xingando de nomes que eu nunca ouvira.
O pastor, orelhas e rabo murchos, escondeu-se na casinha.
Quando não restava uma peça de cetim, fui empurrado. Meu corpo tremia diante daquele homem. Com os pés, ele juntou os destroços da fantasia num montinho. Ateou fogo. O S vermelho se contraiu como serpente e virou cinza no instante seguinte.
— Pra você nunca mais me fazer de besta! — sua voz me fuzilou.
Tentei escapulir, ele me deteve.
— Fica, porra, e para de chorar!
O sol judiava do meu corpo quase nu — só a cuequinha sobrara naquela tarde. Inclemente e voraz, o fogo consumia os restos da fantasia. Quando tudo virou nada, aquele homem me empurrou porta adentro, talvez farto de tanto berrar e me esculhambar.
— Some da minha vista, some!
Sem olhar para trás, corri para o quarto.
Encostada na cama, a mãe tentava esconder as lágrimas. Aconchegou-me em seus braços. Passando a mão trêmula no meu cabelo suado, a voz embargada, cantarolou baixinho:
Perguntei pro céu, perguntei pro mar, pro mágico chinês / Mas parece que ninguém sabe aonde a felicidade resolveu de vez morar.
Raphael Cerqueira Silva, é mineiro de São Geraldo, servidor público, graduado em Direito e História, e cronista nas revistas Vicejar e Conhece-te. Publicou Confissões, livro de contos, e A Vida Segue, livro de crônicas.


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