NOTAS SOBRE SINTAXE, RELATIVISMO E ARTIFICIALIDADE LINGUÍSTICA

 

Foto de Andy Kennedy na Unsplash

NOTAS SOBRE SINTAXE, RELATIVISMO E ARTIFICIALIDADE LINGUÍSTICA

Ariel Montes Lima

RESUMO: O presente ensaio aborda a relação entre linguagem e realidade, focalizando a artificialidade sintática na representação linguística. Utilizando uma abordagem teórico-filosófica com base em pesquisa bibliográfica e análise de corpus, examino a intransparência do sistema linguístico, especialmente na subordinação de orações em português. Destaco a influência da sintaxe na simbolização da realidade através da linguagem. Os resultados apontam para a limitação das estruturas linguísticas na interação sujeito-realidade e a relativização das percepções, evidenciando a importância da análise sintática na compreensão da representação linguística da realidade.

Palavras-chave: Realidade. Representação. Artificialidade. 

1.INTRODUÇÃO

O problema da representação linguística da realidade e a suposta transparência do sistema idiomático é um dos temas de interesse dentro das pesquisas linguísticas. Mais do que isso, contudo, a própria acepção acerca da existência ou não do externo ao eu desponta como um tema de interesse dos estudos linguísticos. 

Desse modo, o presente artigo busca analisar a relação entre a estrutura linguística e a representação da realidade. Para tanto, realizo uma abordagem teórico-filosófica respaldada na pesquisa bibliográfica e análise de corpus

Como objetivo, pretendo discutir a intransparência do sistema da língua (com foco no português), dentro do recorte da subordinação de orações. Evidencio que a sintaxe-dentro da cadeia constitutiva da linguística sistêmico-funcional-parece se destacar no que diz respeito à forma como se simboliza a realidade por meio do uso linguageiro. 

2.DESENVOLVIMENTO

In primo loco, é mister assumir que a língua emerge enquanto uma construção social sujeita a evoluções ao longo do tempo, revelando subjacências culturais, valores e mentalidades presentes em uma comunidade (LIMA, 2023). Nesse sentido, a língua se mostra atravessada por uma relação de artificialidade inerente. Isso se refere às convenções e normas que são estabelecidas para a comunicação, mas que também podem limitar a expressão individual.

Dessa forma, a relação estabelecida entre sujeito e realidade encontra-se perpassada por ambiguidades, afinal, em um primeiro plano, a língua atua diretamente na forma como o humano (inter)atua com o mundo. 

Não quero afirmar, “a priori”, que a ‘realidade’ está dentro da língua e exclusivamente dentro dela. Afirmo, isto sim, que a realidade aparece exclusivamente em forma de língua. A língua, venha ela de fora ou de dentro, significa a realidade, pois, ela é, em seu conjunto, um sistema de símbolos que significam a realidade. Tudo o que os sentidos externos e o sentido introspectivo nos fornecem precisa vestir--se em trajes lingüísticos para ser apreendido e compreendido (FLUSSER, 1962, p.  71).

Por outro lado, as estruturas estabelecidas pela língua-enquanto sistema estruturado de signos- implica determinadas coerções acerca do que é (ou não) dizível em um idioma.  Isso implica assumirmos que, se por um lado, a faculdade do simbólico impressa na língua (BENVENISTE, 2005) também lega ao sujeito, um input de “caminhos cognitivos” anteriormente estabelecidos. 

Com efeito, o que observo é que o exercício de uma análise efetiva a respeito da funcionalidade da língua em sua aproximação com o real está, necessariamente, obstaculizada pelo modus pensandi estabelecido. Afinal, se olhamos para o sistema, apagamos o uso da língua. Se nos enfocamos no uso, apagamos o sistema (LIMA, 2023). 

Nesse ínterim, destaco ainda que a língua desempenha um papel crucial na mediação da experiência do mundo. Afinal, essa não apenas descreve a realidade, mas também a interpreta e a molda de acordo com os contextos culturais e sociais (OCKER, 2022, p. 37). 

Sem embargo, o referido processo não ocorre somente mediante a nominalização dos entes do mundo, como tem sido amplamente explorado pelos relativistas como Zavaglia e Martins (2016), Ferreira e Mozzillo (2021). Afinal, como destaca Bakhtin (2011) a língua se manifesta em sua função comunicativa. Estão, portanto, as palavras, em alguma medida, submetidas a seu emprego, tal que a representação nominal dos entes do mundo não ocorre, senão, enquanto uma abstração.  

Assim, me parece que a sintaxe é o campo em que as manifestações do sistema se tornam mais claras na sua relação com o que o falante diz a respeito do mundo que o engloba, afinal, a hierarquização de sentenças gramaticalmente estruturadas pode ser considerada uma das características que distinguem os seres humanos dos demais primatas (HAUSER; CHOMSKY; FITCH, 2002). Apresentamos abaixo dois exemplos que procuram aclarar a relação estabelecida. 

O primeiro exemplo mostra como a recursividade altera o contexto do que se diz, sem afetar a informação principal. Neste caso, mantive a frase sempre em ordem direta (SVO)

  1. Eu vi o Pedro

Eu vi o Pedro ontem.

Eu vi o Pedro ontem sozinho.

Eu vi o Pedro ontem sozinho em casa.

Eu vi o Pedro ontem sozinho em casa pela janela.

Eu vi o Pedro ontem sozinho em casa pela janela do meu quarto.

Eu vi o Pedro ontem sozinho em casa pela janela do meu quarto no escuro.

Eu vi o Pedro ontem sozinho em casa pela janela do meu quarto no escuro depois de jantar.

No segundo exemplo-que abaixo reproduzo-emprego outra forma de estruturação. Nesta sequência, proponho uma cadeia de relatos, entre os quais está circunscrita a informação principal. 

  1. Ele me viu. 

Ela disse que ele me viu. 

Ela disse que você disse que ele me viu.

Ela disse que você disse que Ana disse que ele me viu.

Foi possível observar que quanto mais próximo o sujeito do objeto, mais clara a informação se torna. Notamos, com isso, que a língua não reflete a realidade, pois sua própria estrutura implica concepções e informatizações comunicacionais gramatical e subjetivamente estruturadas, tal que sua própria estrutura lega coerções comunicativas aos seus falantes. 

3.CONCLUSÃO

A título de conclusão, apresento algumas considerações a respeito do problema trabalhado: 1) A experiência de interação entre sujeito e realidade é limitada pelas estruturas linguísticas; 2) A nominalização dos entes da realidade é menos relevante do que a enunciação das percepções a seu respeito, que se encontram regimentadas pela sintaxe; 3) A relação comunicacional-princípio das línguas naturais-imprime a relativização das percepções da realidade. 



REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BAKHTIN, Mikhail Mikhailovich. Estética da criação verbal. Martins fontes, 2011.

BENVENISTE, Émile. "Problemas de linguística geral I." Problemas de linguística geral I. 1991. 387-387.

FERREIRA, Renan Castro; MOZZILLO, Isabella. "Transferência conceitual: o relativismo linguístico na aprendizagem de segunda língua." Alfa: Revista de Linguística (São José do Rio Preto) 65 (2021): e12799.

FLUSSER, Vilém. "Ensaio para um estudo do significado ontológico da língua." Revista brasileira de filosofia 12.45 (1962): 69-90.

HAUSER, Marc D.; CHOMSKY, Noam, FITCH, W. Tecumseh. "The faculty of language: what is it, who has it, and how did it evolve?." science 298.5598 (2002): 1569-1579.

LIMA, Ariel Montes. "O SENTIDO E SUA NATUREZA." História em Curso 5.8 (2023): 169-193.

OCKER, Ariel Von. Sínteses: Entre o Poético e o Filosófico. Worges Editoração. (2022): 37. 

ZAVAGLIA, Claudia; MARTINS, Sabrina de Cássia. "Simetrias e assimetrias na representação linguística: o caso das unidades lexicais formadas por nomes de cores." Revista do GEL 13.1 (2016): 11-30.




Ariel Montes Lima é mestre e doutoranda em Estudos de Linguagem (PPGEL-UFMt). Autora dos livros Poemas de Ariel (TAUP, 2022), Sínteses: Entre o Poético e o Filosófico (Worges Ed., 2022), Ensaios Sobre o Relativismo Linguístico (Arche, 2022), Poemas da Arcádia (Caravana, 2023), Silêncios: Duros Silêncios (Worges, 2024), O Inominado ou A Descoberta do Mundo (TAUP, 2024), Liberdades (2025), Contos Femininos (Worges, 2025) e Histórias do Casarão (Worges, 2025).