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Arraia-ralé, de Adriano Espíndola Santo | Resenha

por Taciana Oliveira |



Em Arraia-ralé, Adriano Espíndola Santos elabora um romance que investiga a persistência das desigualdades sociais no Brasil e os mecanismos frequentemente naturalizados que sustentam a exclusão, o racismo e a violência simbólica no cotidianoPublicada pela Editora Urutau, a obra articula múltiplos núcleos narrativos para examinar as relações de classe, raça, poder e pertencimento, evidenciando a permanência de práticas excludentes e autoritárias sob a aparência da normalidade.

O romance se estrutura a partir do contraste entre universos sociais profundamente assimétricos. De um lado, personagens oriundos das classes privilegiadas, imersos em discursos de mérito, superioridade e falsa neutralidade moral; de outro, sujeitos historicamente marginalizados, migrantes, trabalhadores precarizados, estudantes negros e pobres, cujas experiências revelam a face violenta e silenciosa do pacto social brasileiro. Essa tensão atravessa toda a narrativa, configurando Arraia-ralé como um romance de confronto, no qual o conflito não se resolve, mas se acumula. A personagem Renata ocupa posição central na obra. Proveniente de um meio social confortável, ela passa por um processo de desestabilização ética ao entrar em contato com realidades que lhe haviam sido sistematicamente ocultadas. Sua trajetória traduz o embate entre consciência social e herança de classe, revelando os limites da empatia quando esta se choca com estruturas históricas arraigadas. Renata não surge como figura redentora, mas como sujeito em tensão permanente, atravessado por contradições e dilemas que refletem a dificuldade de romper com privilégios internalizados.

Em contraponto, personagens como Maria, migrante nordestina, carregam a memória da seca, da precarização do trabalho e do abandono estatal. Sua presença no romance destaca a centralidade do deslocamento forçado como marca constitutiva da formação social brasileira. A narrativa de Maria inscreve no texto a experiência do sertão e da exclusão, conectando espaços geográficos distintos através da continuidade da desigualdade e da violência simbólica. Figura emblemática da opressão cotidiana, Jovanir, o síndico autointitulado “doutor”, encarna o autoritarismo de classe e o racismo institucional. Sua atuação revela de que forma o poder se manifesta não apenas pela força explícita, mas sobretudo pela linguagem, pela intimidação e pela naturalização da hierarquia. A violência exercida por esse personagem é menos episódica do que estrutural, funcionando como síntese das relações sociais que o romance se propõe a expor.


Do ponto de vista formal, Arraia-ralé adota uma linguagem marcada pela oralidade, pelo fluxo discursivo intenso e pelo entrecruzamento de registros. O texto alterna momentos de narração com longos trechos de fala direta, aproximando o leitor da experiência subjetiva dos personagens e reforçando o caráter testemunhal da obra. Essa escolha estilística não visa à neutralidade, mas ao engajamento: o romance convida o leitor a ocupar uma posição ética diante do que é narrado. Temas como racismo, desigualdade social, migração, violência simbólica, educação como instrumento de emancipação e a persistência do pensamento eugenista atravessam o livro. A experiência universitária e escolar, por exemplo, aparece como espaço ambíguo: simultaneamente reprodutor de preconceitos e potencial terreno de conscientização crítica, como evidenciam os episódios envolvendo discriminação racial e posterior mobilização coletiva.


O título Arraia-ralé opera como conceito-chave da obra. Ao evocar aqueles situados na base da hierarquia social, frequentemente vistos como descartáveis ou invisíveis, o romance questiona os mecanismos que sustentam a exclusão e denuncia a hipocrisia de uma sociedade que se mantém sobre a negação da dignidade humana. A “ralé” não aparece como massa homogênea, mas como conjunto de sujeitos complexos, portadores de histórias, afetos e resistências. Em síntese, o romance se afirma um romance de compromisso político e social, alinhado a uma tradição crítica da literatura brasileira que recusa a conciliação fácil e aposta na exposição das fraturas nacionais. Ao desenhar personagens em conflito permanente com estruturas de poder, o cearense Adriano Espíndola Santos desenvolve uma obra que não apenas representa a desigualdade, mas a interroga, convidando o leitor a refletir sobre seu papel na manutenção, ou ruptura, dessas dinâmicas.

 

O livro questiona a lógica que transforma pessoas em descartáveis e denuncia uma sociedade que se sustenta na negação da dignidade alheia. Arraia-ralé é, assim, uma obra que incomoda por sua frontalidade e por sua recusa ao conforto moral. Ao expor as fraturas sociais brasileiras sem atenuantes, ratifica a literatura em um espaço de confronto, memória e crítica, um lugar onde olhar de frente para o país que somos ainda é um gesto necessário.



Adriano Espíndola Santos é natural de Fortaleza, Ceará. Em 2018 lançou seu primeiro livro, o romance “Flor no caos”, pela Desconcertos Editora; em 2020 os livros de contos, “Contículos de dores refratárias” e “o ano em que tudo começou”, e em 2021 o romance “Em mim, a clausura e o motim”, estes pela Editora Penalux. Colabora mensalmente com as Revistas Mirada, Samizdat e Vício Velho. Tem textos publicados em revistas literárias nacionais e internacionais. É advogado civilista-humanista, desejoso de conseguir evoluir — sempre. Mestre em Direito. Especialista em Escrita Literária e em Revisão de Textos. Membro do Coletivo de Escritoras e Escritores Delirantes. É dor e amor; e o que puder ser para se sentir vivo: o coração inquieto. instagram: @adrianoespindolasantos | Facebok:adriano.espindola.3 email: adrianoespindolasantos@gmail.com




Taciana Oliveira — Natural de Recife–PE, Bacharel em Comunicação Social (Rádio e TV) com Pós-Graduação em Cinema e Linguagem Audiovisual. Roteirista, atua em direção e produção cinematográfica, criadora das revistas digitais Laudelinas e Mirada, e do Selo Editorial Mirada. Dirigiu o documentário “Clarice Lispector — A Descoberta do Mundo”. Publicou Coisa Perdida (Mirada, 2023) livro de poemas.