por Taciana Oliveira |
Em contraponto, personagens como Maria, migrante nordestina, carregam a memória da seca, da precarização do trabalho e do abandono estatal. Sua presença no romance destaca a centralidade do deslocamento forçado como marca constitutiva da formação social brasileira. A narrativa de Maria inscreve no texto a experiência do sertão e da exclusão, conectando espaços geográficos distintos através da continuidade da desigualdade e da violência simbólica. Figura emblemática da opressão cotidiana, Jovanir, o síndico autointitulado “doutor”, encarna o autoritarismo de classe e o racismo institucional. Sua atuação revela de que forma o poder se manifesta não apenas pela força explícita, mas sobretudo pela linguagem, pela intimidação e pela naturalização da hierarquia. A violência exercida por esse personagem é menos episódica do que estrutural, funcionando como síntese das relações sociais que o romance se propõe a expor.
Do ponto de vista formal, Arraia-ralé adota uma linguagem marcada pela oralidade, pelo fluxo discursivo intenso e pelo entrecruzamento de registros. O texto alterna momentos de narração com longos trechos de fala direta, aproximando o leitor da experiência subjetiva dos personagens e reforçando o caráter testemunhal da obra. Essa escolha estilística não visa à neutralidade, mas ao engajamento: o romance convida o leitor a ocupar uma posição ética diante do que é narrado. Temas como racismo, desigualdade social, migração, violência simbólica, educação como instrumento de emancipação e a persistência do pensamento eugenista atravessam o livro. A experiência universitária e escolar, por exemplo, aparece como espaço ambíguo: simultaneamente reprodutor de preconceitos e potencial terreno de conscientização crítica, como evidenciam os episódios envolvendo discriminação racial e posterior mobilização coletiva.
O título Arraia-ralé opera como conceito-chave da obra. Ao evocar aqueles situados na base da hierarquia social, frequentemente vistos como descartáveis ou invisíveis, o romance questiona os mecanismos que sustentam a exclusão e denuncia a hipocrisia de uma sociedade que se mantém sobre a negação da dignidade humana. A “ralé” não aparece como massa homogênea, mas como conjunto de sujeitos complexos, portadores de histórias, afetos e resistências. Em síntese, o romance se afirma um romance de compromisso político e social, alinhado a uma tradição crítica da literatura brasileira que recusa a conciliação fácil e aposta na exposição das fraturas nacionais. Ao desenhar personagens em conflito permanente com estruturas de poder, o cearense Adriano Espíndola Santos desenvolve uma obra que não apenas representa a desigualdade, mas a interroga, convidando o leitor a refletir sobre seu papel na manutenção, ou ruptura, dessas dinâmicas.
O livro questiona a lógica que transforma pessoas em descartáveis e denuncia uma sociedade que se sustenta na negação da dignidade alheia. Arraia-ralé é, assim, uma obra que incomoda por sua frontalidade e por sua recusa ao conforto moral. Ao expor as fraturas sociais brasileiras sem atenuantes, ratifica a literatura em um espaço de confronto, memória e crítica, um lugar onde olhar de frente para o país que somos ainda é um gesto necessário.
Adriano Espíndola Santos é natural de Fortaleza, Ceará. Em 2018 lançou seu primeiro livro, o romance “Flor no caos”, pela Desconcertos Editora; em 2020 os livros de contos, “Contículos de dores refratárias” e “o ano em que tudo começou”, e em 2021 o romance “Em mim, a clausura e o motim”, estes pela Editora Penalux. Colabora mensalmente com as Revistas Mirada, Samizdat e Vício Velho. Tem textos publicados em revistas literárias nacionais e internacionais. É advogado civilista-humanista, desejoso de conseguir evoluir — sempre. Mestre em Direito. Especialista em Escrita Literária e em Revisão de Textos. Membro do Coletivo de Escritoras e Escritores Delirantes. É dor e amor; e o que puder ser para se sentir vivo: o coração inquieto. instagram: @adrianoespindolasantos | Facebok:adriano.espindola.3 email: adrianoespindolasantos@gmail.com
Taciana Oliveira — Natural de Recife–PE, Bacharel em Comunicação Social (Rádio e TV) com Pós-Graduação em Cinema e Linguagem Audiovisual. Roteirista, atua em direção e produção cinematográfica, criadora das revistas digitais Laudelinas e Mirada, e do Selo Editorial Mirada. Dirigiu o documentário “Clarice Lispector — A Descoberta do Mundo”. Publicou Coisa Perdida (Mirada, 2023) livro de poemas.


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