Ficção científica YA revisita a ditadura em Projeto Futuro, de Danilo Heitor
No romance Projeto Futuro, o escritor paulistano Danilo Heitor articula ficção científica, memória política e protagonismo juvenil para revisitar um dos períodos mais violentos da história brasileira: a ditadura militar. Voltado ao público jovem-adulto, o livro acompanha Soraia e Leilane, duas adolescentes no fim do ensino médio que descobrem estar diante de um experimento secreto iniciado durante o regime e reativado no presente em uma instituição científica.
A trama se desenrola quando as jovens percebem que o pai de Soraia, coordenador de Física em um Instituto de Pesquisa e Tecnologia, está ligado a um projeto que, décadas atrás, utilizava presos políticos como cobaias. O mais perturbador é que, sob novas alianças e interesses internos, a iniciativa volta a ser colocada em prática, revelando a permanência de estruturas autoritárias e a fragilidade ética das instituições. À medida que aprofundam a investigação, Soraia e Leilane compreendem que podem expor ao mundo a verdade por trás do chamado Projeto Futuro. Para isso, precisarão elaborar um plano capaz de interferir não apenas no presente, mas também no passado e no futuro, enfrentando riscos pessoais, dilemas morais e a tensão entre legalidade e justiça.
Filho de militantes perseguidos pela ditadura, Danilo Heitor constrói a narrativa a partir de uma relação íntima com o tema dos desaparecidos políticos. O livro presta homenagem à Rosalina Santa Cruz e a seu irmão, Fernando Santa Cruz, sequestrado e desaparecido pelo Estado brasileiro. “O tema dos desaparecidos políticos sempre me foi muito caro. Cresci cercado por histórias de amigos e conhecidos dos meus pais que foram presos, torturados, mortos ou nunca mais voltaram”, afirma o autor.
A ficção científica surge como ferramenta central do romance, especialmente por meio do elemento da viagem no tempo, que permite tensionar passado e presente e discutir o uso político da ciência. Influenciado por autores como Ursula K. Le Guin, Octavia Butler e Ignácio de Loyola Brandão, Danilo utiliza o gênero para imaginar cenários extremos capazes de iluminar questões sociais concretas. “A ficção científica me permite imaginar cenários extremos para discutir questões sociais e políticas muito concretas”, explica.
O protagonismo de duas meninas adolescentes também é uma escolha deliberada. Professor da rede pública em São Paulo, o autor se inspira na experiência em sala de aula para criar personagens críticas, curiosas e atentas às estruturas ao redor. “Sempre foram as meninas as mais questionadoras, as mais interessadas. Para mim, fazia todo sentido que fossem elas as protagonistas dessa história”, diz.
Desenvolvido de forma intensa e coletiva, Projeto Futuro teve um processo de escrita singular: embora a concepção tenha levado quase um ano, o texto foi escrito em apenas dez dias, em um ritmo de um capítulo por dia, acompanhado por um grupo de leitores que comentava e sugeria caminhos para a trama. “Escrever, para mim, é sempre um ato coletivo”, resume Danilo.
Além da denúncia histórica, o romance aborda temas como amizade, amadurecimento, luto, ética científica e a urgência de questionar estruturas de poder. A obra se sustenta sobre uma pergunta central: diante de crimes contra a humanidade, é legítimo romper regras e convenções sociais, ou devemos confiar nas instituições mesmo quando elas estão comprometidas com a violência?
Disponível atualmente em formato digital, Projeto Futuro concorre ao Prêmio Kindle de Literatura Jovem. Caso seja selecionado, será publicado pela HarperCollins. Caso contrário, o autor planeja lançar uma edição física por sua própria editora, País Nenhum, criada em 2025 visando publicar obras e perspectivas do Sul Global. Com suspense gradual e atenção às relações interpessoais, Danilo Heitor entrega um romance que revisita o passado para lançar perguntas urgentes sobre o presente e sobre o tipo de futuro que estamos dispostos a aceitar.
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Danilo Heitor é professor de Geografia, escritor e editor. Nascido e criado em São Paulo, formou-se em Geografia pela Universidade de São Paulo (USP) em 2009 e atua há mais de 15 anos na área da educação, com passagem por redes públicas e privadas, editoras e projetos comunitários. Sua trajetória no ensino e no movimento cultural independente atravessa diretamente sua produção literária, marcada pelo interesse em questões sociais, políticas e pelo uso da ficção especulativa como ferramenta crítica. “Minha trajetória na educação e no movimento cultural independente sempre alimentou minha escrita, que busca dialogar com a realidade social”, afirma. É autor de outros três livros de ficção científica e foi finalista do Prêmio Odisseia de Literatura Fantástica em 2024 e 2025. Também coorganizou o festival literário Relampeio e fundou a editora País Nenhum, criada em 2025 com foco na publicação de obras de ficção especulativa e autorias do Sul Global.



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