Trecho do capítulo “Os Amaral Grandi” do livro Flores Astrais, de Marcelo Nery
Os Grando chegaram ao Brasil por volta de 1870, fugidos da guerra Franco-Prussiana. De quebra, trocaram o nome para Grandi — maquiagem linguística para afastar velhos desafetos políticos. O Brasil, sedento por embranquecer suas estatísticas, abriu a porteira: terras baratas, café em alta e recepção calorosa que cheirava a escravidão prestes a caducar. Os Grandi prosperaram rápido, mas o sangue libertário não ficou na alfândega. Em noites de lampião baixo, financiavam panfletos, escondiam fugitivos e conspiravam ao lado de Joaquim Nabuco e José do Patrocínio. Coerência rara: senhores de fazenda bancando o fim da senzala. Em 1881, com a República acendendo a brasa, nasceu Rita Amaral Grandi.
Foi educada no internato católico de Ouro Verde, em homenagem à mãe, “Violeta Amaral Grandi”. Sua irmã Augusta nasceu em 1893 e, anos depois, seus pais faleceram. Rita herdou fazenda e irmã — responsabilidade cedo demais. Resultado: pulso endurecido por obrigação.
Augusta, de semblante e gestos firmes, sabia cravar a sapatilha onde feria mais. Aos seis anos, demonstrou o talento para a amargura ao recusar ajuda de uma jovem criada.
— Num quero essa neguinha no meu quarto! Tá fedeno!
Rita entrou no cômodo, mas seu tapa chegou antes.
— Odeio você! — berrou Augusta, com o rosto marcado, e arrancou a roupa.
As palavras, os gritos, as agressões: a guerra começou cedo. Rita não cedia. Augusta, menos ainda. Então nasceu Franco, em 1900, filho de Rita. Pela diferença de idade, tia e sobrinho acabaram criados como meio-irmãos.
Os cafés da manhã eram regados a conflito.
— Eu vi a empregada usano nossos prato. — Augusta o empurrou com as pontas dos dedos, doze anos de intransigência natural. — Num vou comer nisso.
— O que disse? — Rita, rígida, bateu sobre a mesa.
— Eu. Disse. Que. Num. Vou. Comer. Nisso! — Jogou o prato no chão. — Mande limpar! — Cruzou os braços, virou o rosto e congelou.
Rita foi até a cozinha. Voltou com uma das serviçais, de balde, rodo e pano na mão.
— Assim que deve ser — disse Augusta, feliz pela batalha vencida, olhando pela lateral.
— Dê pra ela — ordenou Rita à empregada. — Enquanto meu rosto não refletir nesse chão, você não come nesses pratos. Nem em prato algum.
Num movimento abrupto, Augusta se levantou e tomou os objetos, agressiva.
— Você é um demônio! — Augusta gritou para a irmã.
— E você um veneno. — Rita segurou-lhe o braço. — Franco não vai crescer com esses exemplos. Anda, limpa logo. Não tenho o dia todo pra suas afrontas. — Soltou, e os dedos ficaram marcados na pele.
Augusta se calou. Sorriu. Começou a limpar. Franco, cinco anos, sentado à mesa, os olhos arregalados. As pequenas violências de Rita sempre lhe causavam desconforto. Augusta enrolava, cantarolando debochada. Rita, em um impulso, avançou.
— Augusta!
— Se quer mais rápido, faz ocê. — Largou tudo. — Ou manda ela!
Ignorou o grunhido da irmã e saiu, os passos marcados no mármore.
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Marcelo Nery nasceu em BH, mas já atravessou muitas dimensões — da Ciência da Computação ao tarô, da sala de aula universitária à criação de mundos em realidade virtual. Conta histórias desde criança, quando ainda achava que fazer drama era um hábito, não um talento. Fora de época, com o coração em technicolor em um mundo que flerta com o streaming, cresceu lendo clássicos brasileiros e virou a mais cafona (e romântica) das crianças viadas. Hoje escreve como quem investiga um mistério — certo de que nada é o que parece e de que quase ninguém percebe
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