por Taciana Oliveira |
A rotina de Francisco é marcada por manias discretas e repetitivas: cozinhar ao som de jazz etíope, visitar a banca de jornais de seu Nilton, organizar pensamentos em frases soltas. Essa aparente normalidade é rompida quando ele encontra, entre suas anotações, uma frase enigmática escrita durante um “apagão” de memória: “Mar. Mulher. Arbustos. Trincas. Olhar arregalado. 00 KMF”. Convencido de que testemunhou um crime, Francisco inicia uma investigação solitária que o leva à Praia da Reserva e à figura de Daniela Junqueira, ativista ambiental assassinada por se opor a um projeto imobiliário em área de preservação. A partir desse ponto, o romance elabora sua principal tensão: até que ponto a investigação de Francisco é fruto de lucidez jornalística, uma última tentativa de dar sentido à vida, ou manifestação de um surto paranoico, como suspeitam seu filho Eduardo e sua ex-mulher Isabel? O passado de internação psiquiátrica do protagonista reforça essa ambiguidade, mantendo o leitor em permanente estado de dúvida. O mistério, mais do que resolvido, é experimentado como processo.
O autor utilliza a narrativa investigativa para aprofundar questões existenciais. O que está em jogo não é apenas a verdade factual sobre um crime, mas a necessidade humana de criar nexos, padrões e narrativas que sustentem a ideia de sentido. As anotações de Francisco funcionam como fragmentos de pensamento, por vezes poéticos, por vezes cômicos, que revelam uma mente inquieta, sensível e cansada, mas ainda em busca de alguma forma de pertencimento. A ambientação carioca, especialmente Copacabana, atua como espelho do estado interior do personagem: um espaço marcado pela decadência, pela beleza persistente e por uma sensação de esgotamento histórico. O bairro surge menos como cenário turístico e mais uma metáfora de um corpo individual e urbano, que resiste ao tempo enquanto se deteriora. O romance avança para um ponto de ruptura quando Francisco, exausto física e emocionalmente, elabora um plano de suicídio. A interrupção desse gesto por um acontecimento banal (um temporal que derruba a caneca com o veneno) desloca a narrativa do desfecho trágico esperado para um encerramento mais sutil e filosófico. Ao abdicar da reportagem e abandonar seus blocos de notas, Francisco escolhe a impermanência, aceitando a incerteza como forma possível de liberdade.
Nesse sentido, Louca normalidade se destaca menos como romance policial e mais como investigação da psique humana diante da perda de controle. A “normalidade” do título revela-se frágil, construída sobre convenções sociais que facilmente rotulam a diferença como loucura. O livro sugere que a verdadeira insanidade talvez esteja na exigência de coerência absoluta em um mundo marcado pela falha, pelo esquecimento e pelo acaso. Plácido Berci concebeu um romance melancólico e perturbador, que transforma a busca por um crime em reflexão sobre memória, envelhecimento e finitude. Louca normalidade é uma leitura que chama o leitor a desconfiar tanto das certezas quanto dos diagnósticos fáceis e a reconhecer, na instabilidade, uma forma legítima de estar no mundo.
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Plácido Berci, 36 anos, é jornalista formado pela PUC-Campinas e atua como repórter e apresentador da editoria de esporte da TV Globo desde 2015. Natural de Araraquara e criado em São Carlos, já morou em cidades como Campinas, Rio de Janeiro, Manchester (Inglaterra) e Nairóbi (Quênia), onde foi o primeiro correspondente esportivo brasileiro. É autor dos livros “Paixão: uma viagem pelo futebol inglês” e “Nuvem de terra: relatos do primeiro correspondente esportivo brasileiro no Quênia”. “Louca normalidade” marca sua estreia na ficção publicado pela editora Mondru.
Taciana Oliveira — Natural de Recife–PE, Bacharel em Comunicação Social (Rádio e TV) com Pós-Graduação em Cinema e Linguagem Audiovisual. Roteirista, atua em direção e produção cinematográfica, criadora das revistas digitais Laudelinas e Mirada, e do Selo Editorial Mirada. Dirigiu o documentário “Clarice Lispector — A Descoberta do Mundo”. Publicou Coisa Perdida (Mirada, 2023) livro de poemas.

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