Popular

Louca normalidade, um romance de Plácido Berci

 por Taciana Oliveira | 



Louca normalidade, de Plácido Berci (Mondru,2025) é um romance que parte da engrenagem do mistério policial para alcançar um território mais instável e delicado: o da memória falha, da velhice solitária e da fronteira imprecisa entre lucidez e delírio. O protagonista, Francisco Solano, jornalista aposentado de 67 anos, mora sozinho em um pequeno apartamento em Copacabana e carrega as sequelas de um AVC hemorrágico que comprometeu sua memória recente. Para não se perder, ele anota tudo em blocos de pape, gesto banal que, no romance, ganha dimensão simbólica e estrutural.

A rotina de Francisco é marcada por manias discretas e repetitivas: cozinhar ao som de jazz etíope, visitar a banca de jornais de seu Nilton, organizar pensamentos em frases soltas. Essa aparente normalidade é rompida quando ele encontra, entre suas anotações, uma frase enigmática escrita durante um “apagão” de memória: “Mar. Mulher. Arbustos. Trincas. Olhar arregalado. 00 KMF”. Convencido de que testemunhou um crime, Francisco inicia uma investigação solitária que o leva à Praia da Reserva e à figura de Daniela Junqueira, ativista ambiental assassinada por se opor a um projeto imobiliário em área de preservação. A partir desse ponto, o romance elabora sua principal tensão: até que ponto a investigação de Francisco é fruto de lucidez jornalística, uma última tentativa de dar sentido à vida, ou manifestação de um surto paranoico, como suspeitam seu filho Eduardo e sua ex-mulher Isabel? O passado de internação psiquiátrica do protagonista reforça essa ambiguidade, mantendo o leitor em permanente estado de dúvida. O mistério, mais do que resolvido, é experimentado como processo.


O autor utilliza a narrativa investigativa para aprofundar questões existenciais. O que está em jogo não é apenas a verdade factual sobre um crime, mas a necessidade humana de criar nexos, padrões e narrativas que sustentem a ideia de sentido. As anotações de Francisco funcionam como fragmentos de pensamento, por vezes poéticos, por vezes cômicos, que revelam uma mente inquieta, sensível e cansada, mas ainda em busca de alguma forma de pertencimento. A ambientação carioca, especialmente Copacabana, atua como espelho do estado interior do personagem: um espaço marcado pela decadência, pela beleza persistente e por uma sensação de esgotamento histórico. O bairro surge menos como cenário turístico e mais uma metáfora de um corpo individual e urbano, que resiste ao tempo enquanto se deteriora. O romance avança para um ponto de ruptura quando Francisco, exausto física e emocionalmente, elabora um plano de suicídio. A interrupção desse gesto por um acontecimento banal (um temporal que derruba a caneca com o veneno) desloca a narrativa do desfecho trágico esperado para um encerramento mais sutil e filosófico. Ao abdicar da reportagem e abandonar seus blocos de notas, Francisco escolhe a impermanência, aceitando a incerteza como forma possível de liberdade.


Nesse sentido, Louca normalidade se destaca menos como romance policial e mais como investigação da psique humana diante da perda de controle. A “normalidade” do título revela-se frágil, construída sobre convenções sociais que facilmente rotulam a diferença como loucura. O livro sugere que a verdadeira insanidade talvez esteja na exigência de coerência absoluta em um mundo marcado pela falha, pelo esquecimento e pelo acaso. Plácido Berci concebeu um romance melancólico e perturbador, que transforma a busca por um crime em reflexão sobre memória, envelhecimento e finitude. Louca normalidade é uma leitura que chama o leitor a desconfiar tanto das certezas quanto dos diagnósticos fáceis e a reconhecer, na instabilidade, uma forma legítima de estar no mundo.


Compre o livro: clica aqui




Plácido Berci, 36 anos, é jornalista formado pela PUC-Campinas e atua como repórter e apresentador da editoria de esporte da TV Globo desde 2015. Natural de Araraquara e criado em São Carlos, já morou em cidades como Campinas, Rio de Janeiro, Manchester (Inglaterra) e Nairóbi (Quênia), onde foi o primeiro correspondente esportivo brasileiro. É autor dos livros “Paixão: uma viagem pelo futebol inglês” e “Nuvem de terra: relatos do primeiro correspondente esportivo brasileiro no Quênia”. “Louca normalidade” marca sua estreia na ficção publicado pela editora Mondru.



Taciana Oliveira — Natural de Recife–PE, Bacharel em Comunicação Social (Rádio e TV) com Pós-Graduação em Cinema e Linguagem Audiovisual. Roteirista, atua em direção e produção cinematográfica, criadora das revistas digitais Laudelinas e Mirada, e do Selo Editorial Mirada. Dirigiu o documentário “Clarice Lispector — A Descoberta do Mundo”. Publicou Coisa Perdida (Mirada, 2023) livro de poemas.