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Mortes Preciosas | Valdocir Trevisan

 por Valdocir Trevisan | 


Foto de Big Dodzy na Unsplash

Mortes Preciosas

 

Como é?

O blogueiro enlouqueceu…

Tenho lido muito Soren Kierkegaard…

Há três ou quatro anos escrevi um texto chamado “Temos que Morrer” e retorno à temática.

Mas… ainda assim… “mortes preciosas”… é forçar a barra.

Bom, vamos lá, no antigo texto uma família descobriu um poço com água que “imortalizou” todos eles, mas o que era para ser uma dádiva se revelou uma desgraça.

Eles não iriam morrer nunca, permaneceriam com a mesma aparência para sempre.

Que horror…

O jovem apaixonado nunca poderia se aproximar de sua paixão, ela cresceria, amadureceria…morreria…

Perfeito.

E ele, o Imortal, terá que viver escondido, num marasmo e tédio infernal.

Oh, onde está a morte necessária, preciosa?

O filósofo Daniel Gomes de Carvalho, em seu livro “Filosofia para Mortais”, repete a alegoria sugerindo que uma sociedade fictícia chamada “Dohrnii” possui o mesmo remédio, onde todos eles são imortais.

Como acreditam ter todo o tempo pela frente, acabam perdendo a motivação e até a esperança. E Carvalho vai além: “Como não viam necessidade de pedir desculpas ou assumir compromissos, os dohrnienses se tornaram rudes e grosseiros.”

E vejam, que louco, por serem eternamente jovens e belos, ocorreu que ninguém era belo e jovem.

Ninguém procurava o outro, ora, havia muito tempo pela frente.

O amor desapareceu.

E o que era doce ficou azedo, muito azedo.

Agora, seu Kierkegaard, como fica o “absurdo” da vida sem a…morte…?

Sem aquela morte… preciosa…

Diante de tanto existencialismo, O Estrangeiro de Albert Camus intercepta meu sono e um vazio estranho me deixa mais estranho ainda.

O absurdo do cotidiano, quando rejeita o dia, deixa perplexo até o “estrangeiro” de Camus…

É evidente que não quero morrer, apenas perder o medo, ora, vejam, ela é necessária (a morte), faz parte.

 Daniel Gomes de Carvalho segue a jornada e imagina, após 300 anos, uma morte no reino Dohrnii.

Como diz o gaúcho: Mas que barbaridade!

Por não estudarem mais, julgavam não haver necessidade, ficaram perplexos, sem saber como repor o remédio da imortalidade.

Voltou o medo, a angústia…

Porém, retornaram antigos valores: o amor ressurgiu (havia a necessidade de amar o próximo), voltaram a admirar a natureza, sentir saudades, enfim, voltaram a ser mortais e conviver com os absurdos reais e imaginários de todo e qualquer ser humano.

Saudando, imaginem… a morte…

E alguns elementos, a exemplo  daquela mulher e aquele homem, tal qual argumenta Graciliano Ramos em “Angústia”, “entram no quarto procurando um refúgio no passado, não conseguindo se esconder por inteiro”…


Valdocir Trevisan é gaúcho, gremista e jornalista. Autor do livro de crônicas Violências Culturais (Editora Memorabilia, 2022)