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Amadeo de Souza-Cardoso: a força da pintura | Renato Epifânio

 por Renato Epifânio |




“Parto da Viola”: Museu Calouste Gulbenkian – Colecção Moderna (Lisboa) – Catálogo: Amadeo de Souza-Cardoso (2016 – 1916 – Porto – Lisboa). Estudo sobre esta pintura em 5 de Orpheu, por LBTavares.


Texto originalmente publicado no jornal semanal O Diabo – 05/12/2017 (PT).

Recentemente publicado em obra colectiva (ebook – Cidades de Amadeo) – Edições Húmus – 1ª edição: Novembro 2025.

Publicado agora na revista Mirada, e incluído na série "Poeiras da Filosofia" (juntaram-se algumas imagens e um anexo para contexto): Poeiras da Filosofia XIX.


Luís de Barreiros Tavares, Amadeo de Souza-Cardoso – A Força da Pintura (arte, ressonâncias modernas e contemporâneas), prefácio de José Martinho, Ed. MIL, Lisboa, 2017, 126 p. [26 ilustrações]. Imagem da capa Littoral — Tête ou Cabeça, Aguarela sobre papel, 25,3 x 16,3 cm, c. 1915 — CAMFCGulbenkian.



Amadeo de Souza-Cardoso: a força da pintura 

Renato Epifânio*


Decerto, uma das grandes questões que se levantam na apreciação de qualquer obra de arte é a inevitável dessintonia entre o olhar do seu criador e de quem aprecia a obra. Como se refere no livro de Luís de Barreiros Tavares, Amadeo de Souza-Cardoso: a força da pintura, citando-se Paul Klee: 

Será que um quadro nasce de um gesto único? Não, constrói-se peça por peça, tal como uma casa. E o observador consegue apreender o quadro com um único olhar? (Muitas vezes sim, infelizmente.) 

No caso da obra plástica de Amadeo de Souza-Cardoso (1887-1918), essa dificuldade parece aumentar, desde logo pela própria posição do criador, auto-proclamadamente fora de qualquer escola ou corrente que pudesse, de alguma forma, orientar o nosso olhar: 

Eu não sigo escola alguma. As escolas morreram. Nós, os novos, só procuramos a originalidade. Sou impressionista, cubista, futurista, abstraccionista? De tudo um pouco. Mas nada disso forma uma escola. 

Se há, porém, algo que transparece na sua obra é a força de um carác ter, de um temperamento – como igualmente se refere neste livro, dando-se voz ao próprio Amadeo: 

Ninguém deixa de fazer uma obra de arte intensa por falta de técnica mas por falta de outra coisa a que se chama temperamento. Enfim, para mim os tais artistas de técnica acabaram.

Amadeo parecia estar em guerra permanente com o mundo – no livro, alguém refere mesmo que ele se havia preparado para uma certa exposição «como quem se prepara para a guerra». Daí, também, a alusão a uma permanente insatisfação: «Permanentemente insatisfeito; insatisfeito entre Manhufe e Paris […]; só está bem onde não está». 


Título desconhecido, c. 1911-1912 – Óleo sobre madeira – 28,6 x 46,3 cm – Museu Municipal

Amadeo de Souza-Cardoso, Amarante. Cf. Catálogo Raisonné.


Esse assumido desprezo pelos “artistas da técnica” tê-lo-á levado a adoptar, pelo menos nalguns casos, uma «técnica propositadamente rude e tosca», como escreveu o autor deste muito interessante livro, Luís de Barreiros Tavares. Poder-se-á, a este respeito, estabelecer uma ponte entre Amadeo de Souza-Cardoso e o seu conterrâneo Teixeira de Pascoaes (1887-1952), pelo menos na visão do seu mais insigne hermeneuta – falamos de José Marinho (1904-1975) –, bem expressa no livro postumamente publicado Teixeira de Pascoaes, Poeta das Origens e da Saudade


Nesta sua obra, com efeito, José Marinho valorizou a poesia de Teixeira de Pascoaes por ser «autenticamente original» – como ressalvou, «no sentido mais puro, como Leonardo Coimbra assinalou: original porque vem da origem» –, não por ser “artista”. Muito pelo contrário – chegou a qualificá-la como «a poesia menos ‘artista’, a menos latina e ladina, a menos francesa». Algo que, de resto, já havia acontecido em relação a outro grande poeta: Guerra Junqueiro (1850-1923), igualmente por José Marinho considerado como «original» e «pouco, ou nada, artista». Em suma, na arte como na vida, o que mais importa é a força do carácter, do temperamento. 


Título desconhecido (Estudo para farol bretão), c. 1914 – Óleo

sobre cartão – 23,5 x 16 cm – Galeria Dominguez Alvarez. Cf. Catálogo Raisonné.



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Amadeo de Souza-Cardoso – Paris, 1907. 


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Anexo 

por Luís de Barreiros Tavares 

“«Je te salue, vieil, océan!» (Lautréamont, Les chants de Maldoror), evocado por Jean-Luc-Nancy a propósito das «Têtes Océan» (Cabeças-máscaras Oceânicas) de Amadeo.”

Jean-Luc Nancy e Luís de Barreiros Tavares, Sulcos

Outros livros, artigos e contributos de Luís de Barreiros Tavares sobre Amadeo de Souza-Cardoso: 1. Revista Nova Águia nº 18 – 2º semestre 2016 (estudo preparativo para …A Força da Pintura…em linha); revista Caliban – “Máscaras e cabeças oceânicas I” – 27/01/2017; revista Caliban – “Máscaras e cabeças oceânicas II” – 03/02/2017; revista Caliban – “As cabeças elementares” – 18/03/2017); livro 5 de Orpheu (Almada, Amadeo, Pessoa, Santa Rita, Sá-Carneiro – 2018); revista Nova Águia nº 23 – 1º semestre 2019 (“Pascoaes e Amadeo […] «O Pobre Tolo» e «O Pobre Louco»”; livro Redenção e Escatologia (obra colectiva) – “O sentido do religioso em Amadeo de Souza-Cardoso” – 2022) – em linha. 2. Revista Caliban – prefácio do livro … A Força da Pintura… – por José Martinho – 30/12/2025. 3. Nova Águia nº 15 – 1º semestre 2015 (contributo com a publicação de um poema de Manoel T. R.-Leal invocando Amadeo – ler aqui uma versão); livro Sulcos de Jean-Luc Nancy e Luís de Barreiros Tavares (“Amadeo de Souza-Cardoso é um pintor fascinante!” – Nancy).


“A Ascensão do Quadrado Verde e a Mulher do Violino” – 1916 – cera sobre tela – 180 x 100 cm –

Museu Municipal Amadeo de Souza-Cardoso. Cf. Catalogue de l’Exposition – Paris – Grand Palais – 2016.



*Texto, imagens e referências coligidos por Luís de Barreiros Tavares





Renato Epifânio (1974) é Professor Universitário; Membro do Instituto de Filosofia da Universidade do Porto, da Direção do Instituto de Filosofia Luso-Brasileira, da Sociedade da Língua Portuguesa e da Associação Agostinho da Silva; investigador na área da "Filosofia em Portugal", com dezenas de estudos publicados, desenvolveu um projeto de pós-doutoramento sobre o pensamento de Agostinho da Silva, com o apoio da FCT: Fundação para a Ciência e a Tecnologia, para além de ser responsável pelo Repertório da Bibliografia Filosófica Portuguesa; Licenciatura e Mestrado em Filosofia na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa; doutorou-se, na mesma Faculdade, no dia 14 de Dezembro de 2004, com a dissertação Fundamentos e Firmamentos do pensamento português contemporâneo: uma perspetiva a partir da visão de José Marinho; autor das obras Visões de Agostinho da Silva (2006), Repertório da Bibliografia Filosófica Portuguesa (2007), Perspectivas sobre Agostinho da Silva (2008), Via aberta: de Marinho a Pessoa, da Finisterra ao Oriente (2009) e A Via Lusófona (vários volumes). Dirige a Nova Águia: Revista de Cultura para o Século XXI (Zéfiro). Preside ao MIL: Movimento Internacional Lusófono. É Membro do Conselho Supremo da SHIP: Sociedade Histórica da Independência de Portugal. Ver também Wikipédia.