Dia de Feira | Davison da Silva Souza

  por Davison da Silva Souza |


Foto de Ali Mkumbwa na Unsplash

DIA DE FEIRA 

Há algo ancestral na feira — e não estou falando apenas da organização que veio de África enquanto tecnologia social, em que pessoas se reuniam para trocas e vendas de produtos locais ou estrangeiros. Na feira há a possibilidade de retorno; nela existem produtos que não são de fácil acesso na cidade: comidas típicas do sertão, como rapadura, queijo fresco e nata; plantas medicinais, como eucalipto, alfazema e cidreira; condimentos, como pimenta pisada na hora e colorau; frutas como pitomba, cajá, caju e acerola. 

Além disso, a feira traz a lembrança da casa de vó. Os diversos cheiros presentes na feira me remetem a Dona Petronilha — ou, como era conhecida pela comunidade, dona Petinha —, uma mulher negra sincrética, com conhecimentos do catolicismo e do candomblé. Rezadeira, benzia as crianças e demais pessoas com folhas de pinhão-roxo. Tinha cabelos escuros e curtos e uma mão cheia para preparar alimentos apimentados; veio dela a minha paixão por pimenta. 

Tenho vaga lembrança da casa dela: ao descer a rua sem saída, feita de calçamento, subo o batente e adentro a baixa-porta. Ao ingressar na casa, o forte cheiro de pimenta se espalha. Meu corpo-menino se move para a cozinha. Lá vejo minha avó, uma figura negra imponente, com a pele negra da cor da minha. Estico minha mão, peço a bênção, ela segura minha mão, eu a beijo e ela me abençoa. 

Na cozinha, diversas sacolas vindas da feira — com peixe, carne moída, pimenta, alho, cebola, pimentão e algumas frutas — se espalham sobre a mesa de madeira, junto com seus aromas, que se espalham pela rua. Ela lava as mãos nas águas sagradas da pia e começa a bolear a carne moída. De uma mão a outra, faz bolinhas e adiciona pimenta — bastante pimenta. Parte das almôndegas ela põe em uma sacola de plástico, entrega ao meu irmão e pede que ele leve para casa, para que nossa mãe possa prepará-las no almoço. 

Eu, admirado pela ciência que ela produz, levanto o rosto e a olho com o olhar de minha meninice. Ela me olha de volta e sorri. Ando pelo corredor e chego ao quintal. Olho, e todas as plantas estão verdes. O pé de goiaba inclinado me convida a subir e experimentar o fruto maduro de seu galho. Apoio minhas mãos em seu tronco, levanto os pés e consigo subir. Com um equilíbrio meio desequilibrado, me levanto. O vento que sopra as folhas me balança; agarro-me a um de seus galhos e consigo alcançar uma goiaba. Passo as mãos nela, na

intenção de limpar as impurezas — da goiaba ou das minhas mãos? Talvez das duas. Em seguida, mordo-a; sua casca verde se mostra tão doce. 

Cuspo suas sementes no chão, na esperança de que o ciclo da vida aconteça e que outro pé de goiaba nasça daquele solo fértil de ancestralidade.





Filho do seu José e da dona Maria, me chamo Davison da Silva Souza, mais um Silva, da periferia de Fortaleza. Mestre em Educação e Ensino (Maie-Uece), professor-alfabetizador da Rede Municipal de Ensino de Fortaleza, ilustrador, cronista e andarilho da imaginação.